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domingo, 5 de setembro de 2010

Sem rumo

Vagava como sentenciada a Deus dará pelos caminhos do vilarejo. Os pés enfiados na areia cumpria uma via crucis de andarilha sem rumo, insana, catatônica, alheia ao próprio fado perambulava. O vento acompanhava aqueles passos largos, ligeiros andando à toa mundo afora. Mal o dia surgia ela seguia procurando o nada, buscando o vazio, o indefinido; assim doida, maluca, perdida em outra dimensão do tempo, penava. O rosto marcado por traços pesados demonstrava expressão dura, ausente de qualquer alegria: não falava, sequer sorria; chorar muito menos. Dois olhos imensos arregalados carregam espanto, medo, assustando numa interrogação indecifrada. Sorrateiramente escondia-se entre coqueiros, espreitando, vigiando, como se fugisse do algoz.

E o vento soprava, sibilava do mar, da praia, do vilarejo e manguezal. Ventava ainda em seu cabelo desgrenhado querendo arrancá-lo, fazê-lo voar, sumir, se perder em pequenos minúsculos pedacinhos. Ventava também no vestido de chita velho, amassado balançando no corpo magro, comprido, espichado, sustentado pelas canelas secas encardidas que o sol castigava nas andanças do dia.

Vivia assim consumida, não tinha descanso, nem pausa, nem trégua. Girava sem norte num imaginário obscuro, território intransponível que só ela comandava. Ali era dona, guerreava doidamente contra fantasmas. Envelheceu nessa contenda que lhe levou força, luta e vida. Sucumbiu vencida.

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