
Chamava-se Adelaide. Por sorte fui morar no mesmo prédio e andar onde residia tornando-me assim vizinha do seu apartamento. Um bom ensolarado conjugado em Copacabana, de frente para a movimentada Avenida Princesa Isabel, com aquela fonte e um jogo harmonioso de água subindo, descendo, caindo, espalhando-se, amenizando a visão do trânsito nesse trecho.
No agradável apartamento cercou-se de máquinas de tricô, armários embutidos abarrotados de novelos de lãs, linhas de cores e tamanhos diversos que lhe davam ampla opção e facilitavam a escolha na composição das malhas feitas sob encomenda. Que malhas! Qualidade impecável, trabalho bem feito, capricho total. Cuidado e exigência nos detalhes. Malhas que atravessaram continente levadas por bailarinos do Teatro Municipal, entre eles a então consagrada Márcia Haidée, da qual orgulhava-se bastante. Às vezes, referia-se à bailarina com expressão que eu achava engraçada e aguçava minha curiosidade: “Márcia Haidée é magérrima!” Soava como virtude. O que não deixa de ser essa disciplina quase espartana do balé. A forma esguia do corpo adquirindo equilíbrio coreográfico na ponta dos pés, resultando em dança com movimentos de leveza e beleza. Foram ainda essas malhas que na época o internacional bailarino russo Mikail Barishinikov não fez por menos, carregando também na bagagem várias peças. Embora tivesse cliente desse porte não se deslumbrava. Ao contrário, era modesta até demais da conta. Zelava sim, por tudo com empenho e não lhe agradava viver sem tecer suas criações, prazer que experimentava continuamente descobrindo, exercitando essa motivação permanente. Trabalho e amor pela arte que construia todos os dias. Ágil na máquina de tricô, manuseava as agulhas com habilidade e competência. Perfeccionista, detalhista, dispunha de auxiliares, porém qualquer deslize não passava despercebido ante à exigência do olho clínico atento. Idealizava o molde, visualizava a pessoa, sabia exatamente quais medidas a usar. Colocando em prática, tudo ficava correto.
Certa vez, tocou no apartamento onde eu morava. Queria conhecer a mãe da prodigiosa prole, meus seis filhos, já familiarizados no pedaço onde brincavam. A mais nova, ainda bebê, logo cativou a boa senhora passando a chamá-lá de “Dedéi”. Ela gostou. Se divertia, derretia-se toda. Naquele dia conheci uma grande amiga. Empatia, simpatia, uma forte amizade surgiu, prolongou, estendeu-se, estreitou-se. Ganhei proteção da generosa senhora.
Dona Adelaide, fada e anjo da guarda dos meus últimos anos no Rio de Janeiro. Funcionária aposentada do Teatro Municipal. Viúva, nenhum filho, estatura pequena, gestos tranqüilos. Não tinha qualquer vaidade: vestidos leves, sapatos baixos, traje prático, simples. Os olhos expressavam-se por cima dos óculos, caídos desajeitadamente no nariz. Passava férias no final do ano em Fortaleza, reunida com parentes celebrando as datas. Cardecista praticante. Uma senhora do bem e de bem com a vida.
Era atenta em tudo que dizia respeito a meus filhos. Um dia, uma das meninas voltou do colégio sem assistir às aulas. O casaco que usava não correspondia à exigência do regulamento. Aliás, uma escola pública com padrão de qualidade dos melhores, por isso muito disputada. Dona Adelaide escutou a história, calmamente sentou-se frente à máquina e em pouco tempo um casaco azul marinho estilo colegial surgia pronto. No dia seguinte a garota encontrava-se adequadamente uniformizada. Com o tempo, a outra filha adquiriu traquejo na máquina de tricô, um aprendizado proveitoso.
Mas o Rio de Janeiro se tornara pequeno demais para o pai dos meus filhos. O marido, professor de inglês e matemática, homem de cultura, inteligência brilhante. Porém, boêmio convicto logo uma vida financeira de altos e baixos forçava-nos a mudar de ares. Incansavelmente a dedicada amiga ajudou-nos de forma e atitudes sublimes, tamanho o seu empenho. Seguimos para São Paulo, uma alternativa que enchia-me de esperança embora apertasse em meu peito essa brusca mudança. Novos sonhos a adaptar-se em outra realidade, numa grande metrópole que eu admirava e que também assustava. Já esperava-nos o apoio incondicional do primo Stelmo. Decisivo, fundamental para fixarmos residência definitiva e assim começarmos outra etapa entre expectativa e desafios. Meses depois, dona Adelaide nos surpreendeu com sua visita gratificante, porém rápida, breve, o táxi a esperava. Viu-nos, percorreu a casa inteira, todos os cômodos, levou consigo a certeza que morávamos dignamente.
Passei longo tempo sem revê-la. Reencontrei a velha amiga numa curta viagem ao Rio de Janeiro. Diante da máquina ela tecia sua arte como antes: as mãos entrelaçavam os fios que deslizavam, corriam leves, certeiros, de encontro às agulhas; adquirindo formato, buscando modelo desejado naquele desvelo de perfeição. Vida e labor atrelados. Rotina e cotidiano inseparáveis assim permaneciam.
Via-me novamente ao lado da amiga, só de passagem. Uma expectadora de recordações, imagens, detalhes que eu observava com olhar de enternecimento e melancolia. O sol, íntimo, familiar, entrava mais uma vez pela janela espalhando-se cauteloso, preguiçoso entre objetos, ocupando espaço com sua luz tão vital. Lá fora o mundo acelerava: o trânsito desembocando pelo túnel na avenida; barulho e vai e vem incessantes varando madrugada; o hotel Plaza, logo ali guardando resquícios da famosa boate; depois a rua Ministro Viveiro de Castro seguindo de encontro à Prado Junior, promíscua de inferninhos, sordidez, prostituição, vida noturna e boemia decadente; na esquina, o popular e antigo restaurante “Beco da Fome” agonizando, falido; adiante, a Nossa Senhora de Copacabana, avenida comprida, movimentada pelo comércio e as boutiques em permanente inovação; a Praça do Lido, lembrança terna do tempo em que levava meus filhos para brincar; defronte, como uma bela paisagem à parte, a tradicional avenida Atlântica e o extenso calçadão buscando sintonia com a charmosa curva da praia; o mar, a languidez das ondas deslizando na areia. O passado emergia transparente diante da emoção.
Despedi-me da amiga entre carinho, afeto, saudade. Abracei-a. A gratidão que lhe devotara eternizara no meu coração de jeito especial. Sua bondade, o sentimento nobre, solidário, definitivamente faziam parte das preciosidades bem guardadas, resguardadas. Não lhe veria nunca mais, no entanto. Não imaginava, acreditava ver-lhe outra vez.
Tempos depois a notícia que me entristeceu: retornava a sua terra para o descanso, repouso final.
Adorei o texto!
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