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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Discurso

Decididamente não me apaixono mais. Assim concluí depois de refletir e analisar prós e contras. No entanto, surpreendo-me rompendo essa prolongada estiagem sentimental, recebendo por inteira a paixão que me chega aberta, sem meio termo, concreta. Iniciação de um novo amor. Paixão incontida, explícita, declarada em um livro como presente:”Fragmentos de um discurso amoroso”. Preciosidade literária tocando em cheio a minha fragilidade emotiva. Embarco nessa reciclagem da vida, renovo o espírito, refaço sonhos, projetos, banho-me na imaginária fonte da juventude, respiro o novo, vivo a cumplicidade de tudo. O relacionamento se mostra bonito: gesto, olhar, carinho; dose certa inspirando versos, frases, intensidade no amar. Tudo fugaz, veloz e também atroz.

Em pouco tempo, discordância de valores, disparidade nos conceitos me faz enxergar uma pessoa camuflada, voltada para si, que só blefava. O racional mostra que somos tão antagônicos como o dia e a noite. Só o entusiasmo da paixão nos unia, mas não me bastava e não era isso que daria estabilidade emocional. Quero cabeça e corpo em sintonia.

Deixo-o, saio sorrateira, ilesa, impossível, mas estou inteira. Viajo na imaginação e concluo novamente: decididamente não me apaixono mais. Será?

S.Paulo, outubro de 1995

Reflexão na cozinha





Pratos, panelas, talheres, fogão, tudo disposto na minha frente repetindo esse cotidiano banal de dona de casa. Entro na cozinha, essa parafernália quase me leva ao desânimo total. Salva-me, no entanto, o mural da mulher logo ali na parede retratando preconceito, violência, luta e conquistas ao longo do tempo. Informação misturada ao estridente som da panela de pressão e o barulho da água na lavagem das louças.

Corro os olhos novamente no canto, releio um célebre conceito de Simone de Beauvoir:

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.”

Convincente, atual, racional, Retorno à condição de “doméstica” de igual para igual.

S.Paulo, 1995

Faz de conta...


Abro a porta do quarto e as vejo paradas, olhos fixos, nem brilho, nem vida. Imagino uma suposta ansiedade lhes afligindo: a eterna espera de amiguinhas que as levem para brincar. Nenhum sorriso e as vestes ultrapassadas demonstram que o tempo correu, a tecnologia avançou e elas ficaram para trás.

Bolota e Bolotinha permanecem no seu universo de faz de conta. Empoeiradas, descartadas na pequena mesa desejando que pelo menos uma mãozinha estabanada as joguem para outro lugar num inconseqüente gesto carinhoso.

(em homenagem a Bolota e Bolotinha, as primeiras bonecas que Larissa ganhou quando bebê.)

S.Paulo, 28 de agosto de 1995

O jardim



Agora sim, olho satisfeita para o jardim: arrumado, replantado com ares de espaço organizado. A limpeza que lhe dei valeu, embora não seja adepta dos jardins certinhos. Aliás, urbanismo em excesso que descaracteriza a natureza não me atrai. Gosto de olhar plantas, mato no seu estado natural sem que seja modificado segundo a vontade e capricho do homem. Cresci com as matas circundando minha terra e o oxigênio puro entrando em meus pulmões numa perfeita sintonia de vida saudável. Mas em um espaço pequeno é diferente, as opções são mínimas, tento encontrar acomodação para cada planta em especial as menores, visto que as maiores tornam-se donas do pedaço. A jibóia então, que por si já é espaçosa, desenvolve-se em disparada querendo o chão só pra ela. O mastruz, consegui tirá-lo do encolhimento rasteiro a que se encontrava; já respira aliviado e começa abrir algumas folhinhas exalando cheiro bom de remédio caseiro, cutucando uma saudade distante, porém sem castigar, lembranças apenas, aguçando a origem nordestina. Na minha cidade ele viceja numa espontaneidade absoluta com folhas maiores abertas, abençoado pelo bom clima. É lendário, polivalente: cicatriza fraturas, cura gripe, serve para estômago, pulmão, enfim, fortalece o corpo contra doenças; já o experimentei, acredito em todo o seu potencial. Trato-o com esmero para que o frio não o castigue tanto. Logo adiante está a maria-sem-vergonha, fagueira, espremida entre samambaias, folhagens e espada de São Jorge; teima com sua fragilidade disputar com outras plantas um lugar onde possa sobressair suas singelas florzinhas coloridas de rosa púrpura, rosa desbotado, vermelho e assim com inúmeras mutações vai agradando e conquistando todos.

Bem no canto, grudado no pequeno muro que dá para a rua debruça-se o boldo, seus galhos curvados como que numa reverência dissesse: “ Estou aqui, alivio o mal do estômago de boêmios e sóbrios, experimentem-me”. Encostado ainda nesse baixo muro, fazendo divisa com a casa do bom amigo Maurício cresce uma grande folhagem, e como cresce! Sua altura já toca as telhas do terraço. Uma pequena muda fez-se desenvolver em várias. Na primavera surge dessas folhas compridas a beleza: cachos de botões pequenos colados uns aos outros de um rosa discreto, belo, porém, quando as flores desabrocham surpreende com o tom de amarelo forrando o interior de cada uma. Ainda no jardim crescidas em estado adulto, dois pés de Iris, suas folhas longas e duras lembram talos a nascer do chão, do meio brotam pequeninos botões que vão surgir. Cada botão guarda em si uma linda flor lilás semelhante à orquídea, extremamente sensível e delicada, essa demonstração de beleza renasce com a primavera, estende-se até o verão, depois recatam-se botões e flores.

E assim, nesse arranjo num pedacinho de chão na entrada da casa cada planta exibe particularidade e excentricidade diversa florindo no tempo pré-estabelecido pela natureza; somente a maria-sem-vergonha me surpreende: incansavelmente colorida, incansavelmente faz-se resistente o ano inteiro, não importa o tempo.

Uma lição que me reabastece de vitalidade.

São Paulo, 1999

No supermercado


Já entro no supermercado convicta de que vou gastar só o necessário. Com o dinheiro curto, contadinho na bolsa e a frase "contenção de gastos", chavão que guardei na cabeça de tanto ouvir governos e políticos querendo mostrar seriedade, mas que não emplaca porque não passa de blefe. Sou povo e não acredito mesmo. Mas isso é outra história que não cabe aqui.

Logo de cara paraliso diante de um stand com flores artificiais extremamente delicadas e bonitas. Tentação! não é possível, sou fascinada por flores e estas aqui estão do jeito que eu quero, têm um ar todo natural. Poderia levar algumas para aquele vaso grande que há tempo precisa de um belo arranjo, pensei; ficaria ideal e minha sala ganharia outra vida! Mas trocar comida por supérfluo é insensatez demais. Caio na real e pego o primeiro carrinho que vejo pela frente. Armada com a listinha na mão procuro apressada me desvencilhar da tarefa do “lar doce lar: quem o definiu dessa forma? Irônico ou não, tem sempre pedacinhos de jiló entremeados nesse doce.

Na disparada de querer sair logo dali topo de cara com minha amiga “chocólatra”, como se autodefine. Quase irreconhecível, magérrima, e pra que isso acontecesse deu um basta no tesão por chocolates e decidiu afinar a silhueta nos moldes do “culto ao corpo”: - Nossa, santa, como você está bela! falei. E a sua gargalhada espalhou sons de felicidade, percebi no seu rosto. Botamos algumas fofoquinhas em dia, um longo abraço pelo longo tempo sem nos vermos e ela seguiu rumo ao caixa com sua cestinha de diets. Fiquei feliz de vê-la assim.

Retorno às compras mal iniciadas. Vou em cada corredor atenta pra não esquecer nada. Sou dispersiva, muitas vezes até a listinha perco, difícil será evitar aquele stand. Se pudesse passar de olho fechado... impossível, vou trombar com alguém e com certeza vão achar que sou meio pirada. No ziguezague com o carrinho outra tentação, só que menor: cremes, xampus e tudo que a propaganda joga com força total para o consumidor. Detenho-me lendo seus efeitos mirabolantes e as mentirinhas embutidas, quero levar pelo menos um, mas novamente o racional me cutuca e lembro que é só o essencial, nada mais.

Já começo me irritar com o tal senso de racionalidade pegando no meu pé, me policiando. Estou na maturidade, extrapolar um pouco não é nada mal, já ganhei experiência suficiente para enxergar com clareza, prós e contras, certos e errados. Paro com o pensamento individualista e me concentro novamente no meu cotidiano coletivo: filhos, neta, direitos iguais, etc.; só então percebo que já está em cima da hora de chegar em casa, tenho um compromisso que por nada quero perder.

Dou mais uma caminhada e logo estou no caixa abraçada a um extravagante e colorido arranjo de flores. No momento é só isso que eu quero, o arroz integral de Larissa ficará para depois.

São Paulo, 5 de dezembro de 1995

domingo, 5 de setembro de 2010

Sem rumo

Vagava como sentenciada a Deus dará pelos caminhos do vilarejo. Os pés enfiados na areia cumpria uma via crucis de andarilha sem rumo, insana, catatônica, alheia ao próprio fado perambulava. O vento acompanhava aqueles passos largos, ligeiros andando à toa mundo afora. Mal o dia surgia ela seguia procurando o nada, buscando o vazio, o indefinido; assim doida, maluca, perdida em outra dimensão do tempo, penava. O rosto marcado por traços pesados demonstrava expressão dura, ausente de qualquer alegria: não falava, sequer sorria; chorar muito menos. Dois olhos imensos arregalados carregam espanto, medo, assustando numa interrogação indecifrada. Sorrateiramente escondia-se entre coqueiros, espreitando, vigiando, como se fugisse do algoz.

E o vento soprava, sibilava do mar, da praia, do vilarejo e manguezal. Ventava ainda em seu cabelo desgrenhado querendo arrancá-lo, fazê-lo voar, sumir, se perder em pequenos minúsculos pedacinhos. Ventava também no vestido de chita velho, amassado balançando no corpo magro, comprido, espichado, sustentado pelas canelas secas encardidas que o sol castigava nas andanças do dia.

Vivia assim consumida, não tinha descanso, nem pausa, nem trégua. Girava sem norte num imaginário obscuro, território intransponível que só ela comandava. Ali era dona, guerreava doidamente contra fantasmas. Envelheceu nessa contenda que lhe levou força, luta e vida. Sucumbiu vencida.

Triângulo incomum

Ninguém entendia o triângulo amoroso que surgiu na cidade ordeira e pacata aos olhos de todos, que incrédulos, admirados e pasmos, murmuravam. Viviam sob o mesmo teto, dividiam espaço, cotidiano, prazer nessa íntima união, escancarando uma relação nada convencional para a época.

Duas mulheres no frescor da idade e um homem: caboclo rude, grosseiro, atarracado, com fama de bravo.

A casa onde viviam era modesta, espaçosa, cômodos simples, de frente para o mar onde chegava uma brisa que a refrescava, deixando-a arejada o tempo inteiro. Ali avistava-se uma paisagem familiar: barcos e canoas integrados à rotineira vida do porto, ora barulhento, outras vezes sossegado. Comentários e boatos não faltavam em torno do tão falado caso.

Certa tarde surgiram os três a passeio. Ele no meio de braços dados com as jovens exibia um caminhar empavonado, vaidoso, compenetrado, de posse e domínio da situação; sequer incomodou-se com olhares curiosos, perplexos daqueles que os viam. As moças, ao contrário, inibidas não passavam de uma semelhança só; eram o retrato fiel da submissão. Vestiam-se iguais: tecido, modelo e cor. Aquele azul turqueza estampava em seus rostos quietude e servidão. Cena patética, inusitada, que a memória guardou.