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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
Lembranças
O silêncio noturno calava a cidadezinha possuída pela envolvente paz hipnótica em que a vida mergulhava num mundo fantasioso. Ali moviam-se lendas, mistérios, sortilégios confabulando no soturno, impregnado pelo sobrenatural habitando o imaginário das pessoas.
Ao anoitecer, janelas e portas fechavam-se dando vez à luz das lamparinas e candeeiros exercerem a precária função de iluminar o ambiente das casas, casebres e humildes palhoças. Uma rotina monótona na qual a luz elétrica ainda não integrava o cotidiano daquela gente predominantemente acolhedora, sempre disposta a receber o forasteiro com a alma carregada de bons sentimentos.
Recolhiam-se com o escurecer. Alguns notívagos, curiosos, vagavam pelas ruas mudas e becos solitários buscando algo que pudesse render uma história surpreendente ou mesmo impactante, principalmente um casal em colóquio amoroso trocando carícias envolvidas pelo êxtase da paixão naquele escuro silencioso, cúmplice que favorecia e os acobertavam do moralismo patriarcal opressor. Porém, quando flagrados, tornavam-se vítimas das línguas ferinas que não os poupavam. O boato espalhava-se entre cochichos e disse-me-disse causando enorme estrago, exclusivo para o lado feminino.
Cães perambulavam soltos pelas ruas e logo assumiam o posto de vigias da noite; guardiões libertos dormindo ao relento, atentos ao rumor que só eles captavam atacando com latidos exagerados como se estivessem prestes a um gigantesco enfrentamento naquele mundo pequeno, mas acolhedor, onde chegava a madrugada mansa cumprindo seu percurso vagaroso enquanto a brisa farfalhava.
O vento nas folhagens das árvores, ora leve, ora intenso caracterizava de certa forma o dia como bom ou péssimo para a viagem marítima. Eram os barcos o transporte, o elo de ligação entre a cidadezinha e a capital.
Cada viagem tornava-se uma saga, um desafio, um ato de bravura do mestre e seus tripulantes. Homens simples, valentes, habilidosos, responsáveis, pacíficos. Sábios conhecedores daquele mar intenso, revolto, encrespado, criando ondas gigantes num oceano minado de arrecifes e bancos de areias encobertos feito armadilhas à espreita do incauto navegante. Uma travessia lendária com seus mistérios e superstições em que várias embarcações tiveram desfecho trágico, incontáveis vidas o impiedoso mar tragou. Esses barcos rusticamente construídos de madeira não possuíam motor ou conforto qualquer. Conduzidos pelo mestre através do leme, mas quando fustigados pelo vento em alto mar adquiriam grandeza com suas velas coloridas desafiando um intenso oceano contorcendo-se em fúria devoradora ameaçando levá-los a desfecho trágico.
Os mestres eram responsáveis em conduzir as embarcações e dispunham de um senso de responsabilidade aguçado, atentos a imprevistos e perigos que eventualmente surgiam, afinal, lidavam quase diariamente com aquele mar traiçoeiro agigantado de bruscas mudanças e variações do tempo. Quando o vento debandava deixava no rastro a inesperada calmaria, um transtorno desalentador diante da expectativa ansiosa agarrada a uma esperança sofrida com o barco navegando penosamente, prolongando as horas até alcançar o destino certo. E ao ancorar no porto o semblante de todos refletia serenidade e um alivio reconfortante, alentador.
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