“Aqui se aprende amar a Deus e a engrandecer a Pátria”
A placa de madeira fixava-se no alto da parede contendo a frase de amor cristão e patriótico. Talvez a referência necessária que os pais buscavam para educação e proteção de suas pupilas. Nunca esqueci essa placa. Inevitavelmente sempre lia toda vez que subia a escadaria de tábua corrida que me conduzia à sala de aula.
Década de 50 em São Luís do Maranhão e o Instituto Rosa Castro era uma escola feminina de classe média. O ensino, num colégio exclusivo para mulheres, dava um certo alívio à mãe e ao pai que não desejasse ver suas filhas em escola mista, como se esta desvirtuasse o caminho traçado por eles: uma teórica felicidade que já havia idealizado nos moldes dos seus valores e padrões. Cabia então às filhas colocar em prática essa utopia muitas vezes descabida.
A Praça do Panteão estava bem defronte. O Liceu e o Ateneu viam-se um próximo do outro, ambos mistos e também tradicionais no ensino. Centralizada na praça, a Biblioteca Pública lembrava uma pequena réplica de templo romano, guardando no seu interior grandes escritores, em especial intelectos maranhenses. Era perfeita para nossos estudos, assembléias e muito mais. A guardiã fiel dos namorados e das gazetas escolares. O cenário deste cotidiano de colegial completava-se com os oitizeiros enfileirados próximos à escola: grandes, frondosos, acolhedores, formando a cumplicidade que eu buscava. Acobertando-me nos momentos precisos das vistas dos sisudos professores.
Gostei deste colégio, sim. Um sobrado antigo, apertado entre casas simples, modernas e bangalôs. Tinha faixada de azulejo branco e nenhuma ostentação dos velhos sobradões. Aqueles com janelas e sacadas de ferro, pedras de cantaria e mármore que a colonização portuguesa ornou muito bem de forma bonita com sua arquitetura. Como proprietária, dona Rosa Castro era também diretora e deu o seu nome ao colégio, a conheci em idade avançada. Uma senhora magra, estatura baixa, sempre bem arrumada: meias finas, sapatos de salto, vestido discreto, geralmente de mangas compridas, cabelos brancos, cuidadosamente penteados num bonito coque revestido pela redinha que não os deixava em desalinho. Num dos quadris notava-se uma acentuada escoliose e um curioso tique a acompanhava: mastigava constantemente a língua, mas nada disso lhe tirava a elegância de todo dia. Andar pausado, olhar de observadora atenta, sempre reforçado pelos óculos que não saíam do rosto. Sua generosidade me marcou. Alunas em débito com a escola jamais eram importunadas ou discriminadas. A usura não fazia parte da rotina desta educadora que tinha como propósito maior a educação, toda uma vida dirigida ao ensino. Casou-se com o magistério e fez dele ofício e dedicação.
No Instituto Rosa Castro vivi meu deslumbre de adolescente em meio a sonhos, risos e amigas. Muitas jovens como eu moravam também em cidades do interior e vinham para a capital estudar. Nas férias retornavam às suas casas. No período de permanência escolar eu sofria a ausência materna, a ligação que eu tinha com a minha mãe tornava-se muito mais forte. A saudade então era atenuada aos poucos na escola, que também facilitava o desembaraço e afastava minha timidez. Entre as normas do colégio o soutien não podia ser usado com o uniforme. Tínhamos que vestir o corpete para que nenhuma transparência do corpo fosse visto através da blusa. Detestava aquele pudor exagerado, que me sufocava num corpete apertado e acabava sempre burlando as vigilantes, que estavam atentas a abrir a blusa e examinar se estávamos bem vestidas. Quando nos flagravam descumprindo essas regras voltávamos sem assistir qualquer aula.
Uma das coisas que aborrecia dona Rosa era perceber alguma aluna rindo no momento que ela repreendia. Por mais banal que fosse a bronca, não podíamos esboçar qualquer riso, do contrário, a sentença estava selada: arrumar os livros e seguir para casa com uma suspensão. Por uma dessas eu passei. Amarguei três dias sem poder ir a escola e muito mais sem também poder falar em casa. Nesse período morava com meu tio, um senhor austero, ríspido, extremamente conservador. O que fiz ? Fingi que ia às aulas, então rumava para a casa de uma prima que morava distante. Na hora certa retornava como se estivesse chegando dos estudos. Três longos dias intermináveis!
As meninas da titia Rosinha eram namoradeiras. Esse boato machista corria na boca de outros estudantes, ferindo nosso direito de escolha e decisão. Para completar, espalharam também uma musiquinha de versos irônicos, que dizia:
“Lá vêm as franguinhas
da titia Rosinha
depois de grandinhas
querem ser galinhas...”
Olhando agora pela ótica do tempo, vejo que não íamos muito além do permitido pelo moralismo da época e pela disciplina que o colégio impunha. Namorar de uniforme seria ir contra um desses princípios que nos proibiam. Mas arriscar, desafiar faz parte da juventude e ousávamos, sim. Às escondidas, claro. Uma boa resposta àquela quadrinha veio quando o colégio Rosa Castro se tornou bicampeão de vôlei: o nosso ego subiu aumentando a dor de cotovelo dos adversários
.
Alguns professores marcaram pela capacidade intelectual, outros pelo tipo bisonho, pitoresco. Eu me diverti muito às custas desses senhores mal humorados ou excêntricos, que mantinham uma postura agradável ou de terrorismo psicológico, principalmente nas provas de final de ano. Isso nos dava na maioria das vezes insegurança e um medo desconfortante.
As bodas de ouro de magistério de dona Rosa foi um acontecimento que também guardo com carinho e do qual participei. O Colégio desfilou garboso numa comemoração que envolveu a cidade. Professores, alunos, ex-alunos dos pontos mais distantes, empenharam-se em homenagear de forma bonita, significativa, a mestra. Lembro do seu rosto: tinha emoção e também serenidade. A colheita estava ali a sua frente. Ela observava gratificada. Nesse plantio de longos anos não teve fórmula especial nem segredos, prevaleceu dedicação, equilíbrio, sensatez e o amor pleno à profissão.
Os anos passaram, o colégio Rosa Castro mudou de direção e dono. O ensino perdeu a qualidade na maioria das escolas, como se a meta principal fôsse o lucro financeiro que esses estabelecimentos proporcionavam a seus proprietários. De dona Rosa Castro guardo o registro de sua dedicação, despojamento, que a enaltece e a coloca no patamar da perenidade.
São Paulo, maio/95
TODOS OS SEUS COMENTARIOS SÃO VERDADEIROS E BOTO FÉ EM TUDO O QUE VOCÊ FALOU.
ResponderExcluirO COLÉGIO ROSA CASTRO FOI E SEMPRE SERÁ A ESCOLA DA MINHA VIDA,LA EU PASSEI OS MELHORES MOMENTOS DA MINHA VIDA.
LÁ EU FUI ALUNA E PROFESSORA.
FELIZ DAQUELES QUE VIVERAM NESTA ESCOLA.
MARIA BENEDITA PINHEIRO GOMES
Olá Maria,
ResponderExcluirObrigada pela mensagem!Em relação à época do colégio Rosa Castro, foi um período realmente feliz e prazeroso.
Abraço!
Li sua cronica, a qual me emocionou pois transportou-me para momentos aureos de minha vida de 1967 a 1970. O Colégio Rosa Castro com sua farda apelidada de bombeiras pois tínhamos saia cinza de prega macho,blusa branca ,sapatos pretos, meias brancas e o famoso cinto vermelho que afinava nossa cintura e parecia com o cinto dos bombeiros.Tudo isso fazia parte de uma história,que o capitalismo apagou com a venda do colegio para o Sesc, porém jamais apagará de nossa memória a conduta passada pelo colegio, a moral de Dona Rosa Castro,a doce bravura de Dona Zuila e o convivio com nossas colegas e professores
ResponderExcluirEU ME CHAMO ,JANNE E TAMBÉM ESTUDEI NO ROSA CASTRO.FOI EM 1985 E 1986, E GUARDO BOAS LEMBRANÇAS E SAUDADES.
ResponderExcluirEU ME CHAMO ROSE MARY AGUIAR PEREIRA, TAMBÉM ESTUDEI NO COLEGIO ROSA CASTRO, DE SÃO LUIS É A COISA QUE EU TENHO MAIS SAUDADE, TAMBÉM CONHECI A PROFESSORA ROSA CASTRO, BEM VELHINHA, INCLUSIVE, O MEU CERTIFICADO DO CURSO NORMAL, AINDA FOI ASSINADO POR ELA, "ROSA CASTRO" 1970/1973.
ResponderExcluirCida,me emocionei ao ler o que vc escreveu.Lá vivi excelentes momentos de minha adolescência...Que coisa fantásrica! Por lá passei dos meus 10 aos 16 anos...1965 a 1971
ResponderExcluir..Saudades!!Me chamo Lúcia Maranhão