Hotwords

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Um trabalhador digno


De tempos em tempos ele surpreendia chegando das praias de algum vilarejo distante, muito além, carregando consigo uma ingrata e pesada carga: a deficiência física que tolhia a maior parte dos membros superior e inferior. Um dos braços havia perdido o movimento mantendo-se paralisado, vergado próximo ao tórax  junto à cintura. Apenas o outro conservava a coordenação, era o braço do trabalho. Com ele capinava a praça Luiz Domingues inteira. Devagar aos poucos concluía o serviço, então pago pela prefeitura que o contratava.

Bento era o seu nome. Conversar com as pessoas dependia de um certo esforço para expressar o que desejava falar numa linguagem um tanto embaraçosa. Com o andar trôpego arrastava pernas e pés, como se fosse um imenso peso naquela vida inquieta, instável, penosa sem queixas ou resmungos. Minha mãe o acolhia hospedando-o conosco num quarto menor que ele ocupava. Da sua vida pessoal sabíamos muito pouco, apenas o cotidiano básico da convivência. Não fazia referência a qualquer parente ou família, um solitário sem residência fixa em lugar nenhum.

Permanecia longas temporadas em Guimarães, gostava desse ir e vir  De repente sumia, a rota já sabíamos, sempre as praias distantes, mas necessitava de alguém que tivesse disponibilidade para transportá-lo. Cultivava sua independência com o suor do trabalho embora com limitações, mas conseguia. Isso o fortalecia psicologicamente. Seu refúgio era uma bela, discreta e sossegada praia estendida quilômetros a perder de vista. O mar intenso em dias favoráveis presenteava o pescador com bons camarões que arrastava ali mesmo na praia, sem grande esforço. Os moradores todos se conheciam e logo Bento passou a ser também parte integrante do vilarejo.

Em uma dessas vindas e idas decidiu estender o tempo de permanência, as notícias esporádicas de tão escassas, silenciaram.

sábado, 19 de dezembro de 2020

João bonito

      Vivia uma rotina de trabalhador responsável no estressante serviço pesado nada fácil, mas era o seu ganha-pão a sobrevivência. O bom humor o acompanhava nas tarefas que o  requisitava em Guimarães.

     João bonito, irônico apelido que atendia sem aborrecimento ou queixa. Feio demais: os traços rústicos, o jeito desengonçado, aquele andar pesado meio vergado onde muitas vezes sem camisa deixava à mostra os incontáveis calombos que se multiplicavam aceleradamente no corpo; e eram tantos, variando em tamanho concentrados em quantidade maior no tórax. Morava com a mãe em uma casa de total humildade, era uma senhora dedicada ao filho contribuindo também para o sustento dos dois.

       O  trabalho principal de João bonito iniciava cedo levando água para famílias abastadas no comércio informal, ao qual outros jovens também recorriam contribuindo para a pequena renda familiar; época em que a água encanada não passava de um sonho na cidadezinha. O transporte seguia através de jumentos com duas ancoretas, que abasteciam nos poços exclusivos para água de beber. As lavadeiras usavam da mesma prática, porém com latas cheias d'água na cabeça; uma labuta, jornada dupla cansativa, desgastante.

      A criançada quando avistava João bonito divertia-se gritando seu nome, ele, no entanto, fingia não ouvir, mas num determinado momento batia o pé no chão com força tamanha  assustando-as que logo disparavam a correr tomando rumo de casa; João bonito simplesmente  se divertia  do medo que despertava na garotada. Além de entregador de água tinha certa habilidade em matar porco, contratavam-no com frequência para tal serviço. Lembro na casa da minha tia: eram dois caldeirões grandes no quintal e, ele, João bonito, responsável pela tarefa. Iniciava cedo, lá pelas tantas  sol já alto a pino exalava o cheiro gostoso do sarrabulho apurando aquele tempero bom, típico da terra. Adiante o torresmo pipocando no velho caldeirão e a criançada indócil na expectativa para comer.

       Ele caprichava no trabalho com boa vontade e conhecimento. Sua vida transcorria nessa rotina paupérrima sem esperança para alimentar algum sonho maior. Mas os calombos intensificavam-se,  que demonstrava  algo grave necessitando de diagnóstico preciso. A solidariedade que o cercou  tornou-se importante para que chegasse a São Luís, onde o tratamento cirúrgico aconteceu. Retornou a Guimarães com a saúde equilibrada, contudo no decorrer do tempo o desenvolvimento da doença manifestou-se, tirando-o do convívio de todos.

     João Bonito partiu com a humildade que viveu.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Uma mulher de luta

       Possuía um senso de liberdade que para os padrões conservadores da época era visto com olhos de censura e desdém. Corajosa, trabalhadora e tanta! Como provedora da casa, chefe de família junto com os filhos, batalhava numa rotina de trabalho informal de pouco lucro com um carro de boi que pertencia à família. Outras vezes na condição de cozinheira esforçava-se no fogão das senhoras abastadas recebendo salário mensal,  podendo assim contar para os gastos frequentes.

          Mas sua vida não se resumia somente a labuta, divertia-se também nas festas tanto religiosas como carnavalescas, principalmente. Com a maturidade adquiriu  sabedoria na prática da vida dura driblando os momento difíceis, deixando-se contagiar pelas coisas alegres. Uma senhora com personalidade que sabia impor respeito até nos momentos descontraídos nos quais não permitia muitas vezes a espontaneidade ir além do limite.

            Enfeitava-se  prazerosa para as festas com brincos, colares,  pulseiras e o batom carmim, aquele vermelho atraente indispensável que gostava de usar nas procissões e momentos especiais. O vestido simples de tecido barato caía até o joelho deixando as pernas longas bem torneadas à mostra, destacando ainda a sua boa estatura. Nos bailes demonstrava a certa preferência pelos moços jovens e quando encontrava um par agradável então, a noite era toda sua. Em uma dessas festas carnavalescas entrou no salão um rapaz jovem conhecido pela grande afinidade com a dança,  familiarizado com os rítmos, aliás, exímio dançador. Foi o suficiente para os dois juntarem-se ao entusiasmo da festa. Dançaram bastante, rodopiaram pelo salão à vontade, porém em determinada hora o jovem querendo sumir, desvencilhar-se,  simulou  uma desculpa para a senhora convencendo-a  ao lhe falar: "vou fazer xixi"... Logo às pressas  sumiu. Uma espera prolongada ansiosa, criando expectativa e ainda desconfiança.

         No entanto  ela não deixou por menos, saiu a procurá-lo e ao chegar no outro salão o encontrou bem à vontade num descontraído bate-papo em boa companhia feminina. Sem pensar duas vezes, aproximou-se do rapaz o encarou com voz firme, semblante sisudo e logo disparou a pergunta: "agora que tu cabou de mijar?!"  Surpreendido com tal atitude que não esperava gaguejou, tentou escapar,  mas foi impedido,  de imediato conduzido ao salão principal onde ambos retornaram à  dança num poutporri de marchinhas estendendo-se noite afora naquele entusiasmo frenético entre lança-perfume,  serpentina entrelaçando casais num êxtase de felicidade.

          O baile varou madrugada, somente estancou a euforia dos dançantes com os acordes da orquestra ao som do tradicional Zé Pereira. Acalmaram-se os ânimos festivos, os instrumentos musicais emudeceram, o salão silenciou.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Minha origem

       Sou cabocla litorânea das bandas do grande mar bravo, enfurecedor, povoado pelos arrecifes cercados de mistérios, lendas e temores. Submersos ou expostos pontiagudos feito lanças afiadas vê-se ali um iminente perigo à espreita do invasor. Intimidam naquele território intransponível capaz de provocar tragédia devastadora a qualquer incauto navegante. Um mar que vomita ondas intensas e grandes quando instigado pelo vento sendo capaz de levar a pique a embarcação que navegar em dia não aconselhável. Mas também é possível encontra-lo pacífico em plena calmaria deixando-se escorregar indolente entre espumas sobre areia, cativo, submisso, marolando ao deleite da envolvente aragem.

       Sou de lá, onde a natureza ainda resguarda belas praias alongando-se em contornos e relevos sinuosos, soberbos buscando esconderem-se não sei onde em algum lugar sumido na paz de um infinito desconhecido.

       Na minha terra, os manguezais imperam vigorosos onde formam poderoso dominio. Desenvolvem, triplicam entre emaranhados de crustáceos, areia e lama, podendo incorporar aos seus redutos praias inteiras deixando para trás apenas recordações de outrora no imaginário nostálgico daqueles que as conheceram. Em seus galhos resistentes, viçosos, aglomeram-se os atraentes guarás, ali fazem morada na vastidão e silêncio de um mundo quase impenetrável. Pela manhã debandam em vôos serenos desbravando outros horizontes para no final do dia retornarem ao pouso noturno. Chegam num bater de asas lento expandindo uma beleza que tinge com exuberante vermelho a paisagem entardecendo mística e também solitária.

      A maré no processo geológico se esvai, distancia-se longe deixando para trás uma imagem fotográfica que inspira placidez poética, sonhadora entre canoas e barcos estagnados, resignados à merce da longa espera onde o sopro da brisa marinha como um alento atenua com leveza e prazer.

       Essa variação da maré entre o ir, vir, ou seja, vazante e enchente tem uma duração que prolonga-se horas. No seu retorno chega murmurando mansa, caudalosa ou intensa, impulsiva, ágil ou tão somente fúria.

       Amo minha terra, Guimarães, Maranhão.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Lembranças



          O silêncio noturno calava a cidadezinha possuída pela envolvente paz hipnótica em que a vida mergulhava num mundo fantasioso. Ali moviam-se lendas, mistérios, sortilégios confabulando no soturno, impregnado pelo sobrenatural habitando o imaginário das pessoas.

     Ao anoitecer, janelas e portas fechavam-se dando vez à luz das lamparinas e candeeiros exercerem a precária função de iluminar o ambiente das casas, casebres e humildes palhoças.  Uma rotina monótona na qual a luz elétrica ainda não integrava o cotidiano daquela gente predominantemente acolhedora, sempre disposta a receber o forasteiro com a alma carregada de bons sentimentos.

          Recolhiam-se com o escurecer. Alguns notívagos, curiosos, vagavam pelas ruas mudas e becos solitários buscando algo que pudesse render uma história surpreendente ou mesmo impactante, principalmente um casal em colóquio amoroso trocando carícias envolvidas pelo êxtase da paixão  naquele escuro silencioso, cúmplice que favorecia e os acobertavam do moralismo patriarcal opressor. Porém, quando flagrados, tornavam-se vítimas das línguas ferinas que não os poupavam. O boato espalhava-se entre cochichos e disse-me-disse causando enorme estrago, exclusivo para o lado feminino.

          Cães perambulavam soltos pelas ruas e logo assumiam o posto de vigias da noite; guardiões libertos dormindo ao relento, atentos ao rumor que só eles captavam atacando com latidos exagerados como se estivessem prestes a um gigantesco enfrentamento naquele mundo pequeno, mas acolhedor, onde chegava  a madrugada mansa cumprindo seu percurso vagaroso enquanto a brisa farfalhava.

          O vento nas folhagens das árvores, ora leve, ora intenso caracterizava de certa forma o dia como bom ou péssimo para a viagem marítima. Eram os barcos o transporte, o elo de ligação entre a cidadezinha e a capital.

          Cada viagem tornava-se uma saga, um desafio, um ato de bravura do mestre e seus tripulantes. Homens simples, valentes, habilidosos, responsáveis, pacíficos. Sábios conhecedores daquele mar intenso, revolto, encrespado, criando ondas gigantes num oceano minado de arrecifes  e bancos de areias encobertos feito armadilhas à espreita do incauto navegante. Uma travessia lendária com seus mistérios e superstições em que várias embarcações tiveram desfecho trágico, incontáveis vidas o impiedoso mar tragou. Esses barcos rusticamente construídos de madeira não possuíam motor ou conforto qualquer. Conduzidos pelo mestre através do leme, mas quando fustigados pelo vento em alto mar adquiriam grandeza com suas velas coloridas desafiando um intenso oceano contorcendo-se em fúria devoradora ameaçando levá-los a desfecho trágico.

          Os mestres  eram responsáveis em conduzir as embarcações e dispunham de  um senso de responsabilidade aguçado, atentos a imprevistos e perigos que eventualmente surgiam, afinal, lidavam quase diariamente com aquele mar traiçoeiro agigantado de bruscas mudanças e variações do tempo. Quando o vento debandava deixava no rastro a inesperada calmaria, um transtorno desalentador diante da expectativa ansiosa agarrada a uma esperança sofrida com o barco navegando penosamente, prolongando as horas até alcançar o destino certo. E ao ancorar no porto o semblante de todos refletia serenidade e um alivio reconfortante, alentador.






Reflexões

     A primavera com sua bagagem florida encontra-se instalada para os lados de cá compondo paisagens vibrantes em dias ensolarados, permitindo à vida um estado de plenitude inspiradora poética.
   
     As chuvas fazem parte da caravana primaveril, no entanto chegam às vezes minguadas, em outros momentos encharcando fartamente a terra desejosa de água onde possa fortalecer tão logo a vegetação deixando-a viçosa, colorida pelos alegres exuberantes tons que a natureza generosamente oferta.
   
     O canto apaixonante dos sabiás esvaíram-se, menos esfusiantes apenas serenos passeiam silenciosos entregues ao desvelo dos ninhos onde em breve estarão a dedicar-se ao enternecimento dos filhotes que futuramente serão também trov adores nas conquistas de suas amadas.
   
     Outubro apresentou-se para o comando, porém, sinto rapidez nos dias como se apressados estivéssemos acelerando o tempo, não permitindo reflexões ou resmungos para  nostálgicas recordações que inevitavelmente surpreendem a própria memória. Penso reflexiva com lucidez aguçada perante a velhice pela qual vejo-me tomada deixando no corpo presença marcante, inevitável, permanente. Quieto-me, talvez pelo temor ou respeito ou sabedoria que o decorrer dos anos o tempo mestre dos mestres ensina com sua didática austera, ríspida, inclemente.
2018

Uma guerreira

     As manhãs nasciam esperançosas para ela, apesar da labuta árdua onde o alvorecer a encontrava na cozinha preparando a parca marmita que o marido levava para o trabalho. Semanalmente era assim, diante do precário fogão a lenha sem infraestrutura qualquer deixava-se devanear em momentos sonhadores, soltando a voz afinada permitindo à canção fluir harmoniosa, alegre, bonita. Outras vezes surgia um canto nostálgico, arrastando-se numa melodia saudosista logo dispersada pela gargalhada espontânea, irreverente e  assim a vida se mostrava mas leve perante aquele cotidiano em que a penúria era uma constante.

     Quando jovem teve participação ativa no coro da igreja, onde as vozes privilegiadas tinham destaque em rezas, ladainhas e especialmente nas missas glorificadas ao som dos cânticos Gregorianos, misto de beleza etérea. Desdobrava-se agora com a família que construira. Alimentar a prole era algo que a consumia, o dinheiro era apertado para as constantes despesas.

     O marido suava semanalmente naquele serviço braçal e desgastante. Aos domingos folgava e logo a roda com amigos o esperava no boteco, ali o lazer principal resumia-se a bebericar a cachaça de alambique pura, oriunda das antigas fazendas dos senhores de engenho. Naquele ambiente o assunto corriqueiro permanecia sempre na pauta das fofocas que espalhavam-se na cidadezinha conservadora, ou  seja, o cotidiano das mulheres ousadas, valentes, dispostas a ganhar o mundo, conquistar a liberdade confinada no ambiente patriarcal opressor, limitando-as, punindo. "Santas ou pecadoras" suas vidas eram expostas a comentários intrigantes pelos espiões noturnos vagando feito zumbis em busca de assuntos picantes e comprometedores entre casais, numa curiosidade mórbida própria de mexeriqueiros. As moças visadas tornavam-se alvo preferido, e entre os muitos preconceitos pesava a exclusão do meio social do qual eram banidas.

    Por outro lado a rotina da jovem senhora não ia além da enfadonha mesmice diária, muita tarefas e obrigações para um descanso mínimo. Em certos períodos conseguia trabalho como doméstica em residência de autoridade local, sentia-se gratificada,  contribuía para o sustento da casa. No entanto, a jornada lucrativa transformou-se em  algo penoso, desgastante, sobrecarregando-a demasiado e expondo sinais visíveis do estresse como frases desconectadas fora do contexto real, embaralhando as ideias.  Passou a embalar-se na rede compulsivamente cantando uma única música sem cessar, dia e noite. Logo perceberam tratar-se de um surto psicótico, causando impacto estarrecedor à famila e amigos.

     A viagem para a capital aconteceu de forma solidária com o apoio das pessoas amigas. Seguiu acompanhada arrastando consigo a mesma triste melodia. O barco zarpou na madrugada levado pela brisa serena profetizando bons ventos. Lá fora, mar aberto, o grande oceano  mostrava-se receptivo apaziguando ondas agigantadas que dominavam a travessia inóspita, temerosa.

     Traumáticos foram os meses no hospital psiquiátrico.  Fustigada pelo choque elétrico como tratamento eficaz, porém desumano, mergulhava num submundo que a deixava estagnada, à mercê dos seus fantasmas numa vivência  surreal  tão quanto sua presença naquele lugar atípico, num  confronto cruel diante da loucura.

     No decorrer do tempo o tratamento mostrou explicitamente sua recuperação e o resgate da lucidez, ambos estampados na expressividade, que iluminava um rosto alegre em harmonia com o olhar sereno. A volta ao convívio social afirmava sua reconciliação com a vida. A paz interior havia retomado seu estado natural buscando reencontro com a família a serenidade maior que tanto almejava.