Na
simplicidade dos seus traços geométricos mantem-se mais que secular
centralizada na praça principal, referência expressiva à memória da cidade. Homenagem
a um certo governador do Estado originou sua construção. Ela impávida, resiste
ao acúmulo dos anos em que o tempo se encarrega de produzir desgaste lento e silencioso.
Gerações e gerações usufruíram das brincadeiras em torno da lendária Pirâmide. Algazarras,
correrias, cantigas de roda extravasavam alegria pueril sob o esplendor da lua reverenciando um céu deslumbrante, que inebriava de intenso brilho estelar.
Políticos a usavam como tribuna para inflamados discursos eleitoreiros. No fim
de tarde os garotos improvisavam pelada diante da Pirâmide, espectadora fiel e
permanente. Divertiam-se movidos pela irreverencia e entusiasmo no ágil manejo
com a bola, driblando afoitos na ânsia do gol a todo custo.
Em noites
soturnas, silenciosas, propícias aos furtivos amores, casais buscavam na
Pirâmide refúgio e cumplicidade. Acobertou o mais fugaz dos flertes, o mais
recatado ingênuo amor, a mais tórrida paixão proibida. Declarações,
confidências, pactos segredados, idílicos encontros selavam juras entre
namorados.
Porém, a paz
romântica muitas vezes via-se interrompida pelo foco da lanterna do
bisbilhoteiro invasor à espreita de alguém em colóquio amoroso na pirâmide.
Eram sempre homens movidos pela curiosidade perversa onde no alvo preferido
destacava-se a mulher, com detalhe: a luz incidia diretamente sobre o rosto da
moça deixando a exposta, vulnerável a maledicência da fofoca que no dia
seguinte corria solta na cidadezinha. Consequentemente a jovem passava a ser mal
vista no meio social pelas famílias como péssima amizade às suas pupilas.
Uma rejeição
explícita pela sociedade patriarcal fortalecendo e estimulando a discriminação, que acoplada ao preconceito marginalizava, ceifava a liberdade feminina.
A Pirâmide,
esse monumento de forte significação na minha terra não possui forma
grandiosa, bela ou sequer rebuscada. Revela, porém, uma estética sóbria,
harmônica, permeada pela aura enigmática de um certo fetiche que a sempre
envolveu. À distância, em meio às
recordações me enterneço ao relembrá-la.