
O pesado frio que estancou sobre esta cidade semanas atrás levou-me a buscar refúgio nas lembranças prazerosas da minha terra, sem deter-me no lado obscuro do clã usurpador que age como se fosse donatário de capitania hereditária.
Em agosto dá-se o inicio do estio no Maranhão. As chuvas volumosas que causam danos, estragos à região cessam para ceder lugar ao sol e ventos muitas vezes desafiadores, nada propícios a navegar ; outros dias chegam feito aragem: brando, ventando suave, fagueiro entre coqueiros e folhagens. A paisagem desbotada pelas sucessivas chuvas revigora-se; uma celebração duradoura da natureza exibindo exuberância aos olhos do visitante. É o verão assim conhecido por lá. O Maranhão encontra-se muito próximo à linha do Equador, beneficiando-se de um bom clima sem agruras dos invernos gelados. Situa-se entre o Norte e o Nordeste, o que o fez assimilar costume, tradição, das duas regiões, mostrando características visíveis da região amazônica com florestas cortadas por rios, igapós, sobressaindo frutas nativas: bacuri, murici, cupuaçu, juçara, buriti entre outras exóticas para os estrangeiros. Saborosas em cremes, sucos e doces.
Sob influência indígena, africana, portuguesa, nasceu a cultura do Maranhão, e dessa miscigenação a culinária extraiu sua essências na diversificada mistura de gostos, hábitos, temperos, condimentos e ervas, aliados à contribuição sírio e libanesa. O litoral maranhense tem vasta opção. Escolhas variadas de peixes e frutos do mar proporcionando composição de bons pratos e sabores que agradam satisfazem o turista, como o arroz de cuxá servido com as tortas de camarão ou caranguejo, ou sururu, ou então saboreado com peixe frito, que gostoso! Embora seja suspeita em opinar, recomendo ainda o vatapá, caruru e demais comidas regionais que surpreendem quem imagina uma culinária restrita.
São Luís é uma ilha. O centro histórico da cidade tem uma arquitetura talhada no molde português: casarões, sobradões, azulejos, mármores, registram a permanência do colonizador. Um conjunto arquitetônico bonito, porém mal conservado pelo poder público.
Em junho irrompem as festividades do folclore da terra. Resplandece o bumba--boi, espetáculo tradicional bastante conhecido. O enredo centrado nas figuras de Catirina, o boi e pai Francisco movimenta-se entre toadas, diálogos e coreografias, introduzindo personagens, dando dimensão à história. O brincante, rajado de fitas, solta a voz balança o corpo no ritmo do sotaque; sacode o maracá, deixa alegria fluir entre um gole e outro de cachaça. O boi cintila: lantejoulas, canutilhos, paetês transformam o couro bordado a capricho em uma obra de arte.
O tambor de crioula apreciado o ano inteiro é também destaque turístico. As mulheres dançam livres sem técnica, descontraídas, enquanto os homens tocam. Saias coloridas rodam levadas pela magia dos tambores e das cantorias. No auge surge a pungada: num gesto rápido, ligeiro, encostam barriga com barriga chamando dessa forma outra parceira para entrar na roda. A origem do tambor remonta aos escravos, louvavam e agradeciam São Benedito pela graça alcançada. Tem ainda a festa do Divino Espírito Santo, o Congo, muitas brincadeiras, manifestações folclóricas do Estado, que contribuem para enriquecer a cultura popular do país.
Encerro com alusão ao guaraná Jesus, tipicamente maranhense, lendário na tradição; um farmacêutico criou a formula e deu o seu nome a esse refrigerante de cor rosa e forte sabor de infância. Marcante nos aniversários, batizados, casamentos, festas, compartilhou gerações. Borbulhava deliciando a criançada. Permanece atrativo, atraente ao jovens, meus netos que o digam.
Neste breve apanhado de descrições juntei uma compacta alegoria de imagens, cores, dança, emoção e prazer.
