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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Minha origem

       Sou cabocla litorânea das bandas do grande mar bravo, enfurecedor, povoado pelos arrecifes cercados de mistérios, lendas e temores. Submersos ou expostos pontiagudos feito lanças afiadas vê-se ali um iminente perigo à espreita do invasor. Intimidam naquele território intransponível capaz de provocar tragédia devastadora a qualquer incauto navegante. Um mar que vomita ondas intensas e grandes quando instigado pelo vento sendo capaz de levar a pique a embarcação que navegar em dia não aconselhável. Mas também é possível encontra-lo pacífico em plena calmaria deixando-se escorregar indolente entre espumas sobre areia, cativo, submisso, marolando ao deleite da envolvente aragem.

       Sou de lá, onde a natureza ainda resguarda belas praias alongando-se em contornos e relevos sinuosos, soberbos buscando esconderem-se não sei onde em algum lugar sumido na paz de um infinito desconhecido.

       Na minha terra, os manguezais imperam vigorosos onde formam poderoso dominio. Desenvolvem, triplicam entre emaranhados de crustáceos, areia e lama, podendo incorporar aos seus redutos praias inteiras deixando para trás apenas recordações de outrora no imaginário nostálgico daqueles que as conheceram. Em seus galhos resistentes, viçosos, aglomeram-se os atraentes guarás, ali fazem morada na vastidão e silêncio de um mundo quase impenetrável. Pela manhã debandam em vôos serenos desbravando outros horizontes para no final do dia retornarem ao pouso noturno. Chegam num bater de asas lento expandindo uma beleza que tinge com exuberante vermelho a paisagem entardecendo mística e também solitária.

      A maré no processo geológico se esvai, distancia-se longe deixando para trás uma imagem fotográfica que inspira placidez poética, sonhadora entre canoas e barcos estagnados, resignados à merce da longa espera onde o sopro da brisa marinha como um alento atenua com leveza e prazer.

       Essa variação da maré entre o ir, vir, ou seja, vazante e enchente tem uma duração que prolonga-se horas. No seu retorno chega murmurando mansa, caudalosa ou intensa, impulsiva, ágil ou tão somente fúria.

       Amo minha terra, Guimarães, Maranhão.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Lembranças



          O silêncio noturno calava a cidadezinha possuída pela envolvente paz hipnótica em que a vida mergulhava num mundo fantasioso. Ali moviam-se lendas, mistérios, sortilégios confabulando no soturno, impregnado pelo sobrenatural habitando o imaginário das pessoas.

     Ao anoitecer, janelas e portas fechavam-se dando vez à luz das lamparinas e candeeiros exercerem a precária função de iluminar o ambiente das casas, casebres e humildes palhoças.  Uma rotina monótona na qual a luz elétrica ainda não integrava o cotidiano daquela gente predominantemente acolhedora, sempre disposta a receber o forasteiro com a alma carregada de bons sentimentos.

          Recolhiam-se com o escurecer. Alguns notívagos, curiosos, vagavam pelas ruas mudas e becos solitários buscando algo que pudesse render uma história surpreendente ou mesmo impactante, principalmente um casal em colóquio amoroso trocando carícias envolvidas pelo êxtase da paixão  naquele escuro silencioso, cúmplice que favorecia e os acobertavam do moralismo patriarcal opressor. Porém, quando flagrados, tornavam-se vítimas das línguas ferinas que não os poupavam. O boato espalhava-se entre cochichos e disse-me-disse causando enorme estrago, exclusivo para o lado feminino.

          Cães perambulavam soltos pelas ruas e logo assumiam o posto de vigias da noite; guardiões libertos dormindo ao relento, atentos ao rumor que só eles captavam atacando com latidos exagerados como se estivessem prestes a um gigantesco enfrentamento naquele mundo pequeno, mas acolhedor, onde chegava  a madrugada mansa cumprindo seu percurso vagaroso enquanto a brisa farfalhava.

          O vento nas folhagens das árvores, ora leve, ora intenso caracterizava de certa forma o dia como bom ou péssimo para a viagem marítima. Eram os barcos o transporte, o elo de ligação entre a cidadezinha e a capital.

          Cada viagem tornava-se uma saga, um desafio, um ato de bravura do mestre e seus tripulantes. Homens simples, valentes, habilidosos, responsáveis, pacíficos. Sábios conhecedores daquele mar intenso, revolto, encrespado, criando ondas gigantes num oceano minado de arrecifes  e bancos de areias encobertos feito armadilhas à espreita do incauto navegante. Uma travessia lendária com seus mistérios e superstições em que várias embarcações tiveram desfecho trágico, incontáveis vidas o impiedoso mar tragou. Esses barcos rusticamente construídos de madeira não possuíam motor ou conforto qualquer. Conduzidos pelo mestre através do leme, mas quando fustigados pelo vento em alto mar adquiriam grandeza com suas velas coloridas desafiando um intenso oceano contorcendo-se em fúria devoradora ameaçando levá-los a desfecho trágico.

          Os mestres  eram responsáveis em conduzir as embarcações e dispunham de  um senso de responsabilidade aguçado, atentos a imprevistos e perigos que eventualmente surgiam, afinal, lidavam quase diariamente com aquele mar traiçoeiro agigantado de bruscas mudanças e variações do tempo. Quando o vento debandava deixava no rastro a inesperada calmaria, um transtorno desalentador diante da expectativa ansiosa agarrada a uma esperança sofrida com o barco navegando penosamente, prolongando as horas até alcançar o destino certo. E ao ancorar no porto o semblante de todos refletia serenidade e um alivio reconfortante, alentador.






Reflexões

     A primavera com sua bagagem florida encontra-se instalada para os lados de cá compondo paisagens vibrantes em dias ensolarados, permitindo à vida um estado de plenitude inspiradora poética.
   
     As chuvas fazem parte da caravana primaveril, no entanto chegam às vezes minguadas, em outros momentos encharcando fartamente a terra desejosa de água onde possa fortalecer tão logo a vegetação deixando-a viçosa, colorida pelos alegres exuberantes tons que a natureza generosamente oferta.
   
     O canto apaixonante dos sabiás esvaíram-se, menos esfusiantes apenas serenos passeiam silenciosos entregues ao desvelo dos ninhos onde em breve estarão a dedicar-se ao enternecimento dos filhotes que futuramente serão também trov adores nas conquistas de suas amadas.
   
     Outubro apresentou-se para o comando, porém, sinto rapidez nos dias como se apressados estivéssemos acelerando o tempo, não permitindo reflexões ou resmungos para  nostálgicas recordações que inevitavelmente surpreendem a própria memória. Penso reflexiva com lucidez aguçada perante a velhice pela qual vejo-me tomada deixando no corpo presença marcante, inevitável, permanente. Quieto-me, talvez pelo temor ou respeito ou sabedoria que o decorrer dos anos o tempo mestre dos mestres ensina com sua didática austera, ríspida, inclemente.
2018

Uma guerreira

     As manhãs nasciam esperançosas para ela, apesar da labuta árdua onde o alvorecer a encontrava na cozinha preparando a parca marmita que o marido levava para o trabalho. Semanalmente era assim, diante do precário fogão a lenha sem infraestrutura qualquer deixava-se devanear em momentos sonhadores, soltando a voz afinada permitindo à canção fluir harmoniosa, alegre, bonita. Outras vezes surgia um canto nostálgico, arrastando-se numa melodia saudosista logo dispersada pela gargalhada espontânea, irreverente e  assim a vida se mostrava mas leve perante aquele cotidiano em que a penúria era uma constante.

     Quando jovem teve participação ativa no coro da igreja, onde as vozes privilegiadas tinham destaque em rezas, ladainhas e especialmente nas missas glorificadas ao som dos cânticos Gregorianos, misto de beleza etérea. Desdobrava-se agora com a família que construira. Alimentar a prole era algo que a consumia, o dinheiro era apertado para as constantes despesas.

     O marido suava semanalmente naquele serviço braçal e desgastante. Aos domingos folgava e logo a roda com amigos o esperava no boteco, ali o lazer principal resumia-se a bebericar a cachaça de alambique pura, oriunda das antigas fazendas dos senhores de engenho. Naquele ambiente o assunto corriqueiro permanecia sempre na pauta das fofocas que espalhavam-se na cidadezinha conservadora, ou  seja, o cotidiano das mulheres ousadas, valentes, dispostas a ganhar o mundo, conquistar a liberdade confinada no ambiente patriarcal opressor, limitando-as, punindo. "Santas ou pecadoras" suas vidas eram expostas a comentários intrigantes pelos espiões noturnos vagando feito zumbis em busca de assuntos picantes e comprometedores entre casais, numa curiosidade mórbida própria de mexeriqueiros. As moças visadas tornavam-se alvo preferido, e entre os muitos preconceitos pesava a exclusão do meio social do qual eram banidas.

    Por outro lado a rotina da jovem senhora não ia além da enfadonha mesmice diária, muita tarefas e obrigações para um descanso mínimo. Em certos períodos conseguia trabalho como doméstica em residência de autoridade local, sentia-se gratificada,  contribuía para o sustento da casa. No entanto, a jornada lucrativa transformou-se em  algo penoso, desgastante, sobrecarregando-a demasiado e expondo sinais visíveis do estresse como frases desconectadas fora do contexto real, embaralhando as ideias.  Passou a embalar-se na rede compulsivamente cantando uma única música sem cessar, dia e noite. Logo perceberam tratar-se de um surto psicótico, causando impacto estarrecedor à famila e amigos.

     A viagem para a capital aconteceu de forma solidária com o apoio das pessoas amigas. Seguiu acompanhada arrastando consigo a mesma triste melodia. O barco zarpou na madrugada levado pela brisa serena profetizando bons ventos. Lá fora, mar aberto, o grande oceano  mostrava-se receptivo apaziguando ondas agigantadas que dominavam a travessia inóspita, temerosa.

     Traumáticos foram os meses no hospital psiquiátrico.  Fustigada pelo choque elétrico como tratamento eficaz, porém desumano, mergulhava num submundo que a deixava estagnada, à mercê dos seus fantasmas numa vivência  surreal  tão quanto sua presença naquele lugar atípico, num  confronto cruel diante da loucura.

     No decorrer do tempo o tratamento mostrou explicitamente sua recuperação e o resgate da lucidez, ambos estampados na expressividade, que iluminava um rosto alegre em harmonia com o olhar sereno. A volta ao convívio social afirmava sua reconciliação com a vida. A paz interior havia retomado seu estado natural buscando reencontro com a família a serenidade maior que tanto almejava.