Não levava desaforo para casa. Ninguém que pisasse em seu calo, ou melhor, a hostilizasse chamando-a pelo desagradável apelido achando que dessa vez não xingaria estava completamente enganado, porque em revide da sua boca jorrava uma cascata de palavrões dos mais inusitados possíveis. Vivia motivada pela bebida e na rua tinha sempre algum engraçadinho com piada de mau gosto tirando-a do sério. Era o estopim, contra-atacava na hora disposta a brigar.
Batizada como Raimunda - mas quem lá em Guimarães assim a conhecia senão por Caco de Grude? Poucas pessoas. Maltratada pela pobreza tinha uma vida dura, entretanto não se entregava. Se fosse necessário trabalhava de sol a sol. Pegava caranguejo no mangue como uma forma de subsistência, porém não precisava de companhia para embrenhar-se no manguezal e trazê-los em pequenas ou grandes quantidades; tudo dependendo da época que vinham à superfície, ou seja, no tempo do acasalamento em que surgiam aos montes e todo mundo aproveitava enchendo cofos de caranguejos. No entanto durava pouco, logo voltavam ao esconderijo e para encontrá-los só enfiando mão e braço em buracos enlamaçados, retirando-os com prática e coragem, experiência que Caco possuía de sobra desbancando qualquer medroso. Tinha um detalhe: em determinadas ocasiões, sozinha no manguezal, ficava sem a roupa do corpo para não sujar de lama, e assim totalmente à vontade iniciava o trabalho. Nada a despersuadia dessa rotina, nem a solidão carregada de silêncio que se apossava do mangue no final da tarde e muito menos histórias mal assombradas que rondavam o porto de Guarapiranga.
Mas também teve dias melhores quando viajou ao Rio de Janeiro por conta de um parente que mandou buscá-la. Sumiu de cena em Guimarães e, como notícia em cidade pequena corre solta, soube-se logo da sua estadia na bela metrópole. Aquele mundão de meus Deus estampando todo tipo de novidade a seus olhos. Ela, vindo de uma cidadezinha feita de hábitos e costumes inversos aos que via a sua frente: aglomerados de prédios apinhados de gente, longas avenidas, ruas, carros, letreiros, luzes, cores; movimentação de toda espécie, situações diversas... Difícil entender um mundo camuflado de conveniências, mistério, sedução. Faca de dois gumes servindo tanto para o bem como para o mal. Não se enquadrava naquela confusão que fazia ferver sua cabeça de curiosidade. Não atinava com aquela realidade e a uma vivência tão diversa da sua. Enchia os olhos mas não o coração. Aliás, sequer lhe atraía vida urbana, asfalto, sonho de consumo - linguagem que não estava interessada em entender. Depois de um tempo nessa experiência deixou o Rio de janeiro e foi juntar-se às irmãs que ainda tinha em Guimarães.
Retornou à boa terra de aparência nova: comedida, discreta, vestida sem as roupas desajeitadas de antes, sandália nos pés, causando admiração. Nessa fase pós Rio de Janeiro em que se encontrava aconteceu uma passagem engraçada: andando pela rua de visual novo surge um espírito de porco tentando desestabilizá-la, mas preparado para ouvir o pior. No entanto estava enganado o rapaz, porque Caco com toda a classe não desceu do salto, não revidou da forma esperada por ele e muito menos perdeu a calma. Deu resposta sim, à altura, num vocabulário inesperado, surpreendente: ”quem és tu para querer manchar o meu nome?” Logo virou piada e gozação espalhando-se em Guimarães.
Infelizmente, o equilíbrio que tentava manter sabe Deus, através de desdobrado esforço, não foi suficiente para sustentá-la, precisava de apoio que a fortalecesse, a fizesse segurar a onda nessa calmaria benéfica de sobriedade e reflexão. E não deu outra: desmoronou, desmontou-se e a Caco de Grude escrachada ressurgiu trazendo à tona o que tentou aprisionar e não conseguiu. Logo vieram avacalhação da molecada, até então em tempo de trégua. No entanto, alguns desses que a achincalhavam iam também em sua busca; cheios de virilidade a procuravam às escondidas receosos de serem vistos e caírem na boca do povo.
Não sei o fim que teve dona Raimunda, sei da sua valentia muito grande para encarar preconceito, zombaria, xingamento, embora desconhecesse a coragem que existia dentro de si. Não tinha consciência do quanto caro pagavam as mulheres que seguiam na contramão do moralismo, transgredindo “valores”, regras. Conceitos criados por uma sociedade revestida de puritanismo, cheia de tabus, discriminações onde as mulheres eram duramente penalizadas, recaindo sobre elas uma punição perversa: a exclusão e opressão.
Que crônica deliciosa! Mesclada de momentos divertidos e pitorescos,trazendo à tona aspectos culturais e grande sensibilidade ao descrever a história de mulheres incríveis e anônimas como "Caco de Grude".
ResponderExcluirParabéns, Cida Nunes!
Lana Branco.