Possuía um senso de liberdade que para os padrões conservadores da época era visto com olhos de censura e desdém. Corajosa, trabalhadora e tanta! Como provedora da casa, chefe de família junto com os filhos, batalhava numa rotina de trabalho informal de pouco lucro com um carro de boi que pertencia à família. Outras vezes na condição de cozinheira esforçava-se no fogão das senhoras abastadas recebendo salário mensal, podendo assim contar para os gastos frequentes.
Mas sua vida não se resumia somente a labuta, divertia-se também nas festas tanto religiosas como carnavalescas, principalmente. Com a maturidade adquiriu sabedoria na prática da vida dura driblando os momento difíceis, deixando-se contagiar pelas coisas alegres. Uma senhora com personalidade que sabia impor respeito até nos momentos descontraídos nos quais não permitia muitas vezes a espontaneidade ir além do limite.
Enfeitava-se prazerosa para as festas com brincos, colares, pulseiras e o batom carmim, aquele vermelho atraente indispensável que gostava de usar nas procissões e momentos especiais. O vestido simples de tecido barato caía até o joelho deixando as pernas longas bem torneadas à mostra, destacando ainda a sua boa estatura. Nos bailes demonstrava a certa preferência pelos moços jovens e quando encontrava um par agradável então, a noite era toda sua. Em uma dessas festas carnavalescas entrou no salão um rapaz jovem conhecido pela grande afinidade com a dança, familiarizado com os rítmos, aliás, exímio dançador. Foi o suficiente para os dois juntarem-se ao entusiasmo da festa. Dançaram bastante, rodopiaram pelo salão à vontade, porém em determinada hora o jovem querendo sumir, desvencilhar-se, simulou uma desculpa para a senhora convencendo-a ao lhe falar: "vou fazer xixi"... Logo às pressas sumiu. Uma espera prolongada ansiosa, criando expectativa e ainda desconfiança.
No entanto ela não deixou por menos, saiu a procurá-lo e ao chegar no outro salão o encontrou bem à vontade num descontraído bate-papo em boa companhia feminina. Sem pensar duas vezes, aproximou-se do rapaz o encarou com voz firme, semblante sisudo e logo disparou a pergunta: "agora que tu cabou de mijar?!" Surpreendido com tal atitude que não esperava gaguejou, tentou escapar, mas foi impedido, de imediato conduzido ao salão principal onde ambos retornaram à dança num poutporri de marchinhas estendendo-se noite afora naquele entusiasmo frenético entre lança-perfume, serpentina entrelaçando casais num êxtase de felicidade.
O baile varou madrugada, somente estancou a euforia dos dançantes com os acordes da orquestra ao som do tradicional Zé Pereira. Acalmaram-se os ânimos festivos, os instrumentos musicais emudeceram, o salão silenciou.
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