O bonde Estrada de Ferro circulava por ali e aos domingos, num trajeto monótono seguia quase parando levando poucas pessoas como se vagassem sem destino naquele passeio de lentidão que se arrastava pela cidade. A rua Portugal no centro histórico fazia parte do itinerário. Silenciosa nesse dia da semana, descansava da agitação onde o comércio de atacado e varejo movimentava suas vendas nos armazéns de ferragens, secos e molhados, lojas de tecidos e outras miudezas espalhadas por ruas estreitas, vielas que iam finalizar no cais. O beco de Catarina Mina em pleno abandono sobressaía-se com a famosa escadaria de pedra de lioz, registro soberbo, porém falido, da imponência do passado. Também naquele beco, no pé da escadaria bem no finalzinho, em um antigo sobradão de corredor sombrio, instalava-se o pensionato de dona Janoca. Estava então a um passo da rua Portugal, onde chegávamos num pulo munidas com uma bola de vôlei e muita disposição, improvisando brincadeiras naquela algazarra, só então dispersada pelo barulho vagaroso do bonde naquele estirão de trilhos estendidos sobre paralelepípedos. O motorneiro em pé guiava sereno, compenetrado no seu posto, vestido com um traje cáqui cheio de botões pretos e outros acessórios. O quepe formava um detalhe indispensável dando respeitável visual ao dono.
O Estrada de Ferro tinha um modelo diferente dos bondes que circulavam em São Luis no Maranhão. Todo fechado, deixava à mostra somente o rosto dos passageiros com ar de espectadores indiferentes àquele cenário de sobradões, casarões, fachadas de azulejos, sacadas de ferro e mármore, perpetuando histórias de antepassados em uma existência quase sem vida; paradoxo de beleza e decadência arruinado pelo descaso. Depois que o bonde passava retomávamos as peripécias com a bola: piadinhas, gracinhas, nada sério, pura descontração de adolescentes.
Num desses sobradões da rua Portugal, próximo aos cais, funcionava uma pensão para rapazes meio espelunca, e no alto de uma das janelas sentava-se compenetrado um tímido estudante pacientemente apreciando nosso entusiasmo. Talvez fosse assim à distância sua forma de exteriorizar algo além de um simples flerte. Em alguns bailes lá em Guimarães dançavamos à noite inteira, porém o inibido, acanhado jovem não conversava nem manifestava o sentimento que eu vislumbrava em seu olhar. Esforçava-se para dançar o melhor possível, mas era desastroso nos passos, um péssimo dançarino para conduzir o par e atinar no ritmo; resultado, pisava todo meu pé. Prometia a mim mesma que quando o encontrasse em alguma festa procuraria desvencilhar-me dando-lhe um belo perdido. Mas qual nada, aquele jeito desprotegido me sensibilizava e atraia. Com as amigas divertia-me dessa excessiva inibição que devia ser um tormento em sua vida.
cri cri
ResponderExcluir