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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Uma casa singular

          Naquela morada viviam três distintas senhoras carregadas de simpatia e afeto. A mais velha recebeu na juventude uma herança paterna: a profissão de ourives, nada comum às jovens do seu tempo até então disciplinadas, educadas para "prendas do lar". Um mundo essencialmente feminino dedicado à exclusividade domestica, que impunha regras de comportamento e extenso aprendizado de trabalhos manuais, requisitos indispensáveis à formação de uma dona de casa "prendada". 

      A dedicação pelo oficio lhe impulsionou a esmerar-se na criação de jóias sob encomenda tornando-se primorosa artesã, que a fez tomar para si a responsabilidade de provedora da casa. Nas horas livres voltava-se à leitura. Tudo que lhe chegava em mãos lia com avidez curiosa de aprendiz mantendo certo fascínio pelos romances construídos nos enredos e segredos engenhosos das tramas amorosas, sedutoras. Nas tardes mornas espreguiçava-se na rede num puro deleite acarinhada pela aragem soprando mansa ao seu redor. Gostava daquele vento brando que chegava quieto carregando indolência, inebriando paz liberta, envolvente de inteiro devaneio. Apegava-se também à Seleções Reader`s Digest,  revista de expressiva circulação à época e
de enorme aceitação pela elite conservadora do País, que publicava histórias anticomunistas nas quais o império norte-americano demonizava o comunismo incutindo terror e pânico nos leitores com suas matérias. Porém, no decorrer dos anos as certezas da senhora diluíram-se enveredando por dúvidas e questionamentos sobre a verdade dos fatos, mas guardando consigo resquícios do temor que os relatos e boatos do regime soviético exerceram em sua infância.  Lendas assustadoras repassadas pelos mais antigos  sugestionavam as cabecinhas infantis distanciando-as da realidade. Recordava, ainda, uma oração rezada em contrito apelo que proporcionava alívio e bálsamo espiritual atenuando o medo ao finalizar: "Senhor livrai-nos do comunismo".
     
      Perante a inevitável velhice definia-se uma senhora contida nas ambições de novos desafios. Os sonhos esvaíram-se em meio a inquietantes descobertas na ávida juventude. Longe datavam os arroubos de outrora. Alinhava-se, então, atrelada numa serenidade que a nova fase ofertava. Olhar complacente, ponderada;  reflexiva para ouvir, julgar, acolher.  Na  mocidade, desejou encontrar um marido, mas a sorte não a favoreceu - emendava, disparando a gargalhada irônica, descontraída. Desistiu, fadada à condição e estigma de solteirona.

      A irmã do meio com sua espontaneidade mostrava de fato ser a mais alegre, extrovertida. Pulsava com ela uma alegria sem esbanjamento, serena, iluminando-a de cativante simpatia. Como mãe solteira carregava a difícil responsabilidade de criar o filho sozinha na ausência da figura paterna, motivo para exercer o papel maternal com desdobramento visceral emergindo das entranhas, do âmago. Amava sua cria determinada a protegê-la, defendê-la. Por outro lado, o preconceito grassava como praga nas patrulhas que vigiavam o cotidiano das mulheres tomando conta de suas vidas: oprimia, excluía, marginalizava. Mirava obsessivamente as mães solteiras, descasadas, as "moças mal faladas". Ela não era exceção, ardiam todas na fogueira permanente da língua ferina da cidadezinha.

          Cabia a irmã do meio a obrigação diária que a casa exigia, uma jornada exaustiva de trabalho frequente. Das tarefas encontrava prazer em garimpar livros, e revistas para a irmã leitora, ocupação e lazer que a desobrigava-a dos afazeres enfadonhos. Sublimou assim uma paixão secreta jamais exteriorizada, não permitindo ao coração escancarar, viver o sentimento que ameaçava arrebatá-la. Sufocou-o tomada pelo ímpeto que acreditava sensato, prudente, todavia, permeada de melancolia.  A casa das senhoras consistia numa combinação elaborada de coisas simples, despojadas. Da varanda estendia-se o peitoril escorregando em ligeira curva indo acabar na cozinha artesanal ressaltando características similares ao modelo e uso nas demais residências. O fogão, alimentado por toras de lenhas queimava durante o dia nutrindo fagulhas; permanecia aceso para o momento de ser requisitado. Enquanto isso, o tacho de cobre, entrosado às panelas de ferro e barro, gozava privilégio ante sua, prestigiosa serventia na alquimia e preparo refinado dos doces manejados ao capricho das irmãs, ao sabor do conhecimento que dispunham. A casa emanava agradável bem estar. Caminhando pela sala percebia-se um silêncio vigilante, estagnado, tomando conta daquele ambiente. Espécie de guardião rijo, ríspido, que zelava pela intocável arrumação onde móveis, objetos e tudo mais permaneciam sem desordem qualquer cativos nos lugares definidos.  Dos quartos em dias encalorados soava o ranger das escápulas: cantiga dissonante repetida de extrema  familiaridade aos ouvidos. Ali as irmãs refrescavam-se aos embalos nas redes.

     Atrelado aos fundos da morada o quintal apresentava visão paisagística espaçosa, verdejante, multiplicada no período chuvoso contínuo em que a natureza brotava, expandia diversificada abarrotando a terra fazendo renascer exuberante formosura. Árvores frutíferas sombreavam deitando extensas copas que facilitava o ir e vir da passarinhada disparando gorjeios frequentes. Dispunha ainda o quintal de um aglomerado rasteiro de flores minúsculas graciosas entapetando o chão, fazendo nascer salpicos de cores vivas, permitindo ao ciclame transluzir seu exotismo.  Outras mimosas delicadas sustentavam-se nos caules finos onde o vento ardiloso ameaçava quebrá-los. Adiante existia um espaço diferenciado servindo de abrigo e privilégio das plantas medicinais favorecendo o desenvolvimento e  distanciando-as do importuno das galinhas.  

        A terceira irmã, a mais nova, podia-se dizer uma senhora voltada a pensamentos lógicos, decisões práticas; afinal, conduzia a vida exercitando a plenitude racional estruturada no aprendizado com o qual chegara à maturidade. Era de fato polida, educada até no falar. Prezava a língua  portuguesa, expressava-se numa excelente linguagem  recheada pelo extenso e variado vocabulário. Demonstração de pureza vernacular, entretanto, sem pretensão nenhuma ao exibicionismo ou presunção qualquer. Era algo que fluía natural explanando pensamentos, guiada pela eloquente racionalidade. Buscava nas aulas particulares a pequena fonte de renda. Ali extravasava plena dedicação;  doava-se prazerosa à vocação didática ao incutir nos jovens conhecimento além do que buscavam. Porém na relação a dois pouco permitia ser conduzida ou induzida pelo arroubo apaixonado  Não era dada ao deslumbramento  amoroso e muito menos ao amor intenso, cultuado, idolatrado. Procurava distanciar-se das artimanhas ilusórias sentimentais. Preferia não alçar voos inconsequentes, mas manter os pés no chão.  Recusou-se casar não pela falta de pretendentes - já vivia aos flertes com o pensar liberto procurando desvencilhar-se das amarras e dogmas instituídos pela cultura patriarcal relegando as mulheres à condição subalterna, onde a união matrimonial se tornava espécie de convivência arbitrária de posse e poder, ou seja, com marido comandando o núcleo familiar em demonstração de autoritarismo. Gostava de enfatizar suas ideias motivada pela lucidez e convicção. Curiosamente observava o cotidiano feminino: vigiado, impregnado pelas limitações, tolhido. Via-o como clausura social impondo rígidos conceitos à mulher, subordinando-a também à exclusividade no lar. Expor opiniões contestadoras deixava-a visivelmente marcada aos olhos do preconceito, mas não era de dar ouvidos a rótulos ou depreciamentos, sobrepunha-se. Ao transgredir escancarava uma coragem que transitava entre rebeldia e liberdade.

     Acima da personalidade marcante de cada irmã predominava a cumplicidade, sedimentada  sobre o vínculo do entrelaço afetivo mantendo-as  coesas. Souberam lidar diante das escolhas e opções, mesmo que intuitivas, imbuídas com determinação perante um aparato de "valores" que cercearam, aprisionaram as mulheres gerações a fio em tempos extremamente longos, implacáveis.