Vivia uma rotina de trabalhador responsável no estressante serviço pesado nada fácil, mas era o seu ganha-pão a sobrevivência. O bom humor o acompanhava nas tarefas que o requisitava em Guimarães.
João bonito, irônico apelido que atendia sem aborrecimento ou queixa. Feio demais: os traços rústicos, o jeito desengonçado, aquele andar pesado meio vergado onde muitas vezes sem camisa deixava à mostra os incontáveis calombos que se multiplicavam aceleradamente no corpo; e eram tantos, variando em tamanho concentrados em quantidade maior no tórax. Morava com a mãe em uma casa de total humildade, era uma senhora dedicada ao filho contribuindo também para o sustento dos dois.
O trabalho principal de João bonito iniciava cedo levando água para famílias abastadas no comércio informal, ao qual outros jovens também recorriam contribuindo para a pequena renda familiar; época em que a água encanada não passava de um sonho na cidadezinha. O transporte seguia através de jumentos com duas ancoretas, que abasteciam nos poços exclusivos para água de beber. As lavadeiras usavam da mesma prática, porém com latas cheias d'água na cabeça; uma labuta, jornada dupla cansativa, desgastante.
A criançada quando avistava João bonito divertia-se gritando seu nome, ele, no entanto, fingia não ouvir, mas num determinado momento batia o pé no chão com força tamanha assustando-as que logo disparavam a correr tomando rumo de casa; João bonito simplesmente se divertia do medo que despertava na garotada. Além de entregador de água tinha certa habilidade em matar porco, contratavam-no com frequência para tal serviço. Lembro na casa da minha tia: eram dois caldeirões grandes no quintal e, ele, João bonito, responsável pela tarefa. Iniciava cedo, lá pelas tantas sol já alto a pino exalava o cheiro gostoso do sarrabulho apurando aquele tempero bom, típico da terra. Adiante o torresmo pipocando no velho caldeirão e a criançada indócil na expectativa para comer.
Ele caprichava no trabalho com boa vontade e conhecimento. Sua vida transcorria nessa rotina paupérrima sem esperança para alimentar algum sonho maior. Mas os calombos intensificavam-se, que demonstrava algo grave necessitando de diagnóstico preciso. A solidariedade que o cercou tornou-se importante para que chegasse a São Luís, onde o tratamento cirúrgico aconteceu. Retornou a Guimarães com a saúde equilibrada, contudo no decorrer do tempo o desenvolvimento da doença manifestou-se, tirando-o do convívio de todos.
João Bonito partiu com a humildade que viveu.
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