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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Aniversário da amiga

O regresso da jovem aconteceria em poucos dias, inquieta não cabia em si por essa espera. Tudo dava a entender que nada a segurava por mais tempo. Já não bastavam as praias a perder de vista com a sensação de liberdade sem fim; nem o mar oscilando na beleza entre o verde e azul levando a sonhar; nem o sol e o vento misturando cumplicidade poética; nem o exotismo das iguarias de dar água na boca seduzindo irresistivelmente. Ansiava chegar, ver, sentir, olhar, extasiar-se abismada (como se fosse a primeira vez) diante da metrópole que exala o bem e o mal.

Coincidência ou não o retorno aconteceu no exato dia do seu aniversário. A mesa arrumada oferecia variedades diversas. Cerveja de prontidão geladinha era promessa de uma noite festiva. A recepção pegou-lhe de surpresa. Ausente somente o indispensável bolo, por enquanto, porque a toda hora alguém alardeava: - Tá chegando, tá chegando...

Criava expectativa, despertava risadas. No zum, zum,zum das conversas todos falavam, o que não faltavam eram palpites e palpiteiros. Diante da informalidade, nada mais natural naquele momento que a descontração entre amigos. Determinada hora chega um rapaz com cara de emissário compenetrado, vai até a cozinha e solta o recado: "Estou aqui para avisar que o bolo não vai demorar, aliás, está nos últimos retoques da cobertura. Tem mais, traz uma surpresa de cair o queixo." Pronunciou-se feito mensageiro e partiu. "Êpa, o que será?" Murmurou alguém entre os dentes. Outra voz levantou-se: "Ah, essa surpresa me deixa de orelha em pé, desconfio que... " Calou-se. O comentário deixou um suspense rondando. A aniversariante simplesmente gargalhou, sentia-se feliz e ponto final.

A moça encarregada do preparo do bolo era veterana em salgados e doces, competente na culinária, verdade seja dita. Às vezes improvisava criando novidade, alternativa experimental, tentando redescobrir outros sabores, angariando clientes. Sendo amiga da aniversariante podia se esperar o mais bonito, o mais caprichado, o mais saboroso bolo. De antemão nada podia ser colocado em cheque.

A noite, embalada pela temperatura de um outono quente dos melhores, contribuía para esquecer o carrancudo inverno prestes a dar as caras e trazer no seu rastro frente fria, massa polar, céu cinzento, semblantes sisudos... O jasmineiro ao lado da porta exibia dupla vaidade: flores e aroma recepcionando quem chegava. Cheiro gostoso agradando a todos.

Enfim a moça adentra abraçada ao bolo. Animada, animadíssima, desculpou-se e num palavreado breve sem arroubo dirige-se à aniversariante: " Amiga maravilhosa, os cristais decorando o bolo são talismãs carregados de bons fluídos, energia positiva, sorte e... " não concluiu. Estalaram palmas, fiu-fiu para todo lado, parabéns em coro cantado, gritado e tudo que aniversariante tem direito em dia de comemoração. Os primeiros pedaços são servidos a dois amigos curiosos, ansiosos e  foram eles a escancarar em alto e bom tom:

- O bolo é puro sal. Não dá pra encarar!

Impacto. Gargalhadas aos montes. Interrogações. Cada um beliscava o bolo, tirava lasquinha, opinava. As suposições eram as mais esdrúxulas: alquimia, energia cósmica e até sortilégio atribuíram ao mal sucedido bolo. Os cristais rebaixados a mera condição de sal grosso provocaram estrago pra valer. O bolo não passava de uma salina, impossível de degustar. Permaneceu assim mesmo no centro da mesa, simbolicamente.

A moça, pasma, perdeu-se nas explicações. Titubeou, embaralhou-se, tentou outro discurso, falhou, não convenceu. Apelou e numa última tentativa tascou o popular chavão: "Nada a declarar". Cessou o rebuliço, as especulações, a festa retornou animada de um entusiasmo salgado e esfusiante.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Rebeldia


Diariamente o barulho forte do rock paulera tomava conta da casa, tumultuando os ouvidos e a concentração dos que desejavam descanso. O vinil rolava à vontade no aparelho de som, tocando músicas que davam maior ênfase à rebeldia. Entre várias sobressaía aquela em que papai Noel perdia toda a aura de bom velhinho, sendo desclassificado aos berros: "Papai Noel, velho batuta, porco capitalista...'' Era a mistura punk e anarquista da contestação, ousadia, protesto, despertando curiosidade e admiração no adolescente.

Caracterizava-se a rigor para as festas: moicano, coturno, roupas extravagantes e alfinetes estilizando o figurino. Mas nem só de aparência vivia o jovem, ao contrário, procurou ler a origem do movimento punk, assim como foi buscar também na leitura a vida de Bakunin, sua teoria e concepção sobre o movimento anarquista. Logo, argumentava embasado em um conhecimento que fazia parte da história dos movimentos sociais surgidos em vários lugares do mundo.

Um dia o adolescente surpreendeu. Em vez da frequente barulheira que irrompia, surgiu um tranquilo som passeando pelo ambiente, resgatando a serenidade musical com uma melodia agradável que dava gosto escutar: "Tarde em Itapuã" de Vinicius de Morais.

Mostrava-se evidente, o início de uma nova fase aguçando novas descobertas, instigando outros questionamentos, revendo comportamentos e atitudes inerentes à adolescência.

Do punk ao anarquismo algo de positivo ficou.