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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Viagem marcante



 O vento não debandava ou aliviava. Nem o mar atenuava a fúria. O rústico barco à vela singrava impetuoso, saltando, driblando as ondas encrespadas pela lufada. A viagem exigia desdobrado esforço dos tripulantes em conter a intensidade das ondas cercando a embarcação, varrendo bagagens, que rolavam como bolas entregues ao destino de um fatídico jogo. Era agosto, mês dos ventos traiçoeiros temidos pelos barqueiros da região.
     Os passageiros viam-se num embate com desfecho imprevisto, acuados pelo mar em surto.Um pânico silencioso revelava-se visível em cada expressão sob o impacto do medo e suspense. Somente um senhor com ar desesperançoso arriscou num breve desabafo o lamento contido ao ver um cofo abarrotado de frutas sendo tragado pelo turbilhão das águas. Num gesto tragicômico se deixou expressar:
- “Vai abacate, procura teu destino!..”  
Alguns esboçaram por um instante um sorriso tenso e preocupante, apenas, voltando a predominar o silêncio.
     O oceano destruía e construía montanhas de ondas que causavam efeito de terror incessante. O Mestre segurava o leme concencioso da responsabilidade que lhe pesava. Calado, conduzia o barco entregue ao desvario de dois gigantes: vento e mar. Num rasgo do momento decisivo, soltou o grito de alerta: “Arribar!” Seguir na peleja significava levar a embarcação a pique.
     Além, uma nesga de terra apontava a salvação. Uma extensa praia de beleza solitária e algumas casas em abandono por conta do mar invasor e bruto, que reduzia-as a escombros passava a ser no momento abrigo para os quase náufragos. Um lugar paradoxalmente dividido: encanto e temor. Aquietaram-se exauridos ali mesmo, expostos aos pernilongos logo afugentados pela fogueira de galhos secos de mangue. Um morador sensibilizado ofereceu sua casa para as mulheres pernoitarem. Os homens contentaram-se com um casebre que servia de moradia às cabras.    
     O pesadelo dissipou-se diante da placidez do entardecer. O Sol se distanciava a caminho do poente, descia lento até esconder-se alinhado ao horizonte marcado de nostalgia e cores. Distante, a minúscula luz identificava o farol, guia dos barqueiros, referência nas tempestades noturnas.
     No dia seguinte cedo se juntaram, confabulando, observando o tempo,  que emanava dos coqueirais uma aragem benfazeja; Indício e bom sinal favorecendo a navegar. Na praia a vaga deitava-se pacífica, indolente, desmanchava-se indo e vindo a banhar de espumas as conchas dispersas na areia. O mestre retomou o seu posto, traçou com o olhar alguma linha imaginária a seguir adiante. A ordem era zarpar.