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sábado, 17 de julho de 2010

O Pensionato de D. Janoca




O pensionato onde eu morava quando adolescente tivera localização diversa. Antes, num velho sobradão na Rua Djalma Dutra, também conhecida como o beco de Catarina Mina, uma escrava alforriada que teve casa e comércio ali. Nesse trecho da Praia Grande, no Maranhão, predominou outrora poder e ostentação de portugueses, que dominavam um rico comércio. Outros velhos sobrados ladeavam a escadaria que compunha a pequena rua. Apesar do abandono, ainda podia se ver beleza nas pedras de lioz, calcária branca que formava com imponência a escadaria, já então encardida, desgastada pelo tempo e maus tratos.

Depois o endereço passou a ser a Rua do Ribeirão, defronte da lendária fonte com carrancas jogando água, galerias subterrâneas cheias de mistérios e segredos. Nesse pequeno sobrado reformado a convivência foi de pouco tempo. Estabeleceu-se, então, na rua da Cruz. Era mais um sobradão antigo que perdera o ar pomposo e agora, na condição de simples morada, acomodava o pensionato. Estendia suas janelas com sacadas de ferro e mármore para os lados da rua dos Afogados, fazendo esquina e divisa naquele trecho. Ambiente familiar. Colegiais, jovens funcionárias, senhoras, dirigido por Dona Janoca: dinâmica, alegre, determinada, dividindo com marido e filhos a organização da casa. Presbiteriana, os cânticos e orações integravam a rotina da família. Sons benéficos que chegavam aos meus ouvidos assimilando-os prazerosamente.

Fins de tarde, o sol pincelava o horizonte sinalizando o crepúsculo. Debruçava-me na janela para os flertes. O vento sibilava da beira – mar, atravessava ladeiras, becos, chegava numa leva aragem. Eu me refestelava naquela vaidade plena de adolescente.

São Paulo, 2002

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