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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O candeeiro

O homem montado a cavalo aproximou-se da casa e num gesto desesperado passou a vigiá-la, confiando que ali se escondia a esposa que havia fugido na noite anterior. Estranhamente paramentado estilava suor pela cara inteira: pingava, gotejava, sob um sol a pino ardendo, queimando como fagulha naquele verão causticante, atípico. Usava um traje que induzia semelhança e cópia de cangaceiro: cruzado de cinturão de couro, trespassado de faca, punhal, revólver, espingarda, e uma reserva de munição espantosa, provocando situação de pânico com o aparato assustador.

Acusava compulsivamente, desacreditando a dona da casa, forjando versões, criando inverdades. Não passava de uma figura espalhafatosa apregoando proezas e disparates de fanfarrão. Cercado por curiosos cuspia ódio, jurava vingança. Berrava o tresloucado homem que não arredaria do local sem arrastar a esposa consigo. Viajou quilômetros no lombo do cavalo cansado que suportava aquele corpo pesado, estufado de banha, decidido a não apear do animal. Esperneou bastante defronte o suposto esconderijo, bradou o que pôde. Uma espera inútil.

A fuga da mulher foi antes de tudo heróica. Partiu num entardecer sombrio em que a fazenda silenciava recolhendo-se ao repouso noturno. Um velho serviu-a de guia levando o candeeiro, antigo aliado, um tanto precário mas ainda capaz de alumiar o caminho. Os primeiros clarões do alvorecer apaziguaram o medo que acompanhou a jovem senhora noite adentro, varando matas, enveredando por trilhas estranhas e passagens íngremes, tortuosas, embrenhando-se no intenso e desesperado peregrinar.

A aragem matinal trouxe afago e alívio para seu corpo esbodegado. Afinal, pisava em solo distante, acolhida pela nova realidade sem jugo, sem posse. Assim dava cabo aos anos de submissão no claustro do casarão solitário. Rompia com as regras do dominador, resgatava sua identidade e autonomia. Reformulava na lucidez do momento a vida futura convicta de que jamais retrocederia ao mundo do qual escapou.

Seu pensamento corria no tempo exíguo que dispunha perante os fatos. Não podia se deter em devaneios e suposições. Teorias ficaram para trás. A racionalidade apontava os caminhos ainda a seguir, outras paragens a encontrar, conferir outra dimensão a seu destino. Definitivamente a liberdade havia chegado.

O velho e o candeeiro regressaram ao ponto de partida. O segredo ficou guardado no absoluto e eterno silêncio.











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