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domingo, 5 de setembro de 2010

Triângulo incomum

Ninguém entendia o triângulo amoroso que surgiu na cidade ordeira e pacata aos olhos de todos, que incrédulos, admirados e pasmos, murmuravam. Viviam sob o mesmo teto, dividiam espaço, cotidiano, prazer nessa íntima união, escancarando uma relação nada convencional para a época.

Duas mulheres no frescor da idade e um homem: caboclo rude, grosseiro, atarracado, com fama de bravo.

A casa onde viviam era modesta, espaçosa, cômodos simples, de frente para o mar onde chegava uma brisa que a refrescava, deixando-a arejada o tempo inteiro. Ali avistava-se uma paisagem familiar: barcos e canoas integrados à rotineira vida do porto, ora barulhento, outras vezes sossegado. Comentários e boatos não faltavam em torno do tão falado caso.

Certa tarde surgiram os três a passeio. Ele no meio de braços dados com as jovens exibia um caminhar empavonado, vaidoso, compenetrado, de posse e domínio da situação; sequer incomodou-se com olhares curiosos, perplexos daqueles que os viam. As moças, ao contrário, inibidas não passavam de uma semelhança só; eram o retrato fiel da submissão. Vestiam-se iguais: tecido, modelo e cor. Aquele azul turqueza estampava em seus rostos quietude e servidão. Cena patética, inusitada, que a memória guardou.

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