As manhãs nasciam esperançosas para ela, apesar da labuta árdua onde o alvorecer a encontrava na cozinha preparando a parca marmita que o marido levava para o trabalho. Semanalmente era assim, diante do precário fogão a lenha sem infraestrutura qualquer deixava-se devanear em momentos sonhadores, soltando a voz afinada permitindo à canção fluir harmoniosa, alegre, bonita. Outras vezes surgia um canto nostálgico, arrastando-se numa melodia saudosista logo dispersada pela gargalhada espontânea, irreverente e assim a vida se mostrava mas leve perante aquele cotidiano em que a penúria era uma constante.
Quando jovem teve participação ativa no coro da igreja, onde as vozes privilegiadas tinham destaque em rezas, ladainhas e especialmente nas missas glorificadas ao som dos cânticos Gregorianos, misto de beleza etérea. Desdobrava-se agora com a família que construira. Alimentar a prole era algo que a consumia, o dinheiro era apertado para as constantes despesas.
O marido suava semanalmente naquele serviço braçal e desgastante. Aos domingos folgava e logo a roda com amigos o esperava no boteco, ali o lazer principal resumia-se a bebericar a cachaça de alambique pura, oriunda das antigas fazendas dos senhores de engenho. Naquele ambiente o assunto corriqueiro permanecia sempre na pauta das fofocas que espalhavam-se na cidadezinha conservadora, ou seja, o cotidiano das mulheres ousadas, valentes, dispostas a ganhar o mundo, conquistar a liberdade confinada no ambiente patriarcal opressor, limitando-as, punindo. "Santas ou pecadoras" suas vidas eram expostas a comentários intrigantes pelos espiões noturnos vagando feito zumbis em busca de assuntos picantes e comprometedores entre casais, numa curiosidade mórbida própria de mexeriqueiros. As moças visadas tornavam-se alvo preferido, e entre os muitos preconceitos pesava a exclusão do meio social do qual eram banidas.
Por outro lado a rotina da jovem senhora não ia além da enfadonha mesmice diária, muita tarefas e obrigações para um descanso mínimo. Em certos períodos conseguia trabalho como doméstica em residência de autoridade local, sentia-se gratificada, contribuía para o sustento da casa. No entanto, a jornada lucrativa transformou-se em algo penoso, desgastante, sobrecarregando-a demasiado e expondo sinais visíveis do estresse como frases desconectadas fora do contexto real, embaralhando as ideias. Passou a embalar-se na rede compulsivamente cantando uma única música sem cessar, dia e noite. Logo perceberam tratar-se de um surto psicótico, causando impacto estarrecedor à famila e amigos.
A viagem para a capital aconteceu de forma solidária com o apoio das pessoas amigas. Seguiu acompanhada arrastando consigo a mesma triste melodia. O barco zarpou na madrugada levado pela brisa serena profetizando bons ventos. Lá fora, mar aberto, o grande oceano mostrava-se receptivo apaziguando ondas agigantadas que dominavam a travessia inóspita, temerosa.
Traumáticos foram os meses no hospital psiquiátrico. Fustigada pelo choque elétrico como tratamento eficaz, porém desumano, mergulhava num submundo que a deixava estagnada, à mercê dos seus fantasmas numa vivência surreal tão quanto sua presença naquele lugar atípico, num confronto cruel diante da loucura.
No decorrer do tempo o tratamento mostrou explicitamente sua recuperação e o resgate da lucidez, ambos estampados na expressividade, que iluminava um rosto alegre em harmonia com o olhar sereno. A volta ao convívio social afirmava sua reconciliação com a vida. A paz interior havia retomado seu estado natural buscando reencontro com a família a serenidade maior que tanto almejava.
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