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domingo, 5 de setembro de 2021

4 de dezembro de Santa Bárbara

 

        O calendário marcava quatro de dezembro, dedicado a Santa Bárbara com forte influência religiosa nos terreiros de mina, umbanda e candomblé. Nesse exato dia, após anos de ausência, retornei a Guimarães com os filhos na companhia de minha mãe para uma temporada na querida terra, período em que o marido seguia para o Rio de Janeiro assumindo um irrecusável contrato de trabalho.

        A viagem mostrou-se agitada pelo vento no intenso duelo com o mar. Mestre Henrique, conhecido de todos, integrava a tripulação com vasta experiência em navegar. Sempre ágil no trabalho, comunicativo, espontâneo e prosador,  sua presença transformava as horas conturbadas mais leves com o bom humor muito presente. Meu filho mais novo chorava incansável, nada o consolava. Tinha apenas um ano e seis meses,  tudo surgia estranho ao seu redor; o vento, porém,  que açoitava a embarcação, também servia como acalanto para choro de criança. Sentindo-se  embalado o caçula adormeceu exausto no meu colo sem compreender, na sua pequena idade, o momento por que passava. Os filhos maiores experimentavam igual desconforto abismados, olhando aquele enfrentamento do mar com variações temerosas a todo instante, pondo cada um com seus medos e temores.

        Durante o percurso das horas longas as recordações afloravam nítidas na memória. Lembranças eram resgatadas e saudades antigas  renasciam motivadas perante a realidade ali presente. Rever a terra de origem despertava intenso saudosismo, impacto emocional. Minha geração encontrava-se um tanto dispersada. Rostos novos dominavam sob a ótica moderna, antenada, comprometida com o futuro.

      À tarde, com sol brilhando nas alturas, o barco ancorou no porto. Alívio, conforto para o corpo e a mente tumultuada. Em frente, o vasto manguezal permanecia com o poder de resistência multiplicando seu domínio, abrigando garças e guarás favorecendo bom acolhimento como o refúgio aos pássaros que por lá pousavam. E seguimos caminho em direção à casa previamente alugada. Os filhos não conheciam Guimarães, nem o mais velho, único a nascer vimarense; como cresceu em São Luís as lembranças se dissipariam com o decorrer dos anos.

     Longe, o som do tambor de mina celebrava festejos à Iansã, danças e rituais  estendiam-se madrugada afora indo ao encontro do amanhecer que eu, escutava envolvida pelo sentimento de religiosidade e respeito. Foram quase dois anos de convivência na querida terra, tempo dedicado  exclusivamente aos filhos com imenso apoio de minha mãe. As correspondências do marido traziam conforto psicológico tornando os dias mais leves, menos carregados pela solidão. 

     Finalmente chegara a data de retorno a São Luis para prosseguimento da viagem ao Rio de Janeiro. Por sorte tive como companhia uma estimada prima com residência em São Paulo. Ela viera a passeio ao Maranhão aproveitando as férias de trabalho, mas logo retornaria ao emprego. Viajamos juntas no mesmo voo, desembarquei no Rio com os filhos e minha prima seguiu no mesmo voo da VASP para a capital paulista.

     Na Cidade Maravilhosa fixamos residência por oito anos, nesse período a família aumentou com o nascimento da caçula, único filho que nasceu carioca. O Rio de Janeiro,  contudo,  não cabia mais nos anseios e projetos do marido que idealizava novos planos maiores e desafiadores. A mudança para São Paulo tornou-se inevitável.

     Na grande metrópole o frio castigava demais sendo o principal entrave. Aos poucos, devagar fui desvendando a cidade soberba e misteriosa que, sob  a grandeza, revelava um lado humano. O tempo foi o mestre aprimorando a boa convivência nessa minha segunda terra onde sinto imensa gratidão em permanecer. Grandiosa cidade, generosa metrópole. Intensa, enigmática, que à maneira paulista de ser abraça  acolhendo raças e credos.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Um trabalhador digno


De tempos em tempos ele surpreendia chegando das praias de algum vilarejo distante, muito além, carregando consigo uma ingrata e pesada carga: a deficiência física que tolhia a maior parte dos membros superior e inferior. Um dos braços havia perdido o movimento mantendo-se paralisado, vergado próximo ao tórax  junto à cintura. Apenas o outro conservava a coordenação, era o braço do trabalho. Com ele capinava a praça Luiz Domingues inteira. Devagar aos poucos concluía o serviço, então pago pela prefeitura que o contratava.

Bento era o seu nome. Conversar com as pessoas dependia de um certo esforço para expressar o que desejava falar numa linguagem um tanto embaraçosa. Com o andar trôpego arrastava pernas e pés, como se fosse um imenso peso naquela vida inquieta, instável, penosa sem queixas ou resmungos. Minha mãe o acolhia hospedando-o conosco num quarto menor que ele ocupava. Da sua vida pessoal sabíamos muito pouco, apenas o cotidiano básico da convivência. Não fazia referência a qualquer parente ou família, um solitário sem residência fixa em lugar nenhum.

Permanecia longas temporadas em Guimarães, gostava desse ir e vir  De repente sumia, a rota já sabíamos, sempre as praias distantes, mas necessitava de alguém que tivesse disponibilidade para transportá-lo. Cultivava sua independência com o suor do trabalho embora com limitações, mas conseguia. Isso o fortalecia psicologicamente. Seu refúgio era uma bela, discreta e sossegada praia estendida quilômetros a perder de vista. O mar intenso em dias favoráveis presenteava o pescador com bons camarões que arrastava ali mesmo na praia, sem grande esforço. Os moradores todos se conheciam e logo Bento passou a ser também parte integrante do vilarejo.

Em uma dessas vindas e idas decidiu estender o tempo de permanência, as notícias esporádicas de tão escassas, silenciaram.