Dona Estrina virava bicho em forma de porca. Esse folclore era contado por pessoas narrando em detalhes, dando ênfase cheios de seriedade e medo.
Uma inofensiva velhinha pequenina, de expressão sisuda, macambúzia, que ao mesmo tempo lembrava bruxa dos contos mágicos de carochinha. Andava apoiada com um bastão que lhe assegurava caminhar mais firme na companhia de seus cachorros que tanto estimava. As roupas que usava, mal cortadas, mal feitas de chita ordinária, se estendiam até os pés em total humildade. Um dos lados do rosto chamava atenção para um detalhe nada comum, um calombo grande se destacava formando saliente bola, algo estranho que ninguém sabia explicar.
Tinha um olhar mesclado de piedade, sofrimento, e sua vida resguardava em silencio cercada de penúria extrema, dependendo da esmola dos mais aquinhoados para a sobrevivência. Na palhoça onde vivia, apenas a rede e um velho mocho acomodado na minúscula cozinha, onde geralmente sentava-se para as baforadas no cachimbo, olhando calada as tacurubas espremidas entre a minguada lenha e a fumaça que se estendia procurando fenecer longe daquela tristeza.
Era benzedeira e minha infância esteve sob a proteção de suas rezas; benzimentos com galhos de arruda e palavras balbuciadas quase incompreensíveis, afastando para longe o quebranto, o mau olhado. Certo dia, deu-me um tajá que deveria cuidá-lo e não permitir que retirassem alguma muda. Espécie de amuleto que não entendia o significado, não compreendia a simbologia de tudo aquilo.
Uma vez em poucas palavras resumiu o sumiço do filho, o qual procurava não falar: - foi devorado por onça nas matas do Pará. Dor e amargura que o coração guardava e não gostava de remexer. Trágica, sinistra história que não recontou.
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