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domingo, 28 de maio de 2017

Um monumento



        Na simplicidade dos seus traços geométricos mantem-se mais que secular centralizada na praça principal; referência expressiva a memória da cidade. Homenagem a um certo governador do Estado originou sua construção. Ela impávida, resiste ao acúmulo dos anos em que o tempo se encarrega de produzir desgaste lento e silencioso. Gerações e gerações usufruíram das brincadeiras em torno da lendária Pirâmide. Algazarras, correrias, cantigas de roda extravasavam alegria pueril sob o esplendor da lua, reverenciando um céu deslumbrante que inebriava de intenso brilho estelar. Políticos a usavam como tribuna para inflamados discursos eleitoreiros. No fim de tarde os garotos improvisavam pelada diante da Pirâmide, espectadora fiel e permanente. Divertiam-se movidos pela irreverencia e entusiasmo no ágil manejo com a bola, driblando afoitos na ânsia do gol todo custo.

       Em noites soturnas, silenciosas propícias aos furtivos amores, casais buscavam na Pirâmide refúgio e cumplicidade. Acobertou o mais fugaz dos flertes, o mais recatado ingênuo amor, a mais tórrida paixão proibida. Declarações, confidências, pactos segredados, idílicos encontros selavam juras entre namorados.

       Porém a paz romântica muitas vezes via-se interrompida pelo foco da lanterna do bisbilhoteiro invasor à espreita de alguém em colóquio amoroso na pirâmide. Eram sempre homens movidos pela curiosidade perversa onde no alvo preferido destacava-se a mulher, com detalhe: a luz incidia diretamente sobre o rosto da moça deixando a exposta, vulnerável a maledicência da fofoca que no dia seguinte corria solta na cidadezinha. Consequentemente a jovem passava a ser mal vista no meio social pelas famílias como péssima amizade as suas pupilas.
        Uma rejeição explícita pela sociedade patriarcal fortalecendo e estimulando a discriminação que acoplada ao preconceito marginalizava, ceifava a liberdade feminina.


       A Pirâmide, esse monumento de forte significação na minha terra, não possui forma grandiosa, bela ou sequer rebuscada. Revela, porém, uma estética sóbria, harmônica, permeada pela aura enigmática de um certo fetiche que a sempre envolveu.  À distância, em meio às recordações enterneço-me ao relembrá-la.

Viagem atípica 2



     O mar escancarava uma hostilidade mais que evidente em não facilitar a navegação aos barqueiros naquele dia. Tomado pela fúria, esbravejava; ondas intensas cresciam com dimensões assustadoras desafiando tempestades, ventanias num confronto sem previsão para trégua. As rajadas de vento passavam aceleradas assoviando; instigavam a luta e avançavam de encontro ao barco a vela de madeira que, na sua fragilidade rústica, via-se ameaçado em meio a peleja dramática singrando no montanhoso aguaceiro, driblando arrecifes e assim procurava desvencilhar-se da ira destrutiva dessas indomáveis forças da natureza.

     Grudado ao leme, a figura emblemática, heroica do mestre; manejava silencioso a embarcação atento, envolto pela cautela diante do oceano convulso em contorções e desequilíbrio.  Um acúmulo de pensamentos duvidosos lhe embaralhavam a mente, porém não admitia amedrontar-se ante a coragem que o fortalecia, sobrepondo-o ao temor que ameaçava tomá-lo como refém. Vez ou outra elevava o olhar esperançoso querendo vasculhar no alto do infinito algo apaziguador, que trouxesse amenidade à tormenta. E lá nas alturas, vislumbrava um azul límpido deitado sobre o céu e o revestia por inteiro serenamente, enquanto a luminosidade solar inebriava como louvação a vida. Baixava a visão reflexivo olhando o oceano em estado de incessante embate.

     O mestre não só mostrava ser audacioso como era de fato, até porque a convivência, o conhecimento íntimo com o mar permitia ousar quando necessário fosse. Essa cumplicidade entre a navegação e barqueiro, desenvolvia de certa maneira vínculo, estreitamento diário quer seja dia, noite ou madrugada, onde o amanhecer muitas vezes surpreende os navegantes ao exibir um horizonte multicolorido, agregando pedaços coloridos, traços, rabiscos em que delineia algo abstrato, belo, indefinido diante da plenitude celestial contemplativa, gratificando como conforto a alma dos viajantes na solidão temerosa do oceano.

     A travessia hostil continuava, o mar amontoava-se em ondas impulsivas refazendo-se num processo dinâmico, louco, impulsionado pelo vento em permanente ameaça. Nenhuma paisagem amenizadora era vista aos olhos dos viajantes, somente a mesma cena repetitiva, bruta, mortal, hipnotizando. Os passageiros apegavam-se às rezas como escape amenizador perante tamanha apreensão e medo denunciado em cada olhar sofredor interrogativo. Tudo se movendo em total descompasso até se complicar mais ainda quando a vela principal da embarcação iniciou um rasgo que deflagrou risco grave iminente a todos. A tripulação ágil e no improviso conseguiu um certo equilíbrio, entretanto, não era nenhuma sustentação duradoura perante o enfrentamento que a situação oferecia. Cabia ao mestre a decisão definitiva, qual rumo seguir mediante o agravamento, que passava a comprometer a estrutura do arrojado, velho barco, sentenciado a dano maior, mas ainda assim resvalava com agilidade, quebrando. O vento persistente varou a tarde, porém foi quebrando a impulsividade passando a demonstrar discreto abrandamento, e ao conter a fúria permitiu um cenário apaziguador onde finalmente cada um pode recompor-se diante da amenidade que começava despontar substituindo as horas conturbadas, tensas, aflitas quase desesperançosas. O sol brando com seu molejo displicente, escondia para os lados dos confins deixando para trás um avermelhado que declinava suave até descorar. Longe, muito além, um rastro fugidio caracterizava o poente.

     O barco expondo a vela arriada a meio mastro resistiu às intempéries podendo assim chegar ao destino resguardado, ainda que avariado. O burburinho juntou moradores em frente aos cais onde todos salientavam unanimemente: “ o dia não estava destinado a navegar”.


     O mês era agosto; quando ele chega surpreende com a carga de ventos desestabilizadores agregados ao cotidiano. Estigmatizado pela superstição, porém respeitado e temido entre os banqueiros, torna-se de fato um mês diferenciado entre lendas e realidade.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Uma casa singular

          Naquela morada viviam três distintas senhoras carregadas de simpatia e afeto. A mais velha recebeu na juventude uma herança paterna: a profissão de ourives, nada comum às jovens do seu tempo até então disciplinadas, educadas para "prendas do lar". Um mundo essencialmente feminino dedicado à exclusividade domestica, que impunha regras de comportamento e extenso aprendizado de trabalhos manuais, requisitos indispensáveis à formação de uma dona de casa "prendada". 

      A dedicação pelo oficio lhe impulsionou a esmerar-se na criação de jóias sob encomenda tornando-se primorosa artesã, que a fez tomar para si a responsabilidade de provedora da casa. Nas horas livres voltava-se à leitura. Tudo que lhe chegava em mãos lia com avidez curiosa de aprendiz mantendo certo fascínio pelos romances construídos nos enredos e segredos engenhosos das tramas amorosas, sedutoras. Nas tardes mornas espreguiçava-se na rede num puro deleite acarinhada pela aragem soprando mansa ao seu redor. Gostava daquele vento brando que chegava quieto carregando indolência, inebriando paz liberta, envolvente de inteiro devaneio. Apegava-se também à Seleções Reader`s Digest,  revista de expressiva circulação à época e
de enorme aceitação pela elite conservadora do País, que publicava histórias anticomunistas nas quais o império norte-americano demonizava o comunismo incutindo terror e pânico nos leitores com suas matérias. Porém, no decorrer dos anos as certezas da senhora diluíram-se enveredando por dúvidas e questionamentos sobre a verdade dos fatos, mas guardando consigo resquícios do temor que os relatos e boatos do regime soviético exerceram em sua infância.  Lendas assustadoras repassadas pelos mais antigos  sugestionavam as cabecinhas infantis distanciando-as da realidade. Recordava, ainda, da oração rezada em contrito apelo que proporcionava alívio e bálsamo espiritual atenuando o medo ao finalizar: "Senhor livrai-nos do comunismo".
     
      Perante a inevitável velhice definia-se uma senhora contida nas ambições de novos desafios. Os sonhos esvaíram-se em meio a inquietantes descobertas na ávida juventude. Longe datavam os arroubos de outrora. Alinhava-se, então, atrelada numa serenidade que a nova fase ofertava. Olhar complacente, ponderada;  reflexiva para ouvir, julgar, acolher.  Na  mocidade, desejou encontrar um marido, mas a sorte não a favoreceu - emendava, disparando a gargalhada irônica, descontraída. Desistiu, fadada à condição e estigma de solteirona.

      A irmã do meio com sua espontaneidade mostrava de fato ser a mais alegre, extrovertida. Pulsava com ela uma alegria sem esbanjamento, serena, iluminando-a de cativante simpatia. Como mãe solteira carregava a difícil responsabilidade de criar o filho sozinha na ausência da figura paterna, motivo para exercer o papel maternal com desdobramento visceral emergindo das entranhas, do âmago. Amava sua cria determinada a protegê-la, defendê-la. Por outro lado, o preconceito grassava como praga nas patrulhas que vigiavam o cotidiano das mulheres tomando conta de suas vidas: oprimia, excluía, marginalizava. Mirava obsessivamente as mães solteiras, descasadas, as "moças mal faladas". Ela não era exceção, ardiam todas na fogueira permanente da língua ferina da cidadezinha.

          Cabia a irmã do meio a obrigação diária que a casa exigia, uma jornada exaustiva de trabalho frequente. Das tarefas encontrava prazer em garimpar livros, e revistas para a irmã leitora, ocupação e lazer que a desobrigava-a dos afazeres enfadonhos. Sublimou assim uma paixão secreta jamais exteriorizada, não permitindo ao coração escancarar, viver o sentimento que ameaçava arrebatá-la. Sufocou-o tomada pelo ímpeto que acreditava sensato, prudente, todavia, permeada de melancolia.  A casa das senhoras consistia numa combinação elaborada de coisas simples, despojadas. Da varanda estendia-se o peitoril escorregando em ligeira curva indo acabar na cozinha artesanal ressaltando características similares ao modelo e uso nas demais residências. O fogão, alimentado por toras de lenhas queimava durante o dia nutrindo fagulhas; permanecia aceso para o momento de ser requisitado. Enquanto isso, o tacho de cobre, entrosado às panelas de ferro e barro, gozava privilégio ante sua, prestigiosa serventia na alquimia e preparo refinado dos doces manejados ao capricho das irmãs, ao sabor do conhecimento que dispunham. A casa emanava agradável bem estar. Caminhando pela sala percebia-se um silêncio vigilante, estagnado, tomando conta daquele ambiente. Espécie de guardião rijo, ríspido, que zelava pela intocável arrumação onde móveis, objetos e tudo mais permaneciam sem desordem qualquer cativos nos lugares definidos.  Dos quartos em dias encalorados soava o ranger das escápulas: cantiga dissonante repetida de extrema  familiaridade aos ouvidos. Ali as irmãs refrescavam-se aos embalos nas redes.

     Atrelado aos fundos da morada o quintal apresentava visão paisagística espaçosa, verdejante, multiplicada no período chuvoso contínuo em que a natureza brotava, expandia diversificada abarrotando a terra fazendo renascer exuberante formosura. Árvores frutíferas sombreavam deitando extensas copas que facilitava o ir e vir da passarinhada disparando gorjeios frequentes. Dispunha ainda o quintal de um aglomerado rasteiro de flores minúsculas graciosas entapetando o chão, fazendo nascer salpicos de cores vivas, permitindo ao ciclame transluzir seu exotismo.  Outras mimosas delicadas sustentavam-se nos caules finos onde o vento ardiloso ameaçava quebrá-los. Adiante existia um espaço diferenciado servindo de abrigo e privilégio das plantas medicinais favorecendo o desenvolvimento e  distanciando-as do importuno das galinhas.  

        A terceira irmã, a mais nova, podia-se dizer uma senhora voltada a pensamentos lógicos, decisões práticas; afinal, conduzia a vida exercitando a plenitude racional estruturada no aprendizado com o qual chegara à maturidade. Era de fato polida, educada até no falar. Prezava a língua  portuguesa, expressava-se numa excelente linguagem  recheada pelo extenso e variado vocabulário. Demonstração de pureza vernacular, entretanto, sem pretensão nenhuma ao exibicionismo ou presunção qualquer. Era algo que fluía natural explanando pensamentos, guiada pela eloquente racionalidade. Buscava nas aulas particulares a pequena fonte de renda. Ali extravasava plena dedicação;  doava-se prazerosa à vocação didática ao incutir nos jovens conhecimento além do que buscavam. Porém na relação a dois pouco permitia ser conduzida ou induzida pelo arroubo apaixonado  Não era dada ao deslumbramento  amoroso e muito menos ao amor intenso, cultuado, idolatrado. Procurava distanciar-se das artimanhas ilusórias sentimentais. Preferia não alçar voos inconsequentes, mas manter os pés no chão.  Recusou-se casar não pela falta de pretendentes - já vivia aos flertes com o pensar liberto procurando desvencilhar-se das amarras e dogmas instituídos pela cultura patriarcal relegando as mulheres à condição subalterna, onde a união matrimonial se tornava espécie de convivência arbitrária de posse e poder, ou seja, com marido comandando o núcleo familiar em demonstração de autoritarismo. Gostava de enfatizar suas ideias motivada pela lucidez e convicção. Curiosamente observava o cotidiano feminino: vigiado, impregnado pelas limitações, tolhido. Via-o como clausura social impondo rígidos conceitos à mulher, subordinando-a também à exclusividade no lar. Expor opiniões contestadoras deixava-a visivelmente marcada aos olhos do preconceito, mas não era de dar ouvidos a rótulos ou depreciamentos, sobrepunha-se. Ao transgredir escancarava uma coragem que transitava entre rebeldia e liberdade.

     Acima da personalidade marcante de cada irmã predominava a cumplicidade, sedimentada  sobre o vínculo do entrelaço afetivo mantendo-as  coesas. Souberam lidar diante das escolhas e opções, mesmo que intuitivas, imbuídas com determinação perante um aparato de "valores" que cercearam, aprisionaram as mulheres gerações a fio em tempos extremamente longos, implacáveis.                                                                                                                                                                                                                         

sábado, 24 de janeiro de 2015

Redes e rendas de bilros


      O tear recostado à parede da sala era a referência de trabalho; o arrimo e sustento da sobrevivência nem sempre permanecia guarnecido pela indumentária dos fios e cores que teciam rede sob encomenda. Via-se rente à janela um banco tosco comprido; maltratado pelo uso servia de assento ao ambiente vazio e silencioso de onde observavam quem subia e descia a rua do Porto. Atentas à chegada dos passageiros, escutavam a buzina que anunciava a fartura de peixe. Com a aproximação do verão, esgueirava-se pela janela um vento maroto esbanjando travessuras que lambia o rosto da gente bafejando um ar morno e buliçoso, remexendo as palhas que cobriam o teto provocando a zoada peculiar entre as pindobas castigadas pelas chuvas, que ao sol e o calor da nova estação renovar-se-iam.

          A casa denunciava uma pobreza que consumia e resignava; paredes mal caiadas expunham o velho reboco corroído que desmanchava-se em farelos com o passar dos anos. O chão de terra batido, desnivelado e gasto cobrava reparos tanto quanto o resto da morada. Frente às necessidades elas assistiam impotentes ao estrago que as rondavam. Poucas relíquias restavam, como um oratório guardando imagens sacras para os momentos de meditação e reza diante de Santa Bárbara, que abrandava raios e trovões em noite tempestuosa. Outros pertences acomodavam com zelo e pesar nos antigos baús, recordação grata e saudosa do passado familiar. Era assim onde moravam as irmãs Anica e Bárbara. Sozinhas viviam, não tiveram filhos. Do amor e da paixão nunca as ouvi falar, tabus da época não permitidos a ouvidos infantis. Estabeleceram convivência pacífica com a vida e o destino que acreditavam respeitando seus ditérios.

          Dona Anica chamava-se Ana Silvestre. Mais velha, introspectiva, reservada e caseira pouco saía. O rosto tomado pelas rugas intensas marcado de fortes vincos roubava-lhe a expressividade dos olhos azuis. O tom grave de voz soava autoritário, mas desfazia-se ante sua fragilidade e brandura. Não  restava-lhe  traço de mocidade, envelhecera de vez.

          Dona Bárbara recebeu no batismo o nome de Bárbara Rosa. Alquebrada também pela idade apresentava expressão alegre, receptiva. De estatura miúda sobressaía, no entanto, o sorriso espontâneo. Doava-se com generosidade em todos os momentos. Num dos braços escondida em meio à flacidez da pele,  descobria-se uma tatuagem bem desenhada marcando suas iniciais, rasgo de entusiasmo eternizado na juventude. Era ela quem cuidava das obrigações da casa e ainda angariava alimento quando não dispunha de como suprir as necessidades. Vez ou outra saía para vender ovos pelas casas: dois, três, meia dúzia, ou mesmo um único ovo que firmava na mão calejada para repor com a venda o querosene da lamparina. No quintal escasseavam as poucas galinhas. Bananeiras juntadas numa torceira rala pouco davam para o gasto; a mangueira frondosa servia de boa alimentação no período sazonal abarrotando o chão de frutas  como efeito das chuvas e ventanias. No solitário pé de café minguado, quase nada  rendia.

          Prendadas, a elaboração das redes acontecia artesanalmente desde a essência da criação, ou seja, desde a tintura dos fios que iria colorir e torná-las vistosas acrescentando variações de cores fortes. Trabalho e tanto! No caldeirão, a tinta agregava-se à fervura da água que por sua vez recebia boa quantidade dos fios para o processo meticuloso do tingimento. Duas ou quanto necessário fosse repetir. E o grotesco fogão formado por tacarubas ardia entre gravetos e pedaços escassos de lenha executando sua tarefa. A secagem dos fios processava-se no quintal, ao relento, exceto no período chuvoso no qual eram alojados  na sala espaçosa: suspensos, espichados dando inúmeras voltas, improviso assemelhado às formas geométricas mais confusas. Diante do tear a criatividade das irmãs jorravam espontânea, natural. Ao tecer as redes desenvolviam combinações e misturas dos alegres tons nascendo sob o traquejo inventivo das mãos habilidosas. Caprichavam também nas rendas de bilro e labirinto, delicadas cheias de minúcia e beleza. Com o correr dos anos, forçadas pelo declínio das encomendas relegavam bilros e almofadas a um canto empoeirados. Costuravam ainda calças para alguns pescadores, costura manual trabalhosa. Sentadas no chão cercavam-se dos apetrechos: tesoura, dedais, alfinetes
, botões e agulhas enfiadas em longos fios de linha que arrastavam-se entre os panos costurando reto ou sinuosamente, unindo tecidos, prendendo com a eficiência do "ponto-atrás", puxado, repuxado. Exaustivo serviço de paciência e disciplina que dispunham-se a executar. O irrisório pagamento fazia-se muitas vezes em troca de peixe e farinha d`água.

      Nas manhãs claras eu corria àquela casa. Do céu que amanhecia varrido debandavam os nimbos, cúmulos e cirros; na placidez do azul límpido esparramava-se o sol revigorando a vida com seu fulgor. Folhas de árvores voavam em diferentes rumos e o cheiro do verão espalhava-se na poeira que levantava. Encontrava-as em frente ao tear, ou absorvidas nas baforadas dos cachimbos num estado sereno de confortante paz. O fumo de corda seduzia aromatizando os cômodos da casa. A monotonia integrava a rotina em que o tempo não apressava em chegar a lugar algum. Sentava-me acomodada envolvida pelo enternecimento e doçura que fluía do semblante das duas velhinhas. Aos poucos, emergiam lendas que narravam um mundo sombrio de assombrações recheadas de pormenores que somavam veracidade às historias nas quais não passavam os encantos lúdicos dos contos de fadas, transbordantes de magia e final feliz. Eram parte do folclore da pequena cidade com predominância do sobrenatural: almas penadas vagando às sextas-feiras em penitências altas horas da noite, arrastando suas dores, expiando culpas e pecados. Escutava paralisada até encerrarem a última narrativa. O tempo passava e lá um dia retornavam a contar os mesmos casos. Medo e prazer conviviam latentes no meu inconsciente de criança.





terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

QUE CALOR !



A alta temperatura deste verão extrapolou os limites até então registrados há décadas por aqui. A cidade parece saturada também pela ausência de chuva que não chega para aliviar a atmosfera, e o assunto não sai da pauta. A procura pelos ventiladores surpreende as vendas deixando lucro recorde para o comércio.

Ao amanhecer o sol já escancara o fulgor de seus raios; do trono majestoso expande sua beleza incandescente e tórrida chegando ao ápice do calor abrasador.

Nada mais natural eu ser adepta do verão, oriunda que sou da terra do sol cercada de mares e vento assoviando nos coqueirais, mas reconheço que a estação anda abusando no excesso das temperaturas de dígitos elevados provocando desconforto. Surpreendo-me também a reclamar, engrossando o coro dos encalorados, pedindo trégua para  que o verão deixe por menos.

Não chove, não venta, nada refresca senão o vento artificial que gira, roda, soprando do incansável ventilador. Porém, optar entre o inverno tedioso e sombrio, carregado de massa polar e este inconsequente clima, sem vacilar entrego-me calorosamente a ele, o calor do verão.



quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Ano Novo

       

             O Ano Novo rompe esfuziante entre comemorações, músicas e cascatas de fogos flutuando, deslizando no céu com  leveza mística inspirando votos de paz e amor fraterno sobre a humanidade. 

             O nascer do Ano Novo projeta  sonhos, renova expectativas, fortalece o otimismo e a  esperança desponta animadora tomando a dianteira como estrela guia das nossas vidas. A alma e o corpo, ambos em ebulição e efervescência revigoram-se envolvidos pela aura e clima do simbolismo que domina essa festa de tamanho significado na face da Terra .

               Seja verdadeiramente  de paz  e esperançoso o Ano Novo que já iniciou; que seja partilhado de solidariedade e justiça social.

               Um Ano Novo feliz a todos ! Saúde, vida próspera !

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O madrugador

 
O Sabiá-laranjeira é o arauto da primavera. Reaparece polivalente e feliz como prenúncio da estação florida, espalhando sua cantoria pela cidade. Dispara ainda na madrugada: pontual no horário, afiado na melodia vai quebrando o silencioso alvorecer e cativa meus ouvidos.

  Canta estufado de regozijo, apaixonado, desejoso para cortejar a bem amada; ou num desafio valente rivaliza com o adversário pelo domínio de território. Para o amor ou para a luta convence na condição de exímio cantador. Nos dias de pleno gozo, desvela-se à exaustão. Canto que não deixa  de ser também acalanto.

         Acham alguns o Sabiá-laranjeira madrugador inoportuno, que com seus intensos e inconvenientes gorgeios estorva o sossego daqueles que desejam ainda prolongar-se no sono. Francamente,  quanto agrada-me ouvi-lo! Sonoridade melódica vibrando bons fluidos, saudação... algo bom iniciando-se no amanhecer.