Onde houver amor Deus aí estará (Tolstoi)
Feliz Ano-Novo!!!
Saúde, Paz, Prosperidade a todos.
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domingo, 30 de dezembro de 2012
sábado, 22 de dezembro de 2012
Natal
Um silêncio solene caminha pela casa ornamentada para a celebração natalina. Silêncio de plenitude contemplativa despertando sentimento místico, inspirando outros bons e puros. Diante do presépio a simbologia do Menino Deus na manjedoura, louvado pelos reis magos Gaspar, Baltazar, Melquior. Guiados por uma estrela de intenso fulgor viajaram até Belém na Judéia para ofertar mirra, incenso e ouro ao Messias, o Salvador. Assim reza a tradição do Cristianismo.
Vê-se a árvore erguida, paramentada
com roupagem de brilho multicor cheia de bolas, fitas, luzes estilizadas com
múltiplos acessórios que a revestem para a mística do Natal. Curto esse período latente em mim, resquício
que remonta a sonho pueril de uma cidade pequena onde a liturgia da missa do
galo era a essência de maior relevância, celebrada entre os ritos e cânticos
gregorianos num encantamento de beleza etérea.
A silenciosa paz confortante não se
detém longamente, logo é sacudida por acordes de um papai Noel estiloso, vanguardista
solando no sax notas de rock’n roll e ritmos modernos do pop internacional. Ligando o botãozinho ele
deslancha a tocar compulsivamente.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Samba-canção, bolero e dor de cotovelo
Lançado no mercado de publicações uma estilosa e completa biografia de Dolores Duran, preciosidade para o deleite de admiradores, nos quais me incluo, debruçarem-se sobre relatos, fotos e histórias da cantora. Registro de uma época próspera em que predominava o samba-canção e bolero, ambos de beleza e estilo musical refinado.
O amor era personagem essencial nos anos cinquenta, passeava pelos versos carregados de melancolia e paixão. Amor platônico, solitário, dilacerado. Intérpretes cantavam com emoção aflorada tocando corações tristonhos em abandono; boêmios exauridos pelo excesso e desilusão; namorados enebriados de romantismo. Amores desfeitos, amores proibidos, sussurrados, segredados à meia luz das boates e bares noturnos. A música chamada dor de cotovelo circulava ambientada nesse convívio sentimental no universo da utopia. O amor idealizava-se na perfeição, lírico e infinito. Pessoas amavam com louca e apaixonante entrega, amarguravam-se desesperadamente. Na partilha de sofrimento o quinhão maior ficava com a mulher.
Dolores Duran, um ícone da época, iniciou precocemente a carreira aos dezessete anos, precisando adulterar a idade para trabalhar na noite como crooner da mais luxuosa e imponente casa de shows do Rio de Janeiro dos anos quarenta e cinquenta, a boate Vogue, localizada na lendária Copacabana. Chamava-se Adiléia da Silva Rocha, carioca nascida em sete de junho de 1930. Talentosa, genial, com influencia jazzística, também cantava fluente em vários idiomas; logo cedo conquistou o reconhecimento dos músicos mais exigentes. Compondo sozinha ou em parceria deixou clássicos que enternecem como a poética " A noite de meu bem":
Em "Fim de caso" cantou o amor em desencanto:
Celebrou a beleza da vida em "Estrada do sol":
"Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
quero a primeira estrela que vier
para enfeitar a noite de meu bem... "
Em "Fim de caso" cantou o amor em desencanto:
"Eu desconfio
que o nosso caso está na hora de acabar
há um adeus em cada gesto em cada olhar
mas nós não temos é coragem de falar..."
Celebrou a beleza da vida em "Estrada do sol":
"É de manhã
vem o sol mas os pingos da chuva que ontem caiu
ainda estão a brilhar
ainda estão a dançar
ao vento alegre que me traz esta canção..."
A intensa vida que levava comprometeu a saúde fragilizada desde a infância por um sopro no coração, que exigia cuidado e rotina moderada. Em 24 de outubro de 1959 chegou da boate para o descanso já em dia claro. Queria dormir bastante, e frisou em tom de brincadeira para a empregada que iria dormir até morrer. Um colapso cardíaco a levou na juventude dos 29 anos. Outros grandes intérpretes do samba-canção marcaram esse período: Nora Ney, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Maysa e Antonio Maria, dentre outros. Dolores Duran teve uma vida curta e fugaz. Marcou gerações influenciou com seu estilo de compositora e intérprete imortalizando-se no imaginário de todos.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Tempo de flores
No início desta primavera as temperaturas geladas mudaram o visual do clima com aspecto de um inverno de rigor excessivo . No Sul, em vez de flores uma neve fina salpicada pelos campos esbranquiçou a vegetação, criou moldes e desenhos com forma típica de paisagem fria, cinzenta, descolorida.
Para os lados paulistanos a situação climática não foi diferente. Termômetros desceram pra valer, e quanto! A garoa intercalava desconforto com um vento desnorteado, estabanado, que acelerando em todas as direções fustigava as pessoas aumentando a sensação de frio desolador.
A chuva se apresentou discreta: molhou a terra, banhou as plantas, limpou superficialmente impurezas da atmosfera. Lavou o asfalto, deixando-se escoar entre ralos e galerias pluviais para desembocar em outros recantos. Renovou a vida.
Na rua predominou o figurino eclético, cada qual agasalhou-se como pôde. Casacos pesados e acessórios diversos, de cor, tamanho,beleza e esquisitice deram suporte e aquecimento ao corpo. Primavera é uma estação de transição, afirmam meteorologistas, logo sujeita às instabilidades, variações, mudanças e oscilações do clima. Eu diria este frio tratar-se de um disparate fora de época a desestabilizar a temperatura. Presto minha reverência à Primavera, à beleza atraente das flores exóticas, singelas, enigmáticas e sedutoras.
domingo, 9 de setembro de 2012
Incêndios
Somente neste ano trinta e duas favelas sucumbiram na cidade de São Paulo em meio às labaredas de fogo, expondo um cenário nu e desolador de perda, sofrimento, indignação. Só em agosto oito incêndios reduziram barracos à cinzas, pó e destroços numa sequência alarmante. O trágico virou rotina, tornando rotineiro varrer favelas do mapa.
Famílias e tantas desabrigadas, amontoadas em improvisados alojamentos, virando-se como podem.
Algumas recorrem a parentes, outras permanecem na rua ao relento, cuidando, guardando o que restou-lhes. De longe vigiam o pedaço de chão esturricado onde assentarão os mesmos espremidos cômodos, forrados, cobertos por igual risco e perigo.Não é sina nem saga.
À quantas andam as políticas de prevenção e urbanização de favelas nesta cidade? Pelo visto caminham à larga distancia da realidade. Investimentos em habitação para familias de baixa renda, pior ainda, não existe. Os compromissos eleitoreiros assumidos por prefeito e governador não passam de engodo, promessa politiqueira, poesia do discurso demagógico, ilusório e ficticio.
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terça-feira, 14 de agosto de 2012
Viagem marcante
O vento não debandava ou aliviava. Nem o
mar atenuava a fúria. O rústico barco à vela singrava impetuoso, saltando,
driblando as ondas encrespadas pela lufada. A viagem exigia desdobrado esforço
dos tripulantes em conter a intensidade das ondas cercando a embarcação,
varrendo bagagens, que rolavam como bolas entregues ao destino de um fatídico jogo.
Era agosto, mês dos ventos traiçoeiros temidos pelos barqueiros da região.
Os passageiros viam-se num embate com
desfecho imprevisto, acuados pelo mar em surto.Um pânico silencioso revelava-se
visível em cada expressão sob o impacto do medo e suspense. Somente um senhor
com ar desesperançoso arriscou num breve desabafo o lamento contido ao ver um
cofo abarrotado de frutas sendo tragado pelo turbilhão das águas. Num gesto
tragicômico se deixou expressar:
- “Vai abacate, procura teu
destino!..”
Alguns esboçaram por um
instante um sorriso tenso e preocupante, apenas, voltando a predominar o
silêncio.
O oceano destruía e construía montanhas de
ondas que causavam efeito de terror incessante. O Mestre segurava o leme
concencioso da responsabilidade que lhe pesava. Calado, conduzia o barco
entregue ao desvario de dois gigantes: vento e mar. Num rasgo do momento
decisivo, soltou o grito de alerta: “Arribar!” Seguir na peleja significava
levar a embarcação a pique.
Além, uma nesga de terra apontava a
salvação. Uma extensa praia de beleza solitária e algumas casas em abandono por
conta do mar invasor e bruto, que reduzia-as a escombros passava a ser no
momento abrigo para os quase náufragos. Um lugar paradoxalmente dividido:
encanto e temor. Aquietaram-se exauridos ali mesmo, expostos aos pernilongos
logo afugentados pela fogueira de galhos secos de mangue. Um morador
sensibilizado ofereceu sua casa para as mulheres pernoitarem. Os homens
contentaram-se com um casebre que servia de moradia às cabras.
O pesadelo dissipou-se diante da placidez
do entardecer. O Sol se distanciava a caminho do poente, descia lento até
esconder-se alinhado ao horizonte marcado de nostalgia e cores. Distante, a
minúscula luz identificava o farol, guia dos barqueiros, referência nas
tempestades noturnas.
No dia seguinte cedo se juntaram,
confabulando, observando o tempo, que
emanava dos coqueirais uma aragem benfazeja; Indício e bom sinal favorecendo a
navegar. Na praia a vaga deitava-se pacífica, indolente, desmanchava-se indo e
vindo a banhar de espumas as conchas dispersas na areia. O mestre retomou o seu
posto, traçou com o olhar alguma linha imaginária a seguir adiante. A ordem era
zarpar.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Dor moral
Toda forma de tortura é cruel, aviltante, fere e viola o principio da dignidade do ser humano. Refiro-me aqui às presas grávidas, que até poucos meses atrás em São Paulo eram algemadas mãos e pés durante o trabalho de parto e o pós-parto em instituição hospitalar.
Parir dessa maneira é desumanamente doloroso, traumático. É parir também com a dor moral da violência das algemas cerceando o direito à liberdade numa hora delicada, apreensiva, em que a gestante necessita de amparo, atenção e serenidade.
As contrações e dores do parto natural são como um prenúncio de uma vida se desvencilhando do seu mundo uterino escorregando para o encontro da plenitude no colo materno. Vínculo primordial, salutar para mãe e filho que, infelizmente, nem sempre acontece.
As denúncias chegaram de várias entidades empenhadas na divulgação para que providências fossem agilizadas pelo governo paulista, que as refutou, negando a existência. Um vídeo, no entanto, filmado por funcionário do hospital em Francisco Morato, divulgado por um canal de televisão, comprovou mais uma vez os maus tratos. A cena era a mesma: uma presidiária gestante com mãos e pés imobilizados por algemas, presa à cama hospitalar. Ali configurava explícita a tortura física, psicológica e moral.
Sem nada a declarar o Governador assinou o decreto Estadual n° 57.783, em 10 de fevereiro de 2012, proibindo tal prática.
domingo, 24 de junho de 2012
Próximo!
Em certas agências bancárias a
fila da terceira idade não passa de ridícula piada de mau gosto. A prioridade da
qual dispomos não se trata de nenhum favor, mas de um direito adquirido, que não
parece ser levado a sério. Prolongadas demoras submetem-nos a uma provação de tolerância, paciência e
resignação. Sentados ou em pé, os idosos experimentam o exaustivo desconforto
da espera do atendimento.
No início do mês, período que coincide
com o pagamento de aposentadorias, pensões e outros benefícios, juntando-se aqueles que carregam a missão das contas dos
familiares ou empresas para quitarem débitos, o acúmulo fica maior. Todos a
mercê e dependência de um único e exclusivo caixa destinado ao idoso. O problema seria simplificado com a
disponibilização de mais um guichê, facilitando a vida de senhoras e senhores
nessa entediante espera. Uma hora é muito! Vira desrespeito, segregação. É
comum, corriqueiro, ver quatro, cinco caixas todos agilizados voltados a serviço dos demais clientes.
Imaginem os lucros arrecadados
pelos bancos com o contribuinte da
terceira idade, incluindo empréstimos consignados à base de exorbitantes juros,
que somente agora dão trégua, baixando por determinação do governo federal.
Ainda é necessário descer mais, aliviar o bolso dos menos favorecidos.
Os idosos não querem, nem desejam
esquentar cadeiras em agências bancárias como se invisíveis fossem diante das sucessivas
repetições de indiferença. Vão ali para tratar e resolver negócios, até porque
o banco é um estabelecimento de comércio para transações comerciais.
A terceira idade nos dias de hoje
vive antenada, adaptada à realidade do mundo atual com suas mutações e
transformações. É produtiva, tem projetos, sonhos, se liga nos noticiários, na internet, cultiva vitalidade, se exercita, redescobre a paixão. Conhece a
sabedoria e serenidade que a maturidade oferta.
Essas senhoras e senhores, desbravadores da vida, pioneiros e protagonistas do seu próprio enredo e história são antes de tudo cidadãos.
Essas senhoras e senhores, desbravadores da vida, pioneiros e protagonistas do seu próprio enredo e história são antes de tudo cidadãos.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Retalhos
A temporada outonal parece desfrutar o ápice dos dias bonitos. O sol anda cheio de afagos dourando a cidade. Temperaturas amenas espalhadas por todos os lados. Trégua para enchentes e temporais. Períodos de paz; pena que seja somente períodos.Céu de um azul sedutor. Céu que furta do arco-íris a cor; mistura contraste, desmancha, resvala, cai em degradê suave. Nuvens esgarçadas emendam pedaços, retalhos, e em debandada pelos caminhos dos astros e galáxias vão criando bordados.
O outono surpreende: nem cinza, nem triste: belo. Folhas amarelas se despreendem de leve, beijam o chão, adormecem.
Uma diva e sua canção: "Estrada do Sol", Dolores Duran. Roubo um verso, transcrevo o momento mais que oportuno: "Me dê a mão vamos sair pra ver o sol"...
terça-feira, 3 de abril de 2012
Frutos e folhagens
Os galhos emaranhados intercalavam-se uns aos outros estendidos, cobertos de folhas miúdas permitindo às crianças usufruírem feito um regaço. Um farto colo de mãe que abrigava, acolhia. Acomodava-me ali comendo ginjas; colhendo, enchendo os bolsos do vestidinho de chita, leve, feliz tão quanto a vida era.
No período sazonal comíamos tantas sem dar vencimento; vermelhas, pequenas, rechonchudas, pequeninas e de um azedo... Acostumávamos cedo com o sabor peculiar que brotava das ginjas mastigadas avidamente. Mãos dedicadas, carregadas de capricho preparavam as compotas. Mamãe encomendava-a; eu saciava a gula com o prazer que a infância permitia. Compotas de ginjas. Ginjas em compotas mergulhadas, entrosadas à espessa calda avermelhavam; tingiam com exuberância e transformavam a acidez em suavidade.
Raras casas desfrutavam de uma ginjeira em seus quintais, uma árvore de médio porte. Consta ter sido a primeira, a mais antiga em Guimarães onde a contribuição portuguesa favoreceu o plantio. Seu tronco dava prova dos anos de serventia à natureza, beneficiando passarinhos e crianças, doando-se inteira.
Enquanto a gingeira na simbologia maternal abarcava, aninhava, vivia em outro quintal, em outra morada um jenipapeiro que do alto da soberba altura parecia troçar, desafiando a criançada a alcançar suas frondes e frutos. Imponente assim ele era. Os jenipapos pendurados na rama cresciam; maturavam vigiados pelos olhos infantes curiosos, cuidando em adivinhar, especular o tempo devido de estatelarem-se no chão para juntá-los antes que virassem xepa das galinhas. Quanta impotência em só olhar! Cobiçar os frutos e não poder trazê-los para exibir a bravura desejada. Quanto agradável era sentir aquele sabor diferenciado, misturado ao aroma forte que nem sempre correspondia ao prazer do paladar de quem não estava habituado a saboreá-lo. Já o licor, adquirindo gosto refinado se tornou apreciado e requisitado.
Quando as ventanias atingiam o jenipapeiro, os galhos sacudiam desordenados em contorções e movimentos malabaristicos num inteiro desequilibrio. Passado o temporal, recompunham-se aliviados por um sopro apaziguador. Naquele quintal, só ele reinava. Os arbustos reduziam-se a modestos figurantes na paisagem interiorana, familiar, marcante da minha infância.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Lei Nº 11.340/2006

Não tem porque a lei Maria da Penha ainda ser vista sob um olhar indiferente e preconceituoso por parte de algumas autoridades, que a negligenciam alegando inconstitucionalidade na aplicação. Com a decisão do Supremo Tribunal Federal sua legitimidade consolidou-se, possibilitando a qualquer pessoa ciente e testemunha de agressão e maus tratos denunciar o agressor, independente do consentimento da vítima, que não poderá retirar a queixa.
Um avanço e alento esperançoso para as mulheres que também esperam da justiça andamento rápido, ágil dos processos. A lentidão contribui para facilitar a desistência de muitas vítimas, coagidas e acuadas diante das ameaças dos agressores. E estes, ao verem-se impunes, voltam a desferir violências nas companheiras. Quando as mulheres recorrem aos órgãos de proteção nos seus apelos e desespero estão no limite prevendo um desfecho trágico, mas nem sempre são assistidas com o apoio urgente que anseiam, que o caso e o momento requer.
A violência doméstica e familiar soma índices estarrecedores no país: de 1997 a 2007, 41.532 mulheres foram assassinadas no País, uma média de 10 mortes por dia; a cada duas horas uma mulher é assassinada no Brasil; 4,2 assassinatos por 100 mil habitantes; 68% dos filhos assistem as agressões; 15% sofrem junto com a mãe. (dados do Instituto Sangari colhidos do Mapa da Violência no Brasil, 2010.)
São números desrespeitosos, aviltantes, tristes, vergonhosos. É necessário rigor na aplicação da lei Maria da Penha. É necessário que as políticas para as mulheres sejam atuantes, eficazes. É necessário conscientização para um problema social que remonta a uma cultura machista de supremacia, domínio e posse ainda arraigada na sociedade, com a qual convivemos velada ou escancaradamente alimentando discriminações, preconceitos, segregações; oprimindo e aniquilando. Que prevaleça a igualdade e respeito.
Banalizou-se a vida. Porque banal ficou espancar, assassinar mulheres.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Nas alturas

Por que sinto medo de viajar de avião? Essa torturante pergunta instiga-me; indecifrável medo que acabou se tornando exarcebado e já não consigo mais domá-lo sob as rédeas curtas do meu controle e domínio. Há muito ando desencorajada para enfrentar viagens aéreas; o temor de voar se apossou, o que me fez abdicar de conhecer lugares e cidades dos meus sonhos e desejos. As oportunidades foram-se. Perdi todas. Incomodamente aceitei.
O início das primeiras viagens que fiz de avião foram nos pequenos tecos-tecos ou táxi aéreos, como eram chamados os aviõezinhos de quatro lugares muito comuns à época em que faziam linha para várias localidades do Maranhão. O trajeto entre São Luis e Guimarães durava um curto tempo de trinta a trinta e cinco minutos, suficiente para sentir grandes sustos quando o percurso ficava sob o impacto e a mira dos ventos enfurecidos. Mais tarde foi a vez das aeronaves de maior porte, que ofereciam um certo conforto comparado às que circulam atualmente com serviço de bordo que deixa a desejar.
Viajei pela extinta Vasp e guardo grandes recordações. A última viagem a minha terra foi pela saudosa Varig . Bons tempo de Varig. Empresa nacional e pioneira no serviço de voos no Brasil. Dilapidaram, sucatearam e extinguiram desmerecidamente a lendária Varig. Não voei"pelas asas da Panair" como diz a bonita canção de Milton Nascimento lindamente gravada por Elis Regina. "A maior das maravilhas foi voando sobre o mundo nas asas da Panair..."
Ah, como admiro aqueles que amam viajar nas alturas; os que conseguem manter o equilíbrio e, determinados, afugentam seus receios; aqueles que amedrontados não entregam os pontos e lá se vão motivados pelas surpresas e curiosidades. Admiro ainda os mais temerosos, que impõem a si próprios uma psicológica força extrema confinando o pavor que possa assustá-los e despersuadi-los. E como admiro aqueles que dormem o trajeto inteiro o sono dos anjos, acalmados por um possante tranquilizante para despertarem felizes no destino.
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