O vento não debandava ou aliviava. Nem o
mar atenuava a fúria. O rústico barco à vela singrava impetuoso, saltando,
driblando as ondas encrespadas pela lufada. A viagem exigia desdobrado esforço
dos tripulantes em conter a intensidade das ondas cercando a embarcação,
varrendo bagagens, que rolavam como bolas entregues ao destino de um fatídico jogo.
Era agosto, mês dos ventos traiçoeiros temidos pelos barqueiros da região.
Os passageiros viam-se num embate com
desfecho imprevisto, acuados pelo mar em surto.Um pânico silencioso revelava-se
visível em cada expressão sob o impacto do medo e suspense. Somente um senhor
com ar desesperançoso arriscou num breve desabafo o lamento contido ao ver um
cofo abarrotado de frutas sendo tragado pelo turbilhão das águas. Num gesto
tragicômico se deixou expressar:
- “Vai abacate, procura teu
destino!..”
Alguns esboçaram por um
instante um sorriso tenso e preocupante, apenas, voltando a predominar o
silêncio.
O oceano destruía e construía montanhas de
ondas que causavam efeito de terror incessante. O Mestre segurava o leme
concencioso da responsabilidade que lhe pesava. Calado, conduzia o barco
entregue ao desvario de dois gigantes: vento e mar. Num rasgo do momento
decisivo, soltou o grito de alerta: “Arribar!” Seguir na peleja significava
levar a embarcação a pique.
Além, uma nesga de terra apontava a
salvação. Uma extensa praia de beleza solitária e algumas casas em abandono por
conta do mar invasor e bruto, que reduzia-as a escombros passava a ser no
momento abrigo para os quase náufragos. Um lugar paradoxalmente dividido:
encanto e temor. Aquietaram-se exauridos ali mesmo, expostos aos pernilongos
logo afugentados pela fogueira de galhos secos de mangue. Um morador
sensibilizado ofereceu sua casa para as mulheres pernoitarem. Os homens
contentaram-se com um casebre que servia de moradia às cabras.
O pesadelo dissipou-se diante da placidez
do entardecer. O Sol se distanciava a caminho do poente, descia lento até
esconder-se alinhado ao horizonte marcado de nostalgia e cores. Distante, a
minúscula luz identificava o farol, guia dos barqueiros, referência nas
tempestades noturnas.
No dia seguinte cedo se juntaram,
confabulando, observando o tempo, que
emanava dos coqueirais uma aragem benfazeja; Indício e bom sinal favorecendo a
navegar. Na praia a vaga deitava-se pacífica, indolente, desmanchava-se indo e
vindo a banhar de espumas as conchas dispersas na areia. O mestre retomou o seu
posto, traçou com o olhar alguma linha imaginária a seguir adiante. A ordem era
zarpar.