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sábado, 13 de fevereiro de 2021

Um trabalhador digno


De tempos em tempos ele surpreendia chegando das praias de algum vilarejo distante, muito além, carregando consigo uma ingrata e pesada carga: a deficiência física que tolhia a maior parte dos membros superior e inferior. Um dos braços havia perdido o movimento mantendo-se paralisado, vergado próximo ao tórax  junto à cintura. Apenas o outro conservava a coordenação, era o braço do trabalho. Com ele capinava a praça Luiz Domingues inteira. Devagar aos poucos concluía o serviço, então pago pela prefeitura que o contratava.

Bento era o seu nome. Conversar com as pessoas dependia de um certo esforço para expressar o que desejava falar numa linguagem um tanto embaraçosa. Com o andar trôpego arrastava pernas e pés, como se fosse um imenso peso naquela vida inquieta, instável, penosa sem queixas ou resmungos. Minha mãe o acolhia hospedando-o conosco num quarto menor que ele ocupava. Da sua vida pessoal sabíamos muito pouco, apenas o cotidiano básico da convivência. Não fazia referência a qualquer parente ou família, um solitário sem residência fixa em lugar nenhum.

Permanecia longas temporadas em Guimarães, gostava desse ir e vir  De repente sumia, a rota já sabíamos, sempre as praias distantes, mas necessitava de alguém que tivesse disponibilidade para transportá-lo. Cultivava sua independência com o suor do trabalho embora com limitações, mas conseguia. Isso o fortalecia psicologicamente. Seu refúgio era uma bela, discreta e sossegada praia estendida quilômetros a perder de vista. O mar intenso em dias favoráveis presenteava o pescador com bons camarões que arrastava ali mesmo na praia, sem grande esforço. Os moradores todos se conheciam e logo Bento passou a ser também parte integrante do vilarejo.

Em uma dessas vindas e idas decidiu estender o tempo de permanência, as notícias esporádicas de tão escassas, silenciaram.