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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Mensagem

Aos queridos amigos, leitores e seguidores deste blog que muito o prestigiam. Envio agradecimentos repletos de ternura e apreço do profundo da minha'alma e do coração a todos vocês.

Meus votos de um Ano-Novo felicíssimo, renovado de sonhos e esperanças; fortalecido pela coragem, ousadia, determinação. Fraterno e de Paz.

Com afeto

Cida Nunes

25 de Março


Fazia muito tempo que não retornava à rua 25 de Março para as compras de Natal. Sequer passava perto, receosa de tumulto e quebra-quebra. Desde que ouvi falar das brigas da polícia envolvendo vendedores e ambulantes e, estes, inibidos, coagidos a não exercerem o trabalho na rua, também senti-me inibida e medrosa de andar para aqueles lados. Limitei-me ao comércio do bairro sem grandes surpresas nem grandes opções e, o pior, sendo o preço na maioria das vezes alto e desproporcional.
Acontece que neste dezembro sucumbi ao irresistível convite de uma das filhas para chegarmos até lá. Por alguns segundos passaram-se flashes do que é a famosa e cobiçada 25 de março se tratando de período natalino, uma loucura! Preparei o espírito para uma eventual arruaça, que fosse o que Deus quiser, pensei. Pouco tempo de metrô e descemos na São Bento, estação e referência do nosso itinerário para chegarmos a não menos conhecida Ladeira Porto Geral próxima ao nosso destino.
Contudo, antes de sair de casa ouvi da minha filha recomendações e lembretes daqueles que dizemos aos filhos ainda pequenos. Só que no meu caso houve inversão:
- "Mãe, preste atenção no que lhe digo: quando eu segurar sua mão, não solte! Fique de olho na sua bolsa! Lembre-se que não podemos perder tempo! Vá comprando sem demora o que lhe agrada. Na hora que estiver com fome (eu prevenida já estava com biscoito na bolsa) avise, sei de uma boa lanchonete e também onde achar água de coco natural. Mãe, ouviu bem? Tudo certo? Então, vamos agora!
Balancei positivamente a cabeça. Suas palavras de cuidado era mais do que cuidar, era desdobramento cuidadoso do zêlo e desvelo que me cercava. Eu amava chegar na 25 de março mesmo na condição de "criança" estabelecida por ela.
Pois bem. De certa forma vejo a Ladeira Porto Geral como um termômetro daquela agitação central toda. Quando o alvoroço é grande na Ladeira já percebe-se que dificilmente mais adiante vai estar por menos. Por sorte deparei-me com um aglomerado suportável, nem muito aperto, nem muito sufoco; sem sentir-me levada pela enxurrada de gente. Foi um passeio diferenciado que saiu a contento, de bom tamanho. O sol brando e fugidio disfarçado de mormaço moderou os excessos, surpreendeu.
Não costumo fazer planos, mas a 25 de Março volto a incluir nas minhas andanças.






segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O candeeiro

O homem montado a cavalo aproximou-se da casa e num gesto desesperado passou a vigiá-la, confiando que ali se escondia a esposa que havia fugido na noite anterior. Estranhamente paramentado estilava suor pela cara inteira: pingava, gotejava, sob um sol a pino ardendo, queimando como fagulha naquele verão causticante, atípico. Usava um traje que induzia semelhança e cópia de cangaceiro: cruzado de cinturão de couro, trespassado de faca, punhal, revólver, espingarda, e uma reserva de munição espantosa, provocando situação de pânico com o aparato assustador.

Acusava compulsivamente, desacreditando a dona da casa, forjando versões, criando inverdades. Não passava de uma figura espalhafatosa apregoando proezas e disparates de fanfarrão. Cercado por curiosos cuspia ódio, jurava vingança. Berrava o tresloucado homem que não arredaria do local sem arrastar a esposa consigo. Viajou quilômetros no lombo do cavalo cansado que suportava aquele corpo pesado, estufado de banha, decidido a não apear do animal. Esperneou bastante defronte o suposto esconderijo, bradou o que pôde. Uma espera inútil.

A fuga da mulher foi antes de tudo heróica. Partiu num entardecer sombrio em que a fazenda silenciava recolhendo-se ao repouso noturno. Um velho serviu-a de guia levando o candeeiro, antigo aliado, um tanto precário mas ainda capaz de alumiar o caminho. Os primeiros clarões do alvorecer apaziguaram o medo que acompanhou a jovem senhora noite adentro, varando matas, enveredando por trilhas estranhas e passagens íngremes, tortuosas, embrenhando-se no intenso e desesperado peregrinar.

A aragem matinal trouxe afago e alívio para seu corpo esbodegado. Afinal, pisava em solo distante, acolhida pela nova realidade sem jugo, sem posse. Assim dava cabo aos anos de submissão no claustro do casarão solitário. Rompia com as regras do dominador, resgatava sua identidade e autonomia. Reformulava na lucidez do momento a vida futura convicta de que jamais retrocederia ao mundo do qual escapou.

Seu pensamento corria no tempo exíguo que dispunha perante os fatos. Não podia se deter em devaneios e suposições. Teorias ficaram para trás. A racionalidade apontava os caminhos ainda a seguir, outras paragens a encontrar, conferir outra dimensão a seu destino. Definitivamente a liberdade havia chegado.

O velho e o candeeiro regressaram ao ponto de partida. O segredo ficou guardado no absoluto e eterno silêncio.











sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O Horário


Pois é, o horário de verão íntimo de uma boa parte dos brasileiros não deixa de ser novidade quando mostra a cara por essa temporada.

Com ele reaparece a velha querela. Os que se deleitam com a mudança, afinal usufruem melhor o tempo, quer no trabalho, quer no retorno ansioso para casa, nas compras, no lazer e na curtição, principalmente se o dia é daqueles festejados pelo Sol, combinação perfeita. E aqueles do outro lado, o pessoal que não o aplaude, que dentro das suas convicções não vêem motivos para saudá-lo visto se sentirem lesados por um horário manipulador, que vira de ponta a cabeça o relógio biológico das pessoas, interferindo no sono, obrigando-as madrugarem mais cedo, no serviço, enfim, que altera significativamente a rotina de todos.

Sinceramente não sinto maior apreço pela mudança. Embaralha, sim, meus horários. Desregula, impõe adaptações, remexe o dia a dia com a sensação de horas curtas voando. Quando sinto que me acomodei aos mandos e desmandos do horário fictício o seu tempo de permanência corre por um fio, esgotando-se para satisfação dos descontentes e desprazer de outros tantos.

Toda uma revolução girando em torno de quatro meses!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Vila Mariana




O bairro da Vila Mariana vive uma evolução imobiliária espantosa. Comercialmente cresceu bastante. Lugares pacatos viraram uma efervescência só. Muitas moradias sucumbiram às ofertas das empresas construtoras, que num abrir e fechar de olhos erguem prédios e logo acenam com fachadas modernas criando verdadeiro chamariz atraindo compradores.

Ruas que outrora formavam fileiras de casas, jardins e tranqüilidade perderam referência com a transformação em um novo cenário feito de espigões.

Na França Pinto prédios despontam empinando-se, exibindo a imponência da especulação imobiliária, demonstrando poder a qualquer custo. A paróquia de Santo Ignácio em pouco tempo terá seus momentos de liturgia e paz perturbados, sacudidos por bate-estaca e outras inconveniências que as grandes construções acarretam ao local tirando-lhe a calma.

A Vila se estruturou bem; restaurantes, lojas, supermercados, faculdades várias e pequenos bares vão surgindo, transformando-se em points de universitários numa constante ebulição. Não deixa de ser agradável conviver nesse trecho da cidade, embora como em outros lugares desenvolveu características negativas próprias das metrópoles e centros urbanos.

Já adotei São Paulo como minha segunda terra. Paixão inquestionável, amor conquistado nos trinta anos de convivência na rotina e cotidiano, muitas vezes tumultuado, estressante, mas incorporado amavelmente a minha vida.

E nesse paradoxo escuto o bem-te-vi; com aproximação da primavera disparam a cantar forte, estridentes, como anunciando boa nova. O canto fez me lembrar um poema de Manuel Bandeira:

ANDORINHA lá fora está dizendo:

-“Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!

Passei a vida à toa, à toa...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Maranhão




O pesado frio que estancou sobre esta cidade semanas atrás levou-me a buscar refúgio nas lembranças prazerosas da minha terra, sem deter-me no lado obscuro do clã usurpador que age como se fosse donatário de capitania hereditária.

Em agosto dá-se o inicio do estio no Maranhão. As chuvas volumosas que causam danos, estragos à região cessam para ceder lugar ao sol e ventos muitas vezes desafiadores, nada propícios a navegar ; outros dias chegam feito aragem: brando, ventando suave, fagueiro entre coqueiros e folhagens. A paisagem desbotada pelas sucessivas chuvas revigora-se; uma celebração duradoura da natureza exibindo exuberância aos olhos do visitante. É o verão assim conhecido por lá. O Maranhão encontra-se muito próximo à linha do Equador, beneficiando-se de um bom clima sem agruras dos invernos gelados. Situa-se entre o Norte e o Nordeste, o que o fez assimilar costume, tradição, das duas regiões, mostrando características visíveis da região amazônica com florestas cortadas por rios, igapós, sobressaindo frutas nativas: bacuri, murici, cupuaçu, juçara, buriti entre outras exóticas para os estrangeiros. Saborosas em cremes, sucos e doces.

Sob influência indígena, africana, portuguesa, nasceu a cultura do Maranhão, e dessa miscigenação a culinária extraiu sua essências na diversificada mistura de gostos, hábitos, temperos, condimentos e ervas, aliados à contribuição sírio e libanesa. O litoral maranhense tem vasta opção. Escolhas variadas de peixes e frutos do mar proporcionando composição de bons pratos e sabores que agradam satisfazem o turista, como o arroz de cuxá servido com as tortas de camarão ou caranguejo, ou sururu, ou então saboreado com peixe frito, que gostoso! Embora seja suspeita em opinar, recomendo ainda o vatapá, caruru e demais comidas regionais que surpreendem quem imagina uma culinária restrita.

São Luís é uma ilha. O centro histórico da cidade tem uma arquitetura talhada no molde português: casarões, sobradões, azulejos, mármores, registram a permanência do colonizador. Um conjunto arquitetônico bonito, porém mal conservado pelo poder público.

Em junho irrompem as festividades do folclore da terra. Resplandece o bumba--boi, espetáculo tradicional bastante conhecido. O enredo centrado nas figuras de Catirina, o boi e pai Francisco movimenta-se entre toadas, diálogos e coreografias, introduzindo personagens, dando dimensão à história. O brincante, rajado de fitas, solta a voz balança o corpo no ritmo do sotaque; sacode o maracá, deixa alegria fluir entre um gole e outro de cachaça. O boi cintila: lantejoulas, canutilhos, paetês transformam o couro bordado a capricho em uma obra de arte.

O tambor de crioula apreciado o ano inteiro é também destaque turístico. As mulheres dançam livres sem técnica, descontraídas, enquanto os homens tocam. Saias coloridas rodam levadas pela magia dos tambores e das cantorias. No auge surge a pungada: num gesto rápido, ligeiro, encostam barriga com barriga chamando dessa forma outra parceira para entrar na roda. A origem do tambor remonta aos escravos, louvavam e agradeciam São Benedito pela graça alcançada. Tem ainda a festa do Divino Espírito Santo, o Congo, muitas brincadeiras, manifestações folclóricas do Estado, que contribuem para enriquecer a cultura popular do país.

Encerro com alusão ao guaraná Jesus, tipicamente maranhense, lendário na tradição; um farmacêutico criou a formula e deu o seu nome a esse refrigerante de cor rosa e forte sabor de infância. Marcante nos aniversários, batizados, casamentos, festas, compartilhou gerações. Borbulhava deliciando a criançada. Permanece atrativo, atraente ao jovens, meus netos que o digam.

Neste breve apanhado de descrições juntei uma compacta alegoria de imagens, cores, dança, emoção e prazer.

sábado, 9 de julho de 2011

O frio deste inverno








O frio deste inverno chegou insolente, abusado, desrespeitoso, invasivo, escandaloso, indecente

Invade o corpo, desnuda minh'alma, expõe fragilidades, fraquezas e temores.

Decreto que o frio deste inverno seja:

Interditado,

Extraditado,

Degredado.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Brisa e Faísca



        Brisa e Faísca, que dupla! Em determinadas horas vivem a literal relação cão e gato entre latidos, miados  e rosnados desferidos um contra o outro num clima de hostilidade e desafeto sem fim. Ela, nervosa fora do eixo; ele, lampeiro extravasando incessante energia. De repente, vem uma calmaria inesperada no estilo paz e ternura, deitados lado a lado, entregues ao descanso e a trégua momentânea.

        Brisa é uma cadelinha lhasa mais ou menos; segundo os entendidos está mais para mistura com maltez do que lhasa propriamente dito. Sendo assim um pedigree meia boca, detalhe, apenas. Nada lhe altera a docilidade, a alegria com seus pulos e o rabo abanando euforicamente cortejando aqueles que estima. Fácil conquistá-la. Bandoleira, cativa o mundo.Também tem momentos de total rabugice latindo cismada, imaginando um companheiro em seu território pleiteando o seu espaço. Late compulsiva, perdidamente até alguém acudir aos apelos. Nutre por sua dona, minha filha mais nova, veneração das maiores numa fidelidade ímpar.

        Já o Faísca, o tal Faisquinha, é um caso sério, seríssimo. Filhote de gato nos seus cinco meses aproximados. Dá para imaginar o que um gatinho nessa idade é capaz de aprontar? Cara de bonzinho e tão danadinho... Inicialmente enjeitado miando na rua, tiritando tremendo, prestes a sucumbir caiu de para-quedas aqui em casa. Não se tinha interesse em aceitá-lo, mas comoveu os moradores. Sentindo-se aboletado, bastou para exibir a peraltices que os felinos trazem naturalmente no instinto. Formas diversas de adaptação e de sobrevivência no ambiente em que vive e convive. Ágil em correr, subir, pular, caçar, despencar das alturas, esconder-se nos inimagináveis e absurdos lugares, ou acomodar-se confortavelmente às vistas de todos numa pose de bibelô sui generis. As crianças o carregam feito um mimo que ele retribui felicíssimo rorrosnando, sentindo o afago das pequenas mãos que o acariciam.

        Ah, para incrementar as estripulias do Faísca descobriram o sósia do malandrinho, a semelhança não é pouca, confunde. Já o devolveram em casa várias vezes tomando-o pelo Faísca fujão, perdido e sem rumo. Acaba se tornando engraçado. Ao sósia pelo visto não agrada ser só: escapa de sua morada, foge, dribla, some vagueia para depois retornar a condição de sozinho.

        De resto é esperar o tempo apaziguar a pinimba da dupla. Cada um no seu lugar sem interferir no domínio do outro. Até lá muitas águas vão rolar.

terça-feira, 8 de março de 2011

Maria Firmina dos Reis


Apesar de ser considerada por alguns autores como a primeira romancista brasileira - seu livro Úrsula é de 1859 - pouco se sabe da vida desta maritalmente bastarda e negra.

Nascida em São Luís (1825-1927) disputou em 1847 uma vaga para a cadeira de professora de primeiras letras em Guimarães.

Orgulhosa com a vitória da filha, a mãe alugou um palaquins - espécie de cadeira carregada por dois ou mais escravos - para que fosse receber o documento de nomeação.

Revoltada, Maria Firmina recusou, afirmando que o negro não era animal para se andar montado nele!

Contrária a escravidão em suas atitudes, também usou os seus escritos para denunciá-la.

Acreditava que a escravidão contradizia os princípios do cristianismo, que ensinava o homem a amar o próximo como a si mesmo.

Via o escravo como uma pessoa digna, capaz de sentimentos nobres mesmo tendo vivido tantos anos sob o regime degradante do cativeiro.

Seu livro Úrsula pode ser considerado o primeiro romance abolicionista escrito por uma brasileira; colaborou ainda na imprensa local com poesias e contos; escreveu um livro em comemoração ao 13 de maio, além de ser autora de vários folguedos.

Aos 55 anos, um ano antes de se aposentar do magistério público oficial, fundou em Guimarães uma escola mista e gratuita para crianças pobres.

Como professora era enérgica, mas falava baixo e não usava castigos corporais.

Quem se lembra dela, na casa dos 80 anos, fala da velhinha negra de cabelos grisalhos, amarrados atrás da nuca, vestida de roupas escuras e sandálias.

Apesar de pobre e solteira, teve alguns filhos adotivos e inúmeros afilhados.

Faleceu cega, aos 92 anos de idade, na casa de uma amiga ex-escrava, e até hoje em Guimarães "a uma mulher inteligente e instruída chamam: Maria Firmina!"

FONTE: Morais Fº. Nascimento, Maria Firmina dos Reis: Fragmentos de uma vida. São Luis, S.C.p., 1975





quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Aniversário da amiga

O regresso da jovem aconteceria em poucos dias, inquieta não cabia em si por essa espera. Tudo dava a entender que nada a segurava por mais tempo. Já não bastavam as praias a perder de vista com a sensação de liberdade sem fim; nem o mar oscilando na beleza entre o verde e azul levando a sonhar; nem o sol e o vento misturando cumplicidade poética; nem o exotismo das iguarias de dar água na boca seduzindo irresistivelmente. Ansiava chegar, ver, sentir, olhar, extasiar-se abismada (como se fosse a primeira vez) diante da metrópole que exala o bem e o mal.

Coincidência ou não o retorno aconteceu no exato dia do seu aniversário. A mesa arrumada oferecia variedades diversas. Cerveja de prontidão geladinha era promessa de uma noite festiva. A recepção pegou-lhe de surpresa. Ausente somente o indispensável bolo, por enquanto, porque a toda hora alguém alardeava: - Tá chegando, tá chegando...

Criava expectativa, despertava risadas. No zum, zum,zum das conversas todos falavam, o que não faltavam eram palpites e palpiteiros. Diante da informalidade, nada mais natural naquele momento que a descontração entre amigos. Determinada hora chega um rapaz com cara de emissário compenetrado, vai até a cozinha e solta o recado: "Estou aqui para avisar que o bolo não vai demorar, aliás, está nos últimos retoques da cobertura. Tem mais, traz uma surpresa de cair o queixo." Pronunciou-se feito mensageiro e partiu. "Êpa, o que será?" Murmurou alguém entre os dentes. Outra voz levantou-se: "Ah, essa surpresa me deixa de orelha em pé, desconfio que... " Calou-se. O comentário deixou um suspense rondando. A aniversariante simplesmente gargalhou, sentia-se feliz e ponto final.

A moça encarregada do preparo do bolo era veterana em salgados e doces, competente na culinária, verdade seja dita. Às vezes improvisava criando novidade, alternativa experimental, tentando redescobrir outros sabores, angariando clientes. Sendo amiga da aniversariante podia se esperar o mais bonito, o mais caprichado, o mais saboroso bolo. De antemão nada podia ser colocado em cheque.

A noite, embalada pela temperatura de um outono quente dos melhores, contribuía para esquecer o carrancudo inverno prestes a dar as caras e trazer no seu rastro frente fria, massa polar, céu cinzento, semblantes sisudos... O jasmineiro ao lado da porta exibia dupla vaidade: flores e aroma recepcionando quem chegava. Cheiro gostoso agradando a todos.

Enfim a moça adentra abraçada ao bolo. Animada, animadíssima, desculpou-se e num palavreado breve sem arroubo dirige-se à aniversariante: " Amiga maravilhosa, os cristais decorando o bolo são talismãs carregados de bons fluídos, energia positiva, sorte e... " não concluiu. Estalaram palmas, fiu-fiu para todo lado, parabéns em coro cantado, gritado e tudo que aniversariante tem direito em dia de comemoração. Os primeiros pedaços são servidos a dois amigos curiosos, ansiosos e  foram eles a escancarar em alto e bom tom:

- O bolo é puro sal. Não dá pra encarar!

Impacto. Gargalhadas aos montes. Interrogações. Cada um beliscava o bolo, tirava lasquinha, opinava. As suposições eram as mais esdrúxulas: alquimia, energia cósmica e até sortilégio atribuíram ao mal sucedido bolo. Os cristais rebaixados a mera condição de sal grosso provocaram estrago pra valer. O bolo não passava de uma salina, impossível de degustar. Permaneceu assim mesmo no centro da mesa, simbolicamente.

A moça, pasma, perdeu-se nas explicações. Titubeou, embaralhou-se, tentou outro discurso, falhou, não convenceu. Apelou e numa última tentativa tascou o popular chavão: "Nada a declarar". Cessou o rebuliço, as especulações, a festa retornou animada de um entusiasmo salgado e esfusiante.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Rebeldia


Diariamente o barulho forte do rock paulera tomava conta da casa, tumultuando os ouvidos e a concentração dos que desejavam descanso. O vinil rolava à vontade no aparelho de som, tocando músicas que davam maior ênfase à rebeldia. Entre várias sobressaía aquela em que papai Noel perdia toda a aura de bom velhinho, sendo desclassificado aos berros: "Papai Noel, velho batuta, porco capitalista...'' Era a mistura punk e anarquista da contestação, ousadia, protesto, despertando curiosidade e admiração no adolescente.

Caracterizava-se a rigor para as festas: moicano, coturno, roupas extravagantes e alfinetes estilizando o figurino. Mas nem só de aparência vivia o jovem, ao contrário, procurou ler a origem do movimento punk, assim como foi buscar também na leitura a vida de Bakunin, sua teoria e concepção sobre o movimento anarquista. Logo, argumentava embasado em um conhecimento que fazia parte da história dos movimentos sociais surgidos em vários lugares do mundo.

Um dia o adolescente surpreendeu. Em vez da frequente barulheira que irrompia, surgiu um tranquilo som passeando pelo ambiente, resgatando a serenidade musical com uma melodia agradável que dava gosto escutar: "Tarde em Itapuã" de Vinicius de Morais.

Mostrava-se evidente, o início de uma nova fase aguçando novas descobertas, instigando outros questionamentos, revendo comportamentos e atitudes inerentes à adolescência.

Do punk ao anarquismo algo de positivo ficou.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os aguaceiros


A zona de convergência de que tanto falam meteorologistas nos noticiários, pelo visto deve ser a grande vilã das catástrofes que vem assolando nossa gente. E o quinhão de culpa dos governantes, onde fica? O prometido foi cumprido ou negligenciaram? Vê-se a repetição do desassossego e dor novamente.

Tem uma história que escutava quando criança na minha terra. Diz a fábula, que no período chuvoso urubu prometia tirar as aves daquela tormenta pela qual passavam, penduradas nos galhos das árvores buscando abrigo, encharcadas do aguaceiro. Empenhado, comovido, garantia dar-lhes casa e sossego, livrando-as do padecimento. Todos esperançosos apegavam-se à promessa dos melhores dias que iriam chegar. No entanto, assim que suspendia a chuvarada e o sol mostrava a cara com todo brilho e firmeza, urubu sumia no mundo; debandava, esquecia tudo. Só queria voar, flanar, bater asas, usufruir o melhor. O prometido deixava a Deus dará.

É isso. Repetem-se as mesmas tragédias, renovam as mesmas promessas. Aos nossos olhos um janeiro mais uma vez carregado de destruições: incessantes chuvas, tempestades, fúrias, horror, tristeza. Os verões continuam marcados pela desolação e medo. Vidas e sonhos rolam ribanceiras abaixo. Corpos, destroços, um amontoado de perdas.

Por quantas estações ainda viveremos a fábula do urubu?


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Carga Pesada




A fazenda era extensa, a perder de vista, com suntuoso sobradão erguido em meio a paisagem bucólica formada de matas, rios; conduzindo ao sossego e contemplação. A capela, ornada com imagens do barroco, dava mais uma mostra da ostentação que pairava naquele lugar.

Morava ali um dos últimos herdeiros, uma senhora descendente de portugueses, que acumularam vasto latifúndio para aquelas bandas: muita terra, grande fortuna, tamanha exploração. Remanescentes de escravos viviam ainda sob o jugo da obediência serviçal, sem voz e sem vez.

Periodicamente, a senhora visitava a cidade no intuito de respirar novidades. Léguas, quilômetros distanciavam a fazenda até lá. Um percurso difícil, torturante para os que a carregavam deitada na rede. Bem arrumada, estendia-se a gorda senhora com pompas e jóias, enquanto os quatro negros com força e sacrifício revezavam-se levando nos ombros a pesada carga e uma escravidão que para eles ainda continuava.