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domingo, 12 de dezembro de 2010

O Prosador


A visita que resolveu fazer aos amigos surgiu num estalo a idéia. Aquele dia inspirador, bonito, primaveril, talvez o tenha convencido a um passeio extravagante como esse.

Chegou arrumado, uma pinta de barão, todo chique, trazendo o guarda-chuva pendurado no braço como se assim fosse uma elegante bengala; sempre prosador, bom papo. Nessa tarde, então, andava de um lado a outro explanando idéias, opiniões, ora radicais, outras vezes amenas. Divergia, apoiava com entusiasmo empolgante, animador. Queria conversar, rever todos.

A certa hora, mediante animação envolvendo o ambiente, apresentaram ao amigo visitante uma cachaça que surpreendentemente não conhecia nem de nome: Tiquira. Logo cresceu o olho e não se fez de rogado em experimentar. Gostou. Passou a bebericar, a princípio moderadamente. Um gole aqui, outro acolá, e de gole em gole, entre observações gabava-se de nunca ter sido derrubado por nenhuma danada. Com o decorrer da prosa, os discretos goles passaram a escancaradas talagadas, dando sinais de possível nocaute pela então recém-apresentada Tiquira. Era evidente.

A tarde foi se tornando morna, o sol baixando, a noitinha chegando e o amigo já trocava as pernas. Procurava disfarçar o tremendo pileque, tremendamente visível, apoiando-se no guarda-chuva reduzido à bengala. Mas o pior, talvez, seria aquela ressaca moral do dia seguinte a perturbar-lhe as idéias, cobrando o acontecimento que não desejava e não queria lembrar tão cedo. E balançando o corpo, postado frente à garrafa, ele arrastava a voz em meio a uma frase que tirou não sei de onde, e repetia num insistente, cansativo bordão:

- Ah! Então foi essa que derrubou o guarda?! Foi essa?.. Então foi...

As palavras iam perdendo-se entre risadas, gracinhas, piadas, nascendo assim uma boa história a render por um bom tempo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Na rua de blusa amarela

Bandeiras, faixas, músicas, espalhavam-se por toda praça e manifestações corriam o país inteiro. Sopravam bons ventos, um sinal de tempo novo fazia-se vir. O tempo era então das Diretas Já.

Coragem, determinação pulsavam firme no coração e empenho da União de Mulheres de São Paulo. Destemida, atuante, sempre na linha de frente das lutas mobilizava-se mais uma vez nessa arrancada que sacudia o país. A praça Ramos de Azevedo tornava-se referencial, ponto de encontro das mulheres empenhadas nesse novo contexto político; ali fervia o entusiasmo e a paixão pela causa: passeatas, cartazes, panfletos, botons, camisetas. Palavras de ordem desfilavam ante os olhos de simpatizantes, observadores e curiosos. Otimismo dominava naquele ambiente cívico desejoso de transformação. O microfone funcionava em clima de tribuna livre, espaço democrático a todos ansiosos de expressar idéias e sentimentos.

Os tons rosa-choque, lilás, predominavam enfeitando nossos cabelos. Fazíamos flores de papel crepom, simbolizando nossa luta naquela jornada de patriotismo. Sem êxito, o Brasil chorou.

Forasteiro



Surgia do nada, inesperadamente. Errante, maltrapilho, sujo, um abandono só. Ele ria, o riso desandava em risada macabra escancarando os dentes afiados. Resmungava, blasfemava.

Léguas e léguas a pé. Lá um dia chegava, se aboletava em chão vazio ou alguma casa abandonada. Desconhecia a si próprio, realidade com que convivia. Respondia tão somente, sinsinhô. E passou a ser apenas “Sinsinhô”. Como num ato de obediência balançava a cabeça num gesto contínuo. E a risada atemorizava.

À noite, diante do fogo em labaredas tamanhas, abismado, imolava o destino, sina, vida, tudo que não mais entendia. Exorcizava a si próprio tomado inteiro pela loucura; maldito, doido totalmente, banido, fora do mundo real.

Sim, senhor!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Meus filhos


Todos os partos foram assim, não conseguia dormir depois de dar a luz. Ficava em êxtase. Olhar do meu lado aquela coisinha pequenina linda há pouco nascida de mim era o que havia de mais belo e gratificante.

Nesses momentos sublimes vivi o supremo da felicidade que é possível experimentar.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Discurso

Decididamente não me apaixono mais. Assim concluí depois de refletir e analisar prós e contras. No entanto, surpreendo-me rompendo essa prolongada estiagem sentimental, recebendo por inteira a paixão que me chega aberta, sem meio termo, concreta. Iniciação de um novo amor. Paixão incontida, explícita, declarada em um livro como presente:”Fragmentos de um discurso amoroso”. Preciosidade literária tocando em cheio a minha fragilidade emotiva. Embarco nessa reciclagem da vida, renovo o espírito, refaço sonhos, projetos, banho-me na imaginária fonte da juventude, respiro o novo, vivo a cumplicidade de tudo. O relacionamento se mostra bonito: gesto, olhar, carinho; dose certa inspirando versos, frases, intensidade no amar. Tudo fugaz, veloz e também atroz.

Em pouco tempo, discordância de valores, disparidade nos conceitos me faz enxergar uma pessoa camuflada, voltada para si, que só blefava. O racional mostra que somos tão antagônicos como o dia e a noite. Só o entusiasmo da paixão nos unia, mas não me bastava e não era isso que daria estabilidade emocional. Quero cabeça e corpo em sintonia.

Deixo-o, saio sorrateira, ilesa, impossível, mas estou inteira. Viajo na imaginação e concluo novamente: decididamente não me apaixono mais. Será?

S.Paulo, outubro de 1995

Reflexão na cozinha





Pratos, panelas, talheres, fogão, tudo disposto na minha frente repetindo esse cotidiano banal de dona de casa. Entro na cozinha, essa parafernália quase me leva ao desânimo total. Salva-me, no entanto, o mural da mulher logo ali na parede retratando preconceito, violência, luta e conquistas ao longo do tempo. Informação misturada ao estridente som da panela de pressão e o barulho da água na lavagem das louças.

Corro os olhos novamente no canto, releio um célebre conceito de Simone de Beauvoir:

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.”

Convincente, atual, racional, Retorno à condição de “doméstica” de igual para igual.

S.Paulo, 1995

Faz de conta...


Abro a porta do quarto e as vejo paradas, olhos fixos, nem brilho, nem vida. Imagino uma suposta ansiedade lhes afligindo: a eterna espera de amiguinhas que as levem para brincar. Nenhum sorriso e as vestes ultrapassadas demonstram que o tempo correu, a tecnologia avançou e elas ficaram para trás.

Bolota e Bolotinha permanecem no seu universo de faz de conta. Empoeiradas, descartadas na pequena mesa desejando que pelo menos uma mãozinha estabanada as joguem para outro lugar num inconseqüente gesto carinhoso.

(em homenagem a Bolota e Bolotinha, as primeiras bonecas que Larissa ganhou quando bebê.)

S.Paulo, 28 de agosto de 1995

O jardim



Agora sim, olho satisfeita para o jardim: arrumado, replantado com ares de espaço organizado. A limpeza que lhe dei valeu, embora não seja adepta dos jardins certinhos. Aliás, urbanismo em excesso que descaracteriza a natureza não me atrai. Gosto de olhar plantas, mato no seu estado natural sem que seja modificado segundo a vontade e capricho do homem. Cresci com as matas circundando minha terra e o oxigênio puro entrando em meus pulmões numa perfeita sintonia de vida saudável. Mas em um espaço pequeno é diferente, as opções são mínimas, tento encontrar acomodação para cada planta em especial as menores, visto que as maiores tornam-se donas do pedaço. A jibóia então, que por si já é espaçosa, desenvolve-se em disparada querendo o chão só pra ela. O mastruz, consegui tirá-lo do encolhimento rasteiro a que se encontrava; já respira aliviado e começa abrir algumas folhinhas exalando cheiro bom de remédio caseiro, cutucando uma saudade distante, porém sem castigar, lembranças apenas, aguçando a origem nordestina. Na minha cidade ele viceja numa espontaneidade absoluta com folhas maiores abertas, abençoado pelo bom clima. É lendário, polivalente: cicatriza fraturas, cura gripe, serve para estômago, pulmão, enfim, fortalece o corpo contra doenças; já o experimentei, acredito em todo o seu potencial. Trato-o com esmero para que o frio não o castigue tanto. Logo adiante está a maria-sem-vergonha, fagueira, espremida entre samambaias, folhagens e espada de São Jorge; teima com sua fragilidade disputar com outras plantas um lugar onde possa sobressair suas singelas florzinhas coloridas de rosa púrpura, rosa desbotado, vermelho e assim com inúmeras mutações vai agradando e conquistando todos.

Bem no canto, grudado no pequeno muro que dá para a rua debruça-se o boldo, seus galhos curvados como que numa reverência dissesse: “ Estou aqui, alivio o mal do estômago de boêmios e sóbrios, experimentem-me”. Encostado ainda nesse baixo muro, fazendo divisa com a casa do bom amigo Maurício cresce uma grande folhagem, e como cresce! Sua altura já toca as telhas do terraço. Uma pequena muda fez-se desenvolver em várias. Na primavera surge dessas folhas compridas a beleza: cachos de botões pequenos colados uns aos outros de um rosa discreto, belo, porém, quando as flores desabrocham surpreende com o tom de amarelo forrando o interior de cada uma. Ainda no jardim crescidas em estado adulto, dois pés de Iris, suas folhas longas e duras lembram talos a nascer do chão, do meio brotam pequeninos botões que vão surgir. Cada botão guarda em si uma linda flor lilás semelhante à orquídea, extremamente sensível e delicada, essa demonstração de beleza renasce com a primavera, estende-se até o verão, depois recatam-se botões e flores.

E assim, nesse arranjo num pedacinho de chão na entrada da casa cada planta exibe particularidade e excentricidade diversa florindo no tempo pré-estabelecido pela natureza; somente a maria-sem-vergonha me surpreende: incansavelmente colorida, incansavelmente faz-se resistente o ano inteiro, não importa o tempo.

Uma lição que me reabastece de vitalidade.

São Paulo, 1999

No supermercado


Já entro no supermercado convicta de que vou gastar só o necessário. Com o dinheiro curto, contadinho na bolsa e a frase "contenção de gastos", chavão que guardei na cabeça de tanto ouvir governos e políticos querendo mostrar seriedade, mas que não emplaca porque não passa de blefe. Sou povo e não acredito mesmo. Mas isso é outra história que não cabe aqui.

Logo de cara paraliso diante de um stand com flores artificiais extremamente delicadas e bonitas. Tentação! não é possível, sou fascinada por flores e estas aqui estão do jeito que eu quero, têm um ar todo natural. Poderia levar algumas para aquele vaso grande que há tempo precisa de um belo arranjo, pensei; ficaria ideal e minha sala ganharia outra vida! Mas trocar comida por supérfluo é insensatez demais. Caio na real e pego o primeiro carrinho que vejo pela frente. Armada com a listinha na mão procuro apressada me desvencilhar da tarefa do “lar doce lar: quem o definiu dessa forma? Irônico ou não, tem sempre pedacinhos de jiló entremeados nesse doce.

Na disparada de querer sair logo dali topo de cara com minha amiga “chocólatra”, como se autodefine. Quase irreconhecível, magérrima, e pra que isso acontecesse deu um basta no tesão por chocolates e decidiu afinar a silhueta nos moldes do “culto ao corpo”: - Nossa, santa, como você está bela! falei. E a sua gargalhada espalhou sons de felicidade, percebi no seu rosto. Botamos algumas fofoquinhas em dia, um longo abraço pelo longo tempo sem nos vermos e ela seguiu rumo ao caixa com sua cestinha de diets. Fiquei feliz de vê-la assim.

Retorno às compras mal iniciadas. Vou em cada corredor atenta pra não esquecer nada. Sou dispersiva, muitas vezes até a listinha perco, difícil será evitar aquele stand. Se pudesse passar de olho fechado... impossível, vou trombar com alguém e com certeza vão achar que sou meio pirada. No ziguezague com o carrinho outra tentação, só que menor: cremes, xampus e tudo que a propaganda joga com força total para o consumidor. Detenho-me lendo seus efeitos mirabolantes e as mentirinhas embutidas, quero levar pelo menos um, mas novamente o racional me cutuca e lembro que é só o essencial, nada mais.

Já começo me irritar com o tal senso de racionalidade pegando no meu pé, me policiando. Estou na maturidade, extrapolar um pouco não é nada mal, já ganhei experiência suficiente para enxergar com clareza, prós e contras, certos e errados. Paro com o pensamento individualista e me concentro novamente no meu cotidiano coletivo: filhos, neta, direitos iguais, etc.; só então percebo que já está em cima da hora de chegar em casa, tenho um compromisso que por nada quero perder.

Dou mais uma caminhada e logo estou no caixa abraçada a um extravagante e colorido arranjo de flores. No momento é só isso que eu quero, o arroz integral de Larissa ficará para depois.

São Paulo, 5 de dezembro de 1995

domingo, 5 de setembro de 2010

Sem rumo

Vagava como sentenciada a Deus dará pelos caminhos do vilarejo. Os pés enfiados na areia cumpria uma via crucis de andarilha sem rumo, insana, catatônica, alheia ao próprio fado perambulava. O vento acompanhava aqueles passos largos, ligeiros andando à toa mundo afora. Mal o dia surgia ela seguia procurando o nada, buscando o vazio, o indefinido; assim doida, maluca, perdida em outra dimensão do tempo, penava. O rosto marcado por traços pesados demonstrava expressão dura, ausente de qualquer alegria: não falava, sequer sorria; chorar muito menos. Dois olhos imensos arregalados carregam espanto, medo, assustando numa interrogação indecifrada. Sorrateiramente escondia-se entre coqueiros, espreitando, vigiando, como se fugisse do algoz.

E o vento soprava, sibilava do mar, da praia, do vilarejo e manguezal. Ventava ainda em seu cabelo desgrenhado querendo arrancá-lo, fazê-lo voar, sumir, se perder em pequenos minúsculos pedacinhos. Ventava também no vestido de chita velho, amassado balançando no corpo magro, comprido, espichado, sustentado pelas canelas secas encardidas que o sol castigava nas andanças do dia.

Vivia assim consumida, não tinha descanso, nem pausa, nem trégua. Girava sem norte num imaginário obscuro, território intransponível que só ela comandava. Ali era dona, guerreava doidamente contra fantasmas. Envelheceu nessa contenda que lhe levou força, luta e vida. Sucumbiu vencida.

Triângulo incomum

Ninguém entendia o triângulo amoroso que surgiu na cidade ordeira e pacata aos olhos de todos, que incrédulos, admirados e pasmos, murmuravam. Viviam sob o mesmo teto, dividiam espaço, cotidiano, prazer nessa íntima união, escancarando uma relação nada convencional para a época.

Duas mulheres no frescor da idade e um homem: caboclo rude, grosseiro, atarracado, com fama de bravo.

A casa onde viviam era modesta, espaçosa, cômodos simples, de frente para o mar onde chegava uma brisa que a refrescava, deixando-a arejada o tempo inteiro. Ali avistava-se uma paisagem familiar: barcos e canoas integrados à rotineira vida do porto, ora barulhento, outras vezes sossegado. Comentários e boatos não faltavam em torno do tão falado caso.

Certa tarde surgiram os três a passeio. Ele no meio de braços dados com as jovens exibia um caminhar empavonado, vaidoso, compenetrado, de posse e domínio da situação; sequer incomodou-se com olhares curiosos, perplexos daqueles que os viam. As moças, ao contrário, inibidas não passavam de uma semelhança só; eram o retrato fiel da submissão. Vestiam-se iguais: tecido, modelo e cor. Aquele azul turqueza estampava em seus rostos quietude e servidão. Cena patética, inusitada, que a memória guardou.

domingo, 22 de agosto de 2010

Seu Chang






Corre pela Vila o boato que seu Chang vai passar o ponto, mudar de endereço e descansar em duas confortáveis aposentadorias. A notícia me pegou de surpresa, fiquei perplexa. Logo eu que compro na caderneta, já tenho a cerveja geladinha de reserva e o tira gosto bem ao estilo chinês ficar agora à mercê de outro dono bom caráter ou mal caráter, nem pensar! Nessa venda, seu Chang é insubstituível. A boa turma do bate-papo e do funil começa articular um apelo: cartazes afetivos que vão tocar em cheio a sensibilidade do bom chinês.Mas só cartazes é pouquissimo, devem esquematizar algo certeiro. Um abaixo assinado talvez fale mais alto com assinaturas de peso encabeçadas por Roberto; aí sim, vai balançar os alicerces da emoção do velho Chang. Tudo isso para segurá-lo ainda é pouco, ele vale mais. Muito mais.

De cada frequentador do empório sabe a bebida, dose certa e hora de servi-lo. Na disputa pela cerveja reserva no fríser a marca e preferência de cada um. A tolerância estende-se ao fiado, permitido ao freguês que conquista a sua confiança. Benditos fiado e caderneta, velhos cúmplices, parceiros dissimulados. O surrealismo ali é permanente."Empório Santa Terezinha", poucos sabem que esse é o verdadeiro nome. No entanto a placa está lá, desgastada e suja. Pombos arrulham nas prateleiras, cachorro e gatos fraternos entre si enroscam-se nas mercadorias; poeira, velharia, passado e presente lento. Nenhum conforto, porém acolhedor. Política, fofocas, histórias, risadas, piadas. Cotidiano mesclado, mastigado, degustado ou expelido no empório

Quando instigado, o bom chinês fala um pouco de si. Foi da guarda de Chiang Kai Chek: nacionalistas e comunistas lutando na guerra civil. Em 1948, derrotados, rumaram para Formosa e lá empregou-se como funcionário de um banco.O tempo correu e em 1973 ele chegou ao Brasil, São Paulo, Tatuapé. Como meio de vida buscou o comércio instalando-se no início de 1980 na Vila Mariana. Por coincidência eu também estava chegando. Nordestina, migrava carregando luta, labuta, filhos, num itinerário que era a mesma Vila Mariana. Dessa forma acabamos sendo vizinhos e o tempo encarregou-se de nos tornar amigos.

Chang Chin Ping é mais que uma crônica. Um poema concreto, correto, discreto. A maturidade não o dobrou, permanece esguio como as palmeiras da minha terra que o vento não verga, só balança. O pé de meia já fez e as filhas vivem no exterior, bem cuidadas. A fórmula para não envelhecer ninguém sabe talvez o chá que toma o dia inteiro.

Continuo intrigada, procuro saber a verdade do boato. O riso largo do seu Chang, o olho fechando dão a certeza da permanência de tudo e todos. Pombos, gatos, cachorro continuarão a exercer domínio no empório.

Outubro/1995



Um tipo folclórico


O temporal desabava e ele no meio da estrada ou embrenhado no mato não se molhava. Podia despencar raio, tempestade, todo malefício do mundo nada o atingia. Tinha o corpo fechado, todos diziam.

Esse boato era antigo a respeito de um feiticeiro temido, que além da fama ainda se transformava em bode, assustando, botando para correr alguém que estivesse ao seu alcance. Curioso em tudo isso é que o tipo dele não correspondia às proezas ditas a seu respeito: baixinho, magro, todo franzino, um homem calado de olhar desconfiado. No entanto era o surrealismo em pessoa. Morava pobremente em um povoado cercado dessas histórias que tomavam forma e proporções de acordo com o imaginário de quem as contavam.

Sempre descalço e as canelas finas igual graveto empoeiradas de estrada, onde caminhava léguas até a cidade para chegar ao itinerário, que era quase sempre o mesmo: a farmácia. Esse saci de duas pernas despertava medo nas crianças, que escondiam-se para espiá-lo com a curiosidade ingênua da infância. Mostrava-se arredio, voz de pouca fala, cauteloso. Carregava o dinheiro em um lenço branco que conduzia amarrado consigo, e assim pagava as miudezas compradas nas quitandas. Envolvido por esse folclore que lhe confiava aura de bruxo debandava deixando no rastro lenda e assombração.

Para minha terra, Guimarães



Espiei pela fresta da janela, amanhecia ainda. A barra do dia se mostrava inteira, formosa, avermelhada sobre a pureza do azul que dominava o firmamento por inteiro. Uma manhã que não despertara de vez: nenhuma alma viva transitava, sussurro sequer se ouvia, total silêncio, exceto os galhos das árvores guiados pela leveza da brisa balançavam em pequenos movimentos. A aurora renascia tomada pela paz harmoniosa que vigiava a cidadezinha sem pressa de acordar.

Contemplei o espetáculo, prazer e nostalgia partilhavam comigo esse retorno de longa ausência.

A terra-mãe tão amada me afagava, sentia-me lisonjeada

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O cachorro da minha infância





Chegou lá em casa ainda pequeno, um vira-lata malandrinho preto, mirrado, que ganhei do meu padrinho, um senhor que pouquíssimas vezes vi e nenhum contato tive, a não ser no dia que levou o cachorrinho e com ele nos braços e entusiasmado disse ser meu. Gostei, mas achei estranho o nome que trazia pomposo até, não soava certo para animal, imaginava; "Gaucho", precioso presente que logo se adaptou ao nosso convívio e com o decorrer dos anos tornou-se fiel amigo.

Já adulto às vezes sentava-se aos pés de mamãe no cartório e enquanto ela trabalhava não permitia nenhum estranho entrar; rosnava bravamente avançando contra aquele que imaginava ser invasor. A disputa por Gaucho girava entre mim e o primo Manoel, que esperava fazer do vira-lata um campeão de briga capaz de desbancar qualquer um; porém, existia sim em Guimarães, um cão feroz imbatível, era o cachorro de seu Cândido, um comerciante que trazia seu vigia preso no quintal tornando-o dessa forma mais brabo ainda e bom de luta. Mas sempre que havia oportunidade meu primo levava Gaucho ao encontro do inimigo e não dava outra: voltava o pobre animal todo mordido, sangrando, lapeado pelo cachorro de seu Cândido. Passava tempo, Gaucho se recuperava e a disputa retomava, outra baixa para ele, ferido, vencido e dessa forma foram muitas e tantas vezes até que um dia, grande dia, voltou o primo de alma lavada, o sorriso e a empolgação iam de um lado a outro da boca. Gaucho bateu no inimigo, venceu na briga, não era mais perdedor. Agora o vira-lata vagabundo tinha feito algo do qual podíamos nos orgulhar, ganhara do imbatível, aquele que entre a cerca do quintal ameaçava devorar os cães quando passavam perto. Ainda não satisfeito de colocar Gaucho no patamar dos cachorros de briga, meu primo certo dia testou o cachorro a prova de fogo, empurrando-o da janela do sobrado onde morávamos. O animal tinha o hábito de cochilar ali, seu lugar preferido para sossego e numa dessas o fez despencar lá embaixo. Por sorte e graça de Deus o cachorro levantou-se intacto.

Gaucho era muito presente no cotidiano da casa, nos acompanhava a qualquer parte. Quando saíamos para as festas da igreja ou baile ele ficava preso a uma corda grossa para não escapar: inútil, roia a corda e logo estava juntinho de nós. Certa noite, eu representava fazendo um pequeno teatro onde meu papel resumia-se a uma borboleta dentro de um círculo de jovens, todas caracterizadas de flores cantando uma bonita valsa onde o refrão dizia:

“voa minha linda borboleta / voa procurando a emoção / voa pois a vida é tão boa / quando se tem o amor no coração”

Eu, toda prosa estilizada com a roupa de cetim azul, dançando, abrindo asas entre as flores, exibindo minha vaidade infantil para a platéia e de repente, não sei como nem de onde surgiu Gaucho sacudindo o rabo cheio de alegria pulando em cima de mim no palco. Um grande susto e muitas risadas, fiquei murcha, sem vivacidade, ele roubou a cena.

Gaucho envelheceu. Andava lento, o ímpeto da bravura deu lugar a calma. Vivia quase só deitado, um velho cão carregando na idade seus dias de glória e desafios. Vagaroso farejava tranqüilo pela rua sem atormentar os porcos nem correr atrás das galinhas que mariscavam com pintinhos. O máximo a se atrever ainda era abocanhar moscas quando o importunavam no seu descanso. Por esse tempo em Guimarães já circulavam caminhão, trator, jipe pela cidade, foi então que o velho Gaucho acabou sendo vítima de um desses carros. Atropelado não pode mais andar. Definitivamente, a parte trazeira do animal não sustentava mais o corpo e o remédio caseiro não produzia qualquer efeito, estava praticamente terminal, mas nem assim mamãe admitia que o sacrificassem, jamais, era totalmente contra. Porém, dona Salu, cozinheira antiga da nossa casa agiu por conta própria:misturando veneno na comida dando fim ao sofrimento do animal. A verdade só veio à tona muito tempo depois.Não presenciei essa passagem do meu cachorro, me encontrava em São Luis do Maranhão estudando. A infância já tinha ficado longe.

De Gaucho guardo uma foto em preto e branco. Estamos juntos. Ele exibindo garbosamente sua valentia que eu nitidamente consigo vislumbrar como se fosse hoje. Nem Freud explica, só a emoção.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Vassoura e Periquito

Cresci ouvindo e vendo tipos populares inofensivos perambulando pela minha cidade, despertando curiosidades de todos. Viviam nas praças, ruas, ladeiras, becos, por todos os cantos, criando situações inusitadas extremamente engraçadas. Eram vários em São Luís no Maranhão: loucos, semi-loucos, pseudo doidos formando um mundo irreal, real de traços pitorescos. Dessas figuras guardei na memória dois, Vassoura e Periquito.

O primeiro era atrevido, bocudo, o palavrão corria solto na boca, usava-o como defesa para atingir quem o provocasse, bastava alguém chamá-lo pelo apelido. Geralmente quem o fazia corria, não esperava para ouvir o que vinha depois. Lembro-me de uma dessas passagens. Eu era pequena ainda, estava debruçada no muro da casa de uma amiga de mamãe quando alguém num impulso de provocação e gracejo gritou: - Vassoura! Ele, num furor de maluco foi rápido, imediato na resposta, que chegou aos meus ouvidos de criança: “é a bochecha da tua mãe!” Saí correndo assustada, repeti para as pessoas o que havia escutado. Todos riram, não entendi porque achavam tanta graça se eu estava com tanto medo! Passaram-se anos e ouvi mamãe contar a mesma história, rindo novamente, aí entendi o verdadeiro palavrão que Vassoura ofendia o tal provocador.

O outro tipo, Periquito, tinha qualquer coisa que assemelhava-se realmente a um periquito, talvez o rosto por inteiro. Baixinho, magro, meio calvo, meio velho não insultava nem gritava, era o inverso de Vassoura. Tinha a aparência tranquila e andar devagar. Trajava-se lembrando um escoteiro com o indispensável lenço no pescoço. Carregava sempre um papelão preso num pequeno pedaço de madeira e nele escrevia o que lhe vinha na cabeça mostrando por toda parte. Por essa época eu já era uma jovem estudante do Instituto Rosa Castro e morava em pensionato. Essa rotina não tinha grande alteração: às sete da manhã iniciava a primeira aula, cedo levantava-me movida pelo prazer de encontrar amigas, namorado, sentir a liberdade por inteira. Todos os dias percorria a extensa Rua Grande com uma amiga também do mesmo colégio, esse era o caminho preferido para chegarmos até a escola. Na volta, fazia outro percurso, porém com amigas de classe; o retorno então era mais lento, aproveitávamos para flertar com os garotos. Na Rua Grande concentrava-se o comércio principal da cidade; de manhãzinha permanecia silenciosa, só alguns botequins iniciavam o trabalho do dia, entrávamos então no primeiro que estivesse com portas abertas e comprávamos um picolé. Numa dessas rotinas, Periquito nos acompanhou até o boteco, recostou-se no balcão, escreveu qualquer coisa que ninguém deu importância e se apressou em nos mostrar, recusávamos lhe dar atenção, voltou a insistir exibindo o cartaz aos nossos olhos e surpreendeu-nos com a frase fixada a nossa frente: “ O Maranhão está cheio de lindas louras e mimosas morenas.” Aquela frase de impacto recheada de elogio, galanteio, nos despertou da preguiça e do sono que ainda carregávamos no corpo e vinda de Periquito, era demais! Aliás, ele quase não falava, nunca o vi balbuciar qualquer palavra, os cartazes tornavam-se porta-voz da sua vontade e sentimento. Naquele instante estampava-se explicitamente no seu rosto um indisfarçável sorriso, que era todo prazer em agradar duas adolescentes que riam descontroladas diante do inesperado. Sem dúvida éramos nós as contempladas também. Minha amiga, loura, olhos verdes, corpo violão, que refletia o padrão de beleza da época. Eu, morena, traços delicados, bonitinha, diziam, expressão que detestava, porque na verdade queria as curvas generosas que os anos cinquenta tanto propalava às mulheres; e ser “bonitinha” pra mim enfatizava ainda mais meu corpo magro que em nada me agradava. Sintetizando, eu era o anti-padrão de uma geração onde predominavam as formas exuberantes. Periquito, naquele momento sem saber me redimia da condição de bonitinha, que eu rejeitava. Aceitava ser “mimosa morena” com todo prazer, preferia a qualquer outro diminutivo.

E parafraseando o grande Manoel Bandeira, exalto: “Quero antes o lirismo dos loucos”...

Cida 1998

Tipo popular de Guimarães (2)

Dona Estrina virava bicho em forma de porca. Esse folclore era contado por pessoas narrando em detalhes, dando ênfase cheios de seriedade e medo.

Uma inofensiva velhinha pequenina, de expressão sisuda, macambúzia, que ao mesmo tempo lembrava bruxa dos contos mágicos de carochinha. Andava apoiada com um bastão que lhe assegurava caminhar mais firme na companhia de seus cachorros que tanto estimava. As roupas que usava, mal cortadas, mal feitas de chita ordinária, se estendiam até os pés em total humildade. Um dos lados do rosto chamava atenção para um detalhe nada comum, um calombo grande se destacava formando saliente bola, algo estranho que ninguém sabia explicar.

Tinha um olhar mesclado de piedade, sofrimento, e sua vida resguardava em silencio cercada de penúria extrema, dependendo da esmola dos mais aquinhoados para a sobrevivência. Na palhoça onde vivia, apenas a rede e um velho mocho acomodado na minúscula cozinha, onde geralmente sentava-se para as baforadas no cachimbo, olhando calada as tacurubas espremidas entre a minguada lenha e a fumaça que se estendia procurando fenecer longe daquela tristeza.

Era benzedeira e minha infância esteve sob a proteção de suas rezas; benzimentos com galhos de arruda e palavras balbuciadas quase incompreensíveis, afastando para longe o quebranto, o mau olhado. Certo dia, deu-me um tajá que deveria cuidá-lo e não permitir que retirassem alguma muda. Espécie de amuleto que não entendia o significado, não compreendia a simbologia de tudo aquilo.

Uma vez em poucas palavras resumiu o sumiço do filho, o qual procurava não falar: - foi devorado por onça nas matas do Pará. Dor e amargura que o coração guardava e não gostava de remexer. Trágica, sinistra história que não recontou.

sábado, 17 de julho de 2010

As férias em Guimarães

Sempre que chegava em Guimarães procurava esquecer aquela vidinha contida em pensionato, colégio e usufruía o que verdadeiramente desejava: liberdade e tudo que pudesse dar prazer a uma adolescente - festas, passeios, namoradinhos e amigas.

Avistando Guimarães


     Quando avistava Guimarães ainda distante, sabia que daí para frente o mar transformaria sua fúria em mansidão. Logo adiante via-se a baia de Cumã e os currais, onde a fartura do peixe em períodos de boa pesca era certa.

     Geralmente esperava-se pela enchente da maré para que o barco finalmente pudesse atracar no porto. Ansiosa espera, que em muitos momentos proporcionou imagens de cartão postal: andorinhas, gaivotas em vôos rasantes buscavam alimentos à superfície d’água. Os Guarás voando em bando e majestosos como se quisessem tocar o azul daquele céu puro. Ou algum solitariamente passava num bater de asas, lento e silencioso.

     Chegava em casa recuperada.





O Pensionato de D. Janoca




O pensionato onde eu morava quando adolescente tivera localização diversa. Antes, num velho sobradão na Rua Djalma Dutra, também conhecida como o beco de Catarina Mina, uma escrava alforriada que teve casa e comércio ali. Nesse trecho da Praia Grande, no Maranhão, predominou outrora poder e ostentação de portugueses, que dominavam um rico comércio. Outros velhos sobrados ladeavam a escadaria que compunha a pequena rua. Apesar do abandono, ainda podia se ver beleza nas pedras de lioz, calcária branca que formava com imponência a escadaria, já então encardida, desgastada pelo tempo e maus tratos.

Depois o endereço passou a ser a Rua do Ribeirão, defronte da lendária fonte com carrancas jogando água, galerias subterrâneas cheias de mistérios e segredos. Nesse pequeno sobrado reformado a convivência foi de pouco tempo. Estabeleceu-se, então, na rua da Cruz. Era mais um sobradão antigo que perdera o ar pomposo e agora, na condição de simples morada, acomodava o pensionato. Estendia suas janelas com sacadas de ferro e mármore para os lados da rua dos Afogados, fazendo esquina e divisa naquele trecho. Ambiente familiar. Colegiais, jovens funcionárias, senhoras, dirigido por Dona Janoca: dinâmica, alegre, determinada, dividindo com marido e filhos a organização da casa. Presbiteriana, os cânticos e orações integravam a rotina da família. Sons benéficos que chegavam aos meus ouvidos assimilando-os prazerosamente.

Fins de tarde, o sol pincelava o horizonte sinalizando o crepúsculo. Debruçava-me na janela para os flertes. O vento sibilava da beira – mar, atravessava ladeiras, becos, chegava numa leva aragem. Eu me refestelava naquela vaidade plena de adolescente.

São Paulo, 2002

Instituto Rosa Castro

Aqui se aprende amar a Deus e a engrandecer a Pátria”

A placa de madeira fixava-se no alto da parede contendo a frase de amor cristão e patriótico. Talvez a referência necessária que os pais buscavam para educação e proteção de suas pupilas. Nunca esqueci essa placa. Inevitavelmente sempre  lia toda vez que subia a escadaria de tábua corrida que me conduzia à sala de aula.

Década de 50 em São Luís do Maranhão e o Instituto Rosa Castro era uma escola feminina de classe média. O ensino, num colégio exclusivo para mulheres, dava um certo alívio à mãe e ao pai que não desejasse ver suas filhas em escola mista, como se esta desvirtuasse o caminho traçado por eles: uma teórica felicidade que já havia idealizado nos moldes dos seus valores e padrões. Cabia então às filhas colocar em prática essa utopia muitas vezes descabida.

A Praça do Panteão estava bem defronte. O Liceu e o Ateneu viam-se um próximo do outro, ambos mistos e também tradicionais no ensino. Centralizada na praça, a Biblioteca Pública lembrava uma pequena réplica de templo romano, guardando no seu interior grandes escritores, em especial intelectos maranhenses. Era perfeita para nossos estudos, assembléias e muito mais. A guardiã fiel dos namorados e das gazetas escolares. O cenário deste cotidiano de colegial completava-se com os oitizeiros enfileirados próximos à escola: grandes, frondosos, acolhedores, formando a cumplicidade que eu buscava. Acobertando-me nos momentos precisos das vistas dos sisudos professores.

Gostei deste colégio, sim. Um sobrado antigo, apertado entre casas simples, modernas e bangalôs. Tinha faixada de azulejo branco e nenhuma ostentação dos velhos sobradões. Aqueles com janelas e sacadas de ferro, pedras de cantaria e mármore que a colonização portuguesa ornou muito bem de forma bonita com sua arquitetura. Como proprietária, dona Rosa Castro era também diretora e deu o seu nome ao colégio, a conheci em idade avançada. Uma senhora magra, estatura baixa, sempre bem arrumada: meias finas, sapatos de salto, vestido discreto, geralmente de mangas compridas, cabelos brancos, cuidadosamente penteados num bonito coque revestido pela redinha que não os deixava em desalinho. Num dos quadris notava-se uma acentuada escoliose e um curioso tique a acompanhava: mastigava constantemente a língua, mas nada disso lhe tirava a elegância de todo dia. Andar pausado, olhar de observadora atenta, sempre reforçado pelos óculos que não saíam do rosto. Sua generosidade me marcou. Alunas em débito com a escola jamais eram importunadas ou discriminadas. A usura não fazia parte da rotina desta educadora que tinha como propósito maior a educação, toda uma vida dirigida ao ensino. Casou-se com o magistério e fez dele ofício e dedicação.

No Instituto Rosa Castro vivi meu deslumbre de adolescente em meio a sonhos, risos e amigas. Muitas jovens como eu moravam também em cidades do interior e vinham para a capital estudar. Nas férias retornavam às suas casas. No período de permanência escolar eu sofria a ausência materna, a ligação que eu tinha com a minha mãe tornava-se muito mais forte. A saudade então era atenuada aos poucos na escola, que também facilitava o desembaraço e afastava minha timidez. Entre as normas do colégio o soutien não podia ser usado com o uniforme. Tínhamos que vestir o corpete para que nenhuma transparência do corpo fosse visto através da blusa. Detestava aquele pudor exagerado, que me sufocava num corpete apertado e acabava sempre burlando as vigilantes, que estavam atentas a abrir a blusa e examinar se estávamos bem vestidas. Quando nos flagravam descumprindo essas regras voltávamos sem assistir qualquer aula.

Uma das coisas que aborrecia dona Rosa era perceber alguma aluna rindo no momento que ela repreendia. Por mais banal que fosse a bronca, não podíamos esboçar qualquer riso, do contrário, a sentença estava selada: arrumar os livros e seguir para casa com uma suspensão. Por uma dessas eu passei. Amarguei três dias sem poder ir a escola e muito mais sem também poder falar em casa. Nesse período morava com meu tio, um senhor austero, ríspido, extremamente conservador. O que fiz ? Fingi que ia às aulas, então rumava para a casa de uma prima que morava distante. Na hora certa retornava como se estivesse chegando dos estudos. Três longos dias intermináveis!

As meninas da titia Rosinha eram namoradeiras. Esse boato machista corria na boca de outros estudantes, ferindo nosso direito de escolha e decisão. Para completar, espalharam também uma musiquinha de versos irônicos, que dizia:

“Lá vêm as franguinhas

da titia Rosinha

depois de grandinhas

querem ser galinhas...”

Olhando agora pela ótica do tempo, vejo que não íamos muito além do permitido pelo moralismo da época e pela disciplina que o colégio impunha. Namorar de uniforme seria ir contra um desses princípios que nos proibiam. Mas arriscar, desafiar faz parte da juventude e ousávamos, sim. Às escondidas, claro. Uma boa resposta àquela quadrinha veio quando o colégio Rosa Castro se tornou bicampeão de vôlei: o nosso ego subiu aumentando a dor de cotovelo dos adversários

.

Alguns professores marcaram pela capacidade intelectual, outros pelo tipo bisonho, pitoresco. Eu me diverti muito às custas desses senhores mal humorados ou excêntricos, que mantinham uma postura agradável ou de terrorismo psicológico, principalmente nas provas de final de ano. Isso nos dava na maioria das vezes insegurança e um medo desconfortante.

As bodas de ouro de magistério de dona Rosa foi um acontecimento que também guardo com carinho e do qual participei. O Colégio desfilou garboso numa comemoração que envolveu a cidade. Professores, alunos, ex-alunos dos pontos mais distantes, empenharam-se em homenagear de forma bonita, significativa, a mestra. Lembro do seu rosto: tinha emoção e também serenidade. A colheita estava ali a sua frente. Ela observava gratificada. Nesse plantio de longos anos não teve fórmula especial nem segredos, prevaleceu dedicação, equilíbrio, sensatez e o amor pleno à profissão.

Os anos passaram, o colégio Rosa Castro mudou de direção e dono. O ensino perdeu a qualidade na maioria das escolas, como se a meta principal fôsse o lucro financeiro que esses estabelecimentos proporcionavam a seus proprietários. De dona Rosa Castro guardo o registro de sua dedicação, despojamento, que a enaltece e a coloca no patamar da perenidade.

São Paulo, maio/95

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O cais de São Luis

O cais em São Luis no Maranhão, via-o quase sempre apinhado de embarcações das pequenas cidades que frequentemente ancoravam lá, formando um aglomerado onde podia se atravessar de um barco para outro sem receio. Essa região da praia, grande centro histórico de tradição com seus casarões, abrigou no passado um comércio próspero que servia também a negociantes e barqueiros de lugares diversos que se abasteciam nos sortidos armazéns próximo aos cais.

E tudo ali era muito próprio: o movimento das pessoas que iam e vinham; as ondas pequenas que batiam na velha amurada, balançando levemente as embarcações; o cheiro forte característico exalando da maré provocando enjôo nos passageiros; o burburinho nas noites de embarque se estendendo madrugada afora... Encontros, desencontros, aconteciam, desfaziam-se.

Barcos chegavam, barcos zarpavam. Alegria e saudade partilhavam da rotina do cais.

A roda de samba

A roda de samba esquenta no quintal. Pérolas da velha guarda e samba cadenciado dão inicio a surpresa que promete não só acontecer da forma planejada, mas também agradar gregos e troianos. Todos ali presentes: sol, amigos, flores, primavera, cores. O tempo generoso esbanja dia esplendido.

Samba no pé, dança no corpo e na alma. Música, cuxá, vatapá, torta de camarão ou vice-versa. Torta Maranhense, diferente, quem experimenta pede mais. Alegria, comida, distração, tudo autêntico, brasileiro, quase perfeito. O melhor estava para chegar: violão e bossa nova, batida tranqüila, intimista. E a voz rouca da moça loura com balanço e ginga no corpo é sempre um show que ninguém dispensa: ele no violão ela cantando. A qualquer custo iria trazê-los, prometi ser surpresa pra ninguém botar defeito e não podia decepcionar-me, embora a dificuldade para encontrá-los fosse o maior entrave. Enquanto todos se divertiam, discretamente tentava localizá-los. Com antecedência os procurei, não deu pé. O recado na secretária nenhum retorno me veio. Estava em apuros, o compromisso tinha de ter desfecho positivo.

Mil idéias me passam. Ando pela casa e o quintal é uma festa só, o ritmo ferve com o calor lembrando verão. Dou uma gingada no corpo para disfarçar e a frase manjada que já escutei muitas vezes me vem à cabeça: samba suor e cerveja. É boba sim, mas relaxa e tem nexo. Novamente arrisco o telefone, estou tensa, perdendo o controle da situação. Seduzi-los de ultima hora sinto ser tarefa difícil, de profissional, até porque de vez em quando demonstram sutil estrelismo, transparente nas cenas de faniquito.

Agora é o tudo ou nada para decidir, o argumento tem de prevalecer e o bom papo é importante. Não sou tão convincente quanto preciso no momento, mas terei de ser. Um estalo me vem, sedução pela barriga: o vatapá e a torta de camarão, manjar dos deuses que os dois adoram. Finalmente os convenço! O ponto alto da surpresa fez-se presente: violão e banquinho versus bossa-nova.

Valeu!

São Paulo, Outubro de 1995

Mamãe




Minha mãe chamava-se Durvalina. Foi funcionária por mais de trinta anos em Guimarães, a terra de origem. Herdou do pai o cartório, fez concurso público e se tornou tabeliã do 2º Ofício. Descasada em uma época onde o preconceito imperava, condicionando a mulher à margem da sociedade, conquistou espaço.

Fluía no seu dia a dia a grandeza da solidariedade assim como a generosidade, marcas definidas na sua vida. Foi ao mesmo tempo mãe e pai, direcionando seu caminho de forma que pudesse me proporcionar o melhor. Deu-me todas as felicidades possíveis. Teve sabedoria, percepção na forma de me conduzir, e isso se tornou determinante para que eu pudesse seguir com esse estandarte, fazer dele referência para meus dias futuros.

Uma fada






Chamava-se Adelaide. Por sorte fui morar no mesmo prédio e andar onde residia tornando-me assim vizinha do seu apartamento. Um bom ensolarado conjugado em Copacabana, de frente para a movimentada Avenida Princesa Isabel, com aquela fonte e um jogo harmonioso de água subindo, descendo, caindo, espalhando-se, amenizando a visão do trânsito nesse trecho.

No agradável apartamento cercou-se de máquinas de tricô, armários embutidos abarrotados de novelos de lãs, linhas de cores e tamanhos diversos que lhe davam ampla opção e facilitavam a escolha na composição das malhas feitas sob encomenda. Que malhas! Qualidade impecável, trabalho bem feito, capricho total. Cuidado e exigência nos detalhes. Malhas que atravessaram continente levadas por bailarinos do Teatro Municipal, entre eles a então consagrada Márcia Haidée, da qual orgulhava-se bastante. Às vezes, referia-se à bailarina com expressão que eu achava engraçada e aguçava minha curiosidade: “Márcia Haidée é magérrima!” Soava como virtude. O que não deixa de ser essa disciplina quase espartana do balé. A forma esguia do corpo adquirindo equilíbrio coreográfico na ponta dos pés, resultando em dança com movimentos de leveza e beleza. Foram ainda essas malhas que na época o internacional bailarino russo Mikail Barishinikov não fez por menos, carregando também na bagagem várias peças. Embora tivesse cliente desse porte não se deslumbrava. Ao contrário, era modesta até demais da conta. Zelava sim, por tudo com empenho e não lhe agradava viver sem tecer suas criações, prazer que experimentava continuamente descobrindo, exercitando essa motivação permanente. Trabalho e amor pela arte que construia todos os dias. Ágil na máquina de tricô, manuseava as agulhas com habilidade e competência. Perfeccionista, detalhista, dispunha de auxiliares, porém qualquer deslize não passava despercebido ante à exigência do olho clínico atento. Idealizava o molde, visualizava a pessoa, sabia exatamente quais medidas a usar. Colocando em prática, tudo ficava correto.

Certa vez, tocou no apartamento onde eu morava. Queria conhecer a mãe da prodigiosa prole, meus seis filhos, já familiarizados no pedaço onde brincavam. A mais nova, ainda bebê, logo cativou a boa senhora passando a chamá-lá de “Dedéi”. Ela gostou. Se divertia, derretia-se toda. Naquele dia conheci uma grande amiga. Empatia, simpatia, uma forte amizade surgiu, prolongou, estendeu-se, estreitou-se. Ganhei proteção da generosa senhora.

Dona Adelaide, fada e anjo da guarda dos meus últimos anos no Rio de Janeiro. Funcionária aposentada do Teatro Municipal. Viúva, nenhum filho, estatura pequena, gestos tranqüilos. Não tinha qualquer vaidade: vestidos leves, sapatos baixos, traje prático, simples. Os olhos expressavam-se por cima dos óculos, caídos desajeitadamente no nariz. Passava férias no final do ano em Fortaleza, reunida com parentes celebrando as datas. Cardecista praticante. Uma senhora do bem e de bem com a vida.

Era atenta em tudo que dizia respeito a meus filhos. Um dia, uma das meninas voltou do colégio sem assistir às aulas. O casaco que usava não correspondia à exigência do regulamento. Aliás, uma escola pública com padrão de qualidade dos melhores, por isso muito disputada. Dona Adelaide escutou a história, calmamente sentou-se frente à máquina e em pouco tempo um casaco azul marinho estilo colegial surgia pronto. No dia seguinte a garota encontrava-se adequadamente uniformizada. Com o tempo, a outra filha adquiriu traquejo na máquina de tricô, um aprendizado proveitoso.

Mas o Rio de Janeiro se tornara pequeno demais para o pai dos meus filhos. O marido, professor de inglês e matemática, homem de cultura, inteligência brilhante. Porém, boêmio convicto logo uma vida financeira de altos e baixos forçava-nos a mudar de ares. Incansavelmente a dedicada amiga ajudou-nos de forma e atitudes sublimes, tamanho o seu empenho. Seguimos para São Paulo, uma alternativa que enchia-me de esperança embora apertasse em meu peito essa brusca mudança. Novos sonhos a adaptar-se em outra realidade, numa grande metrópole que eu admirava e que também assustava. Já esperava-nos o apoio incondicional do primo Stelmo. Decisivo, fundamental para fixarmos residência definitiva e assim começarmos outra etapa entre expectativa e desafios. Meses depois, dona Adelaide nos surpreendeu com sua visita gratificante, porém rápida, breve, o táxi a esperava. Viu-nos, percorreu a casa inteira, todos os cômodos, levou consigo a certeza que morávamos dignamente.

Passei longo tempo sem revê-la. Reencontrei a velha amiga numa curta viagem ao Rio de Janeiro. Diante da máquina ela tecia sua arte como antes: as mãos entrelaçavam os fios que deslizavam, corriam leves, certeiros, de encontro às agulhas; adquirindo formato, buscando modelo desejado naquele desvelo de perfeição. Vida e labor atrelados. Rotina e cotidiano inseparáveis assim permaneciam.

Via-me novamente ao lado da amiga, só de passagem. Uma expectadora de recordações, imagens, detalhes que eu observava com olhar de enternecimento e melancolia. O sol, íntimo, familiar, entrava mais uma vez pela janela espalhando-se cauteloso, preguiçoso entre objetos, ocupando espaço com sua luz tão vital. Lá fora o mundo acelerava: o trânsito desembocando pelo túnel na avenida; barulho e vai e vem incessantes varando madrugada; o hotel Plaza, logo ali guardando resquícios da famosa boate; depois a rua Ministro Viveiro de Castro seguindo de encontro à Prado Junior, promíscua de inferninhos, sordidez, prostituição, vida noturna e boemia decadente; na esquina, o popular e antigo restaurante “Beco da Fome” agonizando, falido; adiante, a Nossa Senhora de Copacabana, avenida comprida, movimentada pelo comércio e as boutiques em permanente inovação; a Praça do Lido, lembrança terna do tempo em que levava meus filhos para brincar; defronte, como uma bela paisagem à parte, a tradicional avenida Atlântica e o extenso calçadão buscando sintonia com a charmosa curva da praia; o mar, a languidez das ondas deslizando na areia. O passado emergia transparente diante da emoção.

Despedi-me da amiga entre carinho, afeto, saudade. Abracei-a. A gratidão que lhe devotara eternizara no meu coração de jeito especial. Sua bondade, o sentimento nobre, solidário, definitivamente faziam parte das preciosidades bem guardadas, resguardadas. Não lhe veria nunca mais, no entanto. Não imaginava, acreditava ver-lhe outra vez.

Tempos depois a notícia que me entristeceu: retornava a sua terra para o descanso, repouso final.