Era grandalhão na altura corpo e pés. Italiano típico, extrovertido, comunicativo, às vezes brabo esbravejando num italianíssimo “porca miséria”.
Trouxe praticidade e experiência. Dinâmico, inteligente, culto, bonito. Chegou em Guimarães para ser vigário no início dos anos cinqüenta. Carregando preciosa bagagem cultural acordou a cidade do marasmo em que se encontrava. Falava um português arrastado que dominou em pouco tempo de forma fluente. Misturou-se com o povo, criou diversão, trabalho e atividades também para o povo; a paróquia festejava seus santos.
Padre Luiz Zecchinato: carisma e determinação. Renovou, inovou. Com incansável dedicação preparou o alicerce, a base fundamental para a formação de uma nova juventude em Guimarães. A educação tomou impulso e organização com a “Escola Paroquial São José” fundada por ele. O ensino saiu do estado letárgico em que se encontrava, reergueu-se um presente para criança e jovens. Guimarães passou a viver uma outra realidade positiva onde o futuro deixava de ser vago, indefinido. Foi sem dúvida esse visionário o precursor da transformação benéfica, saudável, tão vital que revolucionou o ensino, a vida cultural, social em Guimarães. Organizou com alunos mutirão para estalar pindoba e assim colocou em prática a cobertura do espaço que transformou no “Teatro Guarapiranga”: rústico, popular, gratificante.
Conseguiu um projetor de filmes e o neo-realismo italiano esteve presente com um dos clássicos “Arroz Amargo”. Os alunos da escola paroquial cumpriam fielmente as obrigações com a igreja e eu fazia parte desses alunos. Aos sábados à tarde diante do confessionário expurgávamos os supostos pecados, redimindo-nos das possíveis culpas. Nos domingos pela manhã, em jejum, comungávamos na missa cheia de jovens ansiosos para receber o cartão que dava direito à entrada de cinema à noite. A minha alegria passou também a alimentar-se da expectativa desses domingos que proporcionavam o prazer de assistir na tela maravilhas de um mundo distante, projetando uma visão de fascínio e descobertas que se tornavam muito próximas através dessa arte. Bendito cinema que era pura magia, mas o projetor indo para o conserto perdeu-se num trágico naufrágio de barco.
Quando escutei Pavarotti cantando grandes canções italianas a emoção foi profunda, nostálgica. Vi presente de corpo e alma Padre Luiz, resgatei da memória belas versões feitas por ele para memorável pastoral: encenação teatral do nascimento de Jesus onde participávamos com entusiasmo e cada Dezembro renascia em nós, integrantes desse teatro, sonho, vaidade, talento - num curto tempo de expectativa - realização; e a fama do pastoral corria de boca em boca a outras cidades. Nas inúmeras peças que dirigiu em muitas ocasiões se tornava polivalente diversificando-se como autor, diretor, cenógrafo e ainda era o ponto, isto é, estrategicamente o orientador de diálogos e cenas.
A festa de São José era o ponto alto das comemorações religiosas na paróquia. Com empenho dos paroquianos que procuravam dar o melhor de si os festejos do padroeiro se tornavam a maior atração, sem faltar a grande concorrência para eleger a rainha. A noite dos artífices então, sempre esperada pela criançada. Seu Ozias, marceneiro exímio, surpreendia com os coloridos balões que encantavam o céu. Espichava o olhar para não perdê-los de vista, inútil, sumiam e a imaginação também voava com eles. Uma das procissões marítimas foi documentada em filmagem, até então novidade que a cidade assistiu com surpresa e admiração.
O auto-falante iniciava às seis da tarde com Ave Maria de Schubert ou de Gounod e o vigário transmitia sua mensagem; depois seguiam-se músicas de todos estilos e ritmos na “Voz Guarapiranga”, mais um dos seus feitos.
Numa madrugada montado a cavalo um grupo de pessoas, todas tristes, levaram Padre Luiz até o início da estrada, seguia para outra missão. O dever do sacerdócio o requisitava.
Esporadicamente visitava Guimarães, veloz, como sempre foi. Um dia regressou à Itália, dessa vez definitivamente. Deu continuidade ao trabalho de missionário lá. Precisamente em 1994 já gravemente doente não resiste.
A terra mãe guarda-o, abraça-o no seu sono eterno.
Nenhum comentário:
Postar um comentário