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sábado, 19 de dezembro de 2020

João bonito

      Vivia uma rotina de trabalhador responsável no estressante serviço pesado nada fácil, mas era o seu ganha-pão a sobrevivência. O bom humor o acompanhava nas tarefas que o  requisitava em Guimarães.

     João bonito, irônico apelido que atendia sem aborrecimento ou queixa. Feio demais: os traços rústicos, o jeito desengonçado, aquele andar pesado meio vergado onde muitas vezes sem camisa deixava à mostra os incontáveis calombos que se multiplicavam aceleradamente no corpo; e eram tantos, variando em tamanho concentrados em quantidade maior no tórax. Morava com a mãe em uma casa de total humildade, era uma senhora dedicada ao filho contribuindo também para o sustento dos dois.

       O  trabalho principal de João bonito iniciava cedo levando água para famílias abastadas no comércio informal, ao qual outros jovens também recorriam contribuindo para a pequena renda familiar; época em que a água encanada não passava de um sonho na cidadezinha. O transporte seguia através de jumentos com duas ancoretas, que abasteciam nos poços exclusivos para água de beber. As lavadeiras usavam da mesma prática, porém com latas cheias d'água na cabeça; uma labuta, jornada dupla cansativa, desgastante.

      A criançada quando avistava João bonito divertia-se gritando seu nome, ele, no entanto, fingia não ouvir, mas num determinado momento batia o pé no chão com força tamanha  assustando-as que logo disparavam a correr tomando rumo de casa; João bonito simplesmente  se divertia  do medo que despertava na garotada. Além de entregador de água tinha certa habilidade em matar porco, contratavam-no com frequência para tal serviço. Lembro na casa da minha tia: eram dois caldeirões grandes no quintal e, ele, João bonito, responsável pela tarefa. Iniciava cedo, lá pelas tantas  sol já alto a pino exalava o cheiro gostoso do sarrabulho apurando aquele tempero bom, típico da terra. Adiante o torresmo pipocando no velho caldeirão e a criançada indócil na expectativa para comer.

       Ele caprichava no trabalho com boa vontade e conhecimento. Sua vida transcorria nessa rotina paupérrima sem esperança para alimentar algum sonho maior. Mas os calombos intensificavam-se,  que demonstrava  algo grave necessitando de diagnóstico preciso. A solidariedade que o cercou  tornou-se importante para que chegasse a São Luís, onde o tratamento cirúrgico aconteceu. Retornou a Guimarães com a saúde equilibrada, contudo no decorrer do tempo o desenvolvimento da doença manifestou-se, tirando-o do convívio de todos.

     João Bonito partiu com a humildade que viveu.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Uma mulher de luta

       Possuía um senso de liberdade que para os padrões conservadores da época era visto com olhos de censura e desdém. Corajosa, trabalhadora e tanta! Como provedora da casa, chefe de família junto com os filhos, batalhava numa rotina de trabalho informal de pouco lucro com um carro de boi que pertencia à família. Outras vezes na condição de cozinheira esforçava-se no fogão das senhoras abastadas recebendo salário mensal,  podendo assim contar para os gastos frequentes.

          Mas sua vida não se resumia somente a labuta, divertia-se também nas festas tanto religiosas como carnavalescas, principalmente. Com a maturidade adquiriu  sabedoria na prática da vida dura driblando os momento difíceis, deixando-se contagiar pelas coisas alegres. Uma senhora com personalidade que sabia impor respeito até nos momentos descontraídos nos quais não permitia muitas vezes a espontaneidade ir além do limite.

            Enfeitava-se  prazerosa para as festas com brincos, colares,  pulseiras e o batom carmim, aquele vermelho atraente indispensável que gostava de usar nas procissões e momentos especiais. O vestido simples de tecido barato caía até o joelho deixando as pernas longas bem torneadas à mostra, destacando ainda a sua boa estatura. Nos bailes demonstrava a certa preferência pelos moços jovens e quando encontrava um par agradável então, a noite era toda sua. Em uma dessas festas carnavalescas entrou no salão um rapaz jovem conhecido pela grande afinidade com a dança,  familiarizado com os rítmos, aliás, exímio dançador. Foi o suficiente para os dois juntarem-se ao entusiasmo da festa. Dançaram bastante, rodopiaram pelo salão à vontade, porém em determinada hora o jovem querendo sumir, desvencilhar-se,  simulou  uma desculpa para a senhora convencendo-a  ao lhe falar: "vou fazer xixi"... Logo às pressas  sumiu. Uma espera prolongada ansiosa, criando expectativa e ainda desconfiança.

         No entanto  ela não deixou por menos, saiu a procurá-lo e ao chegar no outro salão o encontrou bem à vontade num descontraído bate-papo em boa companhia feminina. Sem pensar duas vezes, aproximou-se do rapaz o encarou com voz firme, semblante sisudo e logo disparou a pergunta: "agora que tu cabou de mijar?!"  Surpreendido com tal atitude que não esperava gaguejou, tentou escapar,  mas foi impedido,  de imediato conduzido ao salão principal onde ambos retornaram à  dança num poutporri de marchinhas estendendo-se noite afora naquele entusiasmo frenético entre lança-perfume,  serpentina entrelaçando casais num êxtase de felicidade.

          O baile varou madrugada, somente estancou a euforia dos dançantes com os acordes da orquestra ao som do tradicional Zé Pereira. Acalmaram-se os ânimos festivos, os instrumentos musicais emudeceram, o salão silenciou.