Sou cabocla litorânea das bandas do grande mar bravo, enfurecedor, povoado pelos arrecifes cercados de mistérios, lendas e temores. Submersos ou expostos pontiagudos feito lanças afiadas vê-se ali um iminente perigo à espreita do invasor. Intimidam naquele território intransponível capaz de provocar tragédia devastadora a qualquer incauto navegante. Um mar que vomita ondas intensas e grandes quando instigado pelo vento sendo capaz de levar a pique a embarcação que navegar em dia não aconselhável. Mas também é possível encontra-lo pacífico em plena calmaria deixando-se escorregar indolente entre espumas sobre areia, cativo, submisso, marolando ao deleite da envolvente aragem.
Sou de lá, onde a natureza ainda resguarda belas praias alongando-se em contornos e relevos sinuosos, soberbos buscando esconderem-se não sei onde em algum lugar sumido na paz de um infinito desconhecido.
Na minha terra, os manguezais imperam vigorosos onde formam poderoso dominio. Desenvolvem, triplicam entre emaranhados de crustáceos, areia e lama, podendo incorporar aos seus redutos praias inteiras deixando para trás apenas recordações de outrora no imaginário nostálgico daqueles que as conheceram. Em seus galhos resistentes, viçosos, aglomeram-se os atraentes guarás, ali fazem morada na vastidão e silêncio de um mundo quase impenetrável. Pela manhã debandam em vôos serenos desbravando outros horizontes para no final do dia retornarem ao pouso noturno. Chegam num bater de asas lento expandindo uma beleza que tinge com exuberante vermelho a paisagem entardecendo mística e também solitária.
A maré no processo geológico se esvai, distancia-se longe deixando para trás uma imagem fotográfica que inspira placidez poética, sonhadora entre canoas e barcos estagnados, resignados à merce da longa espera onde o sopro da brisa marinha como um alento atenua com leveza e prazer.
Essa variação da maré entre o ir, vir, ou seja, vazante e enchente tem uma duração que prolonga-se horas. No seu retorno chega murmurando mansa, caudalosa ou intensa, impulsiva, ágil ou tão somente fúria.
Amo minha terra, Guimarães, Maranhão.
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
Lembranças
O silêncio noturno calava a cidadezinha possuída pela envolvente paz hipnótica em que a vida mergulhava num mundo fantasioso. Ali moviam-se lendas, mistérios, sortilégios confabulando no soturno, impregnado pelo sobrenatural habitando o imaginário das pessoas.
Ao anoitecer, janelas e portas fechavam-se dando vez à luz das lamparinas e candeeiros exercerem a precária função de iluminar o ambiente das casas, casebres e humildes palhoças. Uma rotina monótona na qual a luz elétrica ainda não integrava o cotidiano daquela gente predominantemente acolhedora, sempre disposta a receber o forasteiro com a alma carregada de bons sentimentos.
Recolhiam-se com o escurecer. Alguns notívagos, curiosos, vagavam pelas ruas mudas e becos solitários buscando algo que pudesse render uma história surpreendente ou mesmo impactante, principalmente um casal em colóquio amoroso trocando carícias envolvidas pelo êxtase da paixão naquele escuro silencioso, cúmplice que favorecia e os acobertavam do moralismo patriarcal opressor. Porém, quando flagrados, tornavam-se vítimas das línguas ferinas que não os poupavam. O boato espalhava-se entre cochichos e disse-me-disse causando enorme estrago, exclusivo para o lado feminino.
Cães perambulavam soltos pelas ruas e logo assumiam o posto de vigias da noite; guardiões libertos dormindo ao relento, atentos ao rumor que só eles captavam atacando com latidos exagerados como se estivessem prestes a um gigantesco enfrentamento naquele mundo pequeno, mas acolhedor, onde chegava a madrugada mansa cumprindo seu percurso vagaroso enquanto a brisa farfalhava.
O vento nas folhagens das árvores, ora leve, ora intenso caracterizava de certa forma o dia como bom ou péssimo para a viagem marítima. Eram os barcos o transporte, o elo de ligação entre a cidadezinha e a capital.
Cada viagem tornava-se uma saga, um desafio, um ato de bravura do mestre e seus tripulantes. Homens simples, valentes, habilidosos, responsáveis, pacíficos. Sábios conhecedores daquele mar intenso, revolto, encrespado, criando ondas gigantes num oceano minado de arrecifes e bancos de areias encobertos feito armadilhas à espreita do incauto navegante. Uma travessia lendária com seus mistérios e superstições em que várias embarcações tiveram desfecho trágico, incontáveis vidas o impiedoso mar tragou. Esses barcos rusticamente construídos de madeira não possuíam motor ou conforto qualquer. Conduzidos pelo mestre através do leme, mas quando fustigados pelo vento em alto mar adquiriam grandeza com suas velas coloridas desafiando um intenso oceano contorcendo-se em fúria devoradora ameaçando levá-los a desfecho trágico.
Os mestres eram responsáveis em conduzir as embarcações e dispunham de um senso de responsabilidade aguçado, atentos a imprevistos e perigos que eventualmente surgiam, afinal, lidavam quase diariamente com aquele mar traiçoeiro agigantado de bruscas mudanças e variações do tempo. Quando o vento debandava deixava no rastro a inesperada calmaria, um transtorno desalentador diante da expectativa ansiosa agarrada a uma esperança sofrida com o barco navegando penosamente, prolongando as horas até alcançar o destino certo. E ao ancorar no porto o semblante de todos refletia serenidade e um alivio reconfortante, alentador.
Reflexões
A primavera com sua bagagem florida encontra-se instalada para os lados de cá compondo paisagens vibrantes em dias ensolarados, permitindo à vida um estado de plenitude inspiradora poética.
As chuvas fazem parte da caravana primaveril, no entanto chegam às vezes minguadas, em outros momentos encharcando fartamente a terra desejosa de água onde possa fortalecer tão logo a vegetação deixando-a viçosa, colorida pelos alegres exuberantes tons que a natureza generosamente oferta.
O canto apaixonante dos sabiás esvaíram-se, menos esfusiantes apenas serenos passeiam silenciosos entregues ao desvelo dos ninhos onde em breve estarão a dedicar-se ao enternecimento dos filhotes que futuramente serão também trov adores nas conquistas de suas amadas.
Outubro apresentou-se para o comando, porém, sinto rapidez nos dias como se apressados estivéssemos acelerando o tempo, não permitindo reflexões ou resmungos para nostálgicas recordações que inevitavelmente surpreendem a própria memória. Penso reflexiva com lucidez aguçada perante a velhice pela qual vejo-me tomada deixando no corpo presença marcante, inevitável, permanente. Quieto-me, talvez pelo temor ou respeito ou sabedoria que o decorrer dos anos o tempo mestre dos mestres ensina com sua didática austera, ríspida, inclemente.
2018
As chuvas fazem parte da caravana primaveril, no entanto chegam às vezes minguadas, em outros momentos encharcando fartamente a terra desejosa de água onde possa fortalecer tão logo a vegetação deixando-a viçosa, colorida pelos alegres exuberantes tons que a natureza generosamente oferta.
O canto apaixonante dos sabiás esvaíram-se, menos esfusiantes apenas serenos passeiam silenciosos entregues ao desvelo dos ninhos onde em breve estarão a dedicar-se ao enternecimento dos filhotes que futuramente serão também trov adores nas conquistas de suas amadas.
Outubro apresentou-se para o comando, porém, sinto rapidez nos dias como se apressados estivéssemos acelerando o tempo, não permitindo reflexões ou resmungos para nostálgicas recordações que inevitavelmente surpreendem a própria memória. Penso reflexiva com lucidez aguçada perante a velhice pela qual vejo-me tomada deixando no corpo presença marcante, inevitável, permanente. Quieto-me, talvez pelo temor ou respeito ou sabedoria que o decorrer dos anos o tempo mestre dos mestres ensina com sua didática austera, ríspida, inclemente.
2018
Uma guerreira
As manhãs nasciam esperançosas para ela, apesar da labuta árdua onde o alvorecer a encontrava na cozinha preparando a parca marmita que o marido levava para o trabalho. Semanalmente era assim, diante do precário fogão a lenha sem infraestrutura qualquer deixava-se devanear em momentos sonhadores, soltando a voz afinada permitindo à canção fluir harmoniosa, alegre, bonita. Outras vezes surgia um canto nostálgico, arrastando-se numa melodia saudosista logo dispersada pela gargalhada espontânea, irreverente e assim a vida se mostrava mas leve perante aquele cotidiano em que a penúria era uma constante.
Quando jovem teve participação ativa no coro da igreja, onde as vozes privilegiadas tinham destaque em rezas, ladainhas e especialmente nas missas glorificadas ao som dos cânticos Gregorianos, misto de beleza etérea. Desdobrava-se agora com a família que construira. Alimentar a prole era algo que a consumia, o dinheiro era apertado para as constantes despesas.
O marido suava semanalmente naquele serviço braçal e desgastante. Aos domingos folgava e logo a roda com amigos o esperava no boteco, ali o lazer principal resumia-se a bebericar a cachaça de alambique pura, oriunda das antigas fazendas dos senhores de engenho. Naquele ambiente o assunto corriqueiro permanecia sempre na pauta das fofocas que espalhavam-se na cidadezinha conservadora, ou seja, o cotidiano das mulheres ousadas, valentes, dispostas a ganhar o mundo, conquistar a liberdade confinada no ambiente patriarcal opressor, limitando-as, punindo. "Santas ou pecadoras" suas vidas eram expostas a comentários intrigantes pelos espiões noturnos vagando feito zumbis em busca de assuntos picantes e comprometedores entre casais, numa curiosidade mórbida própria de mexeriqueiros. As moças visadas tornavam-se alvo preferido, e entre os muitos preconceitos pesava a exclusão do meio social do qual eram banidas.
Por outro lado a rotina da jovem senhora não ia além da enfadonha mesmice diária, muita tarefas e obrigações para um descanso mínimo. Em certos períodos conseguia trabalho como doméstica em residência de autoridade local, sentia-se gratificada, contribuía para o sustento da casa. No entanto, a jornada lucrativa transformou-se em algo penoso, desgastante, sobrecarregando-a demasiado e expondo sinais visíveis do estresse como frases desconectadas fora do contexto real, embaralhando as ideias. Passou a embalar-se na rede compulsivamente cantando uma única música sem cessar, dia e noite. Logo perceberam tratar-se de um surto psicótico, causando impacto estarrecedor à famila e amigos.
A viagem para a capital aconteceu de forma solidária com o apoio das pessoas amigas. Seguiu acompanhada arrastando consigo a mesma triste melodia. O barco zarpou na madrugada levado pela brisa serena profetizando bons ventos. Lá fora, mar aberto, o grande oceano mostrava-se receptivo apaziguando ondas agigantadas que dominavam a travessia inóspita, temerosa.
Traumáticos foram os meses no hospital psiquiátrico. Fustigada pelo choque elétrico como tratamento eficaz, porém desumano, mergulhava num submundo que a deixava estagnada, à mercê dos seus fantasmas numa vivência surreal tão quanto sua presença naquele lugar atípico, num confronto cruel diante da loucura.
No decorrer do tempo o tratamento mostrou explicitamente sua recuperação e o resgate da lucidez, ambos estampados na expressividade, que iluminava um rosto alegre em harmonia com o olhar sereno. A volta ao convívio social afirmava sua reconciliação com a vida. A paz interior havia retomado seu estado natural buscando reencontro com a família a serenidade maior que tanto almejava.
Quando jovem teve participação ativa no coro da igreja, onde as vozes privilegiadas tinham destaque em rezas, ladainhas e especialmente nas missas glorificadas ao som dos cânticos Gregorianos, misto de beleza etérea. Desdobrava-se agora com a família que construira. Alimentar a prole era algo que a consumia, o dinheiro era apertado para as constantes despesas.
O marido suava semanalmente naquele serviço braçal e desgastante. Aos domingos folgava e logo a roda com amigos o esperava no boteco, ali o lazer principal resumia-se a bebericar a cachaça de alambique pura, oriunda das antigas fazendas dos senhores de engenho. Naquele ambiente o assunto corriqueiro permanecia sempre na pauta das fofocas que espalhavam-se na cidadezinha conservadora, ou seja, o cotidiano das mulheres ousadas, valentes, dispostas a ganhar o mundo, conquistar a liberdade confinada no ambiente patriarcal opressor, limitando-as, punindo. "Santas ou pecadoras" suas vidas eram expostas a comentários intrigantes pelos espiões noturnos vagando feito zumbis em busca de assuntos picantes e comprometedores entre casais, numa curiosidade mórbida própria de mexeriqueiros. As moças visadas tornavam-se alvo preferido, e entre os muitos preconceitos pesava a exclusão do meio social do qual eram banidas.
Por outro lado a rotina da jovem senhora não ia além da enfadonha mesmice diária, muita tarefas e obrigações para um descanso mínimo. Em certos períodos conseguia trabalho como doméstica em residência de autoridade local, sentia-se gratificada, contribuía para o sustento da casa. No entanto, a jornada lucrativa transformou-se em algo penoso, desgastante, sobrecarregando-a demasiado e expondo sinais visíveis do estresse como frases desconectadas fora do contexto real, embaralhando as ideias. Passou a embalar-se na rede compulsivamente cantando uma única música sem cessar, dia e noite. Logo perceberam tratar-se de um surto psicótico, causando impacto estarrecedor à famila e amigos.
A viagem para a capital aconteceu de forma solidária com o apoio das pessoas amigas. Seguiu acompanhada arrastando consigo a mesma triste melodia. O barco zarpou na madrugada levado pela brisa serena profetizando bons ventos. Lá fora, mar aberto, o grande oceano mostrava-se receptivo apaziguando ondas agigantadas que dominavam a travessia inóspita, temerosa.
Traumáticos foram os meses no hospital psiquiátrico. Fustigada pelo choque elétrico como tratamento eficaz, porém desumano, mergulhava num submundo que a deixava estagnada, à mercê dos seus fantasmas numa vivência surreal tão quanto sua presença naquele lugar atípico, num confronto cruel diante da loucura.
No decorrer do tempo o tratamento mostrou explicitamente sua recuperação e o resgate da lucidez, ambos estampados na expressividade, que iluminava um rosto alegre em harmonia com o olhar sereno. A volta ao convívio social afirmava sua reconciliação com a vida. A paz interior havia retomado seu estado natural buscando reencontro com a família a serenidade maior que tanto almejava.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
Panfletagem (ou o Empijamado)

O estudante pulou apressado da cama e zonzo de sono se arrumou de qualquer jeito. Não botou a cara no espelho pelo menos para verificar a aparência, imaginou tudo em ordem. Foi juntar-se ao grupo, iam panfletar na porta de uma fábrica na grande São Paulo. Seguiram com a rapidez que o tempo exigia, o dia clareava e os operários agitavam com protestos e reivindicações.
Procedimento normal na rotina desses estudantes. Assíduos na militância política do início dos anos oitenta, onde a corrente estudantil a qual pertenciam exercia forte liderança nas escolas, diretórios e centro-acadêmicos. Engajados, empenhavam-se como outros tantos brasileiros pelo retorno da democracia ainda sob as amarras da ditadura. Eram muito jovens; movidos pelo idealismo, motivados na leitura, fortaleciam suas convicções. Espelhavam-se nos revolucionários, nos heróis, nos líderes, nos mártires e mitos. Miravam-se no grandioso legado bravamente conquistado por cada um. Participativos, atuantes em reuniões, seminários, assembléias, congressos, doavam-se nas tarefas noite adentro, madrugada afora, clandestinos, escondidos. Como todos que deram o suor, sangue e vida desejavam mudar, transformar. Um sonho inquietante de igualdade, justiça sem oprimidos nem opressores, palpitava no peito desses corajosos moças e moços.
Aquela manhã, além de produtiva para o grupo acabou inusitada também para o estudante, que após as atividades tratava de chegar em casa. À tarde trabalhava, à noite estudava. Nada fácil a jornada. Acomodou-se no ônibus, tinha pela frente um demorado caminho a percorrer. Pensou cochilar, não arriscou, o receio de perder a hora o despersuadiu. Quieto, observava o entra e sai dos passageiros, alguns demonstrando pressa nos compromissos, outros mais sossegados permitiam-se relaxar em assentos nada cômodos. De parada em parada subiam pessoas enfileirando-se em pé, formando uma composição de rostos, corpos e tipos. Calados ou falantes buscavam seus destinos.
Mal sabia o estudante que atração engraçada no ônibus pairava sobre ele. Com a característica distração (fazendo jus ao verso musical "eu vivo sempre no mundo da lua") acabou virando o motivo de cochichos e risinhos de um casal se divertindo do seu cômico traje: o surrado pijama que na correria da manhã esquecera de trocar. Entre as inconveniências destoavam grandes botões feito acessório desnecessário e jocoso. Uma companheira do grupo o cutucou, tarde demais, via-se o "jocoso" em pessoa. Fazer o que a essa altura do ridículo? Já vinha de longe paramentado assim, empijamado. Tentou disfarçar não tomando os olhares curiosos para si, procurando desvencilhar-se do constrangimento diante da situação incômoda, caricata. Não funcionou. Além de comedido era contido aos arroubos e improvisos.
Devagarinho foi se esgueirando, enfiando-se pelo meio daquele ônibus sacolejando cheio, abafado, até alcançar a porta, ponto estratégico da saída. Na rua pisou firme, encorajado, afinal estava somente há poucos metros de sentir-se aliviado. O episódio do pijama por um tempo esquecido, hoje vem à tona.
A esses arrojados militantes remanescentes de uma época significativa do País, nos quais incluo três filhos, presto minha admiração.
domingo, 28 de maio de 2017
Um monumento
Na
simplicidade dos seus traços geométricos mantem-se mais que secular
centralizada na praça principal, referência expressiva à memória da cidade. Homenagem
a um certo governador do Estado originou sua construção. Ela impávida, resiste
ao acúmulo dos anos em que o tempo se encarrega de produzir desgaste lento e silencioso.
Gerações e gerações usufruíram das brincadeiras em torno da lendária Pirâmide. Algazarras,
correrias, cantigas de roda extravasavam alegria pueril sob o esplendor da lua reverenciando um céu deslumbrante, que inebriava de intenso brilho estelar.
Políticos a usavam como tribuna para inflamados discursos eleitoreiros. No fim
de tarde os garotos improvisavam pelada diante da Pirâmide, espectadora fiel e
permanente. Divertiam-se movidos pela irreverencia e entusiasmo no ágil manejo
com a bola, driblando afoitos na ânsia do gol a todo custo.
Em noites
soturnas, silenciosas, propícias aos furtivos amores, casais buscavam na
Pirâmide refúgio e cumplicidade. Acobertou o mais fugaz dos flertes, o mais
recatado ingênuo amor, a mais tórrida paixão proibida. Declarações,
confidências, pactos segredados, idílicos encontros selavam juras entre
namorados.
Porém, a paz
romântica muitas vezes via-se interrompida pelo foco da lanterna do
bisbilhoteiro invasor à espreita de alguém em colóquio amoroso na pirâmide.
Eram sempre homens movidos pela curiosidade perversa onde no alvo preferido
destacava-se a mulher, com detalhe: a luz incidia diretamente sobre o rosto da
moça deixando a exposta, vulnerável a maledicência da fofoca que no dia
seguinte corria solta na cidadezinha. Consequentemente a jovem passava a ser mal
vista no meio social pelas famílias como péssima amizade às suas pupilas.
Uma rejeição
explícita pela sociedade patriarcal fortalecendo e estimulando a discriminação, que acoplada ao preconceito marginalizava, ceifava a liberdade feminina.
A Pirâmide,
esse monumento de forte significação na minha terra não possui forma
grandiosa, bela ou sequer rebuscada. Revela, porém, uma estética sóbria,
harmônica, permeada pela aura enigmática de um certo fetiche que a sempre
envolveu. À distância, em meio às
recordações me enterneço ao relembrá-la.
Outra viagem atípica
O mar escancarava uma hostilidade mais que evidente em não
facilitar a navegação aos barqueiros naquele dia. Tomado pela fúria, esbravejava;
ondas intensas cresciam com dimensões assustadoras desafiando tempestades,
ventanias num confronto sem previsão para trégua. As rajadas de vento passavam
aceleradas assoviando; instigavam a luta e avançavam de encontro ao barco a
vela de madeira que, na sua fragilidade rústica, via-se ameaçado em meio a
peleja dramática singrando no montanhoso aguaceiro, driblando arrecifes e assim
procurava desvencilhar-se da ira destrutiva dessas indomáveis forças da
natureza.
Grudado ao leme, a
figura emblemática, heroica do mestre; manejava silencioso a embarcação atento,
envolto pela cautela diante do oceano convulso em contorções e
desequilíbrio. Um acúmulo de pensamentos
duvidosos lhe embaralhavam a mente, porém não admitia amedrontar-se ante a
coragem que o fortalecia, sobrepondo-o ao temor que ameaçava tomá-lo como refém.
Vez ou outra elevava o olhar esperançoso querendo vasculhar no alto do infinito
algo apaziguador, que trouxesse amenidade à tormenta. E lá nas alturas vislumbrava um azul límpido deitado sobre o céu e o revestia por inteiro
serenamente, enquanto a luminosidade solar inebriava como louvação a vida.
Baixava a visão reflexivo olhando o oceano em estado de incessante embate.
O mestre não só
mostrava ser audacioso como era de fato, até porque a convivência, o
conhecimento íntimo com o mar permitia ousar quando necessário fosse. Essa
cumplicidade entre a navegação e barqueiro, desenvolvia de certa maneira
vínculo, estreitamento diário quer seja dia, noite ou madrugada, onde o
amanhecer muitas vezes surpreende os navegantes ao exibir um horizonte multicor agregando pedaços coloridos, traços,
rabiscos que delineia algo abstrato, belo, indefinido diante da plenitude
celestial contemplativa, gratificando como conforto a alma dos viajantes na
solidão temerosa do oceano.
A travessia hostil
continuava, o mar amontoava-se em ondas impulsivas refazendo-se num processo
dinâmico, louco, impulsionado pelo vento em permanente ameaça. Nenhuma paisagem
amenizadora era vista aos olhos dos viajantes, somente a mesma cena repetitiva,
bruta, mortal, hipnotizando. Os passageiros apegavam-se às rezas como escape
amenizador perante tamanha apreensão e medo denunciado em cada olhar sofredor
interrogativo. Tudo se movendo em total descompasso até se complicar mais ainda
quando a vela principal da embarcação iniciou um rasgo que deflagrou risco
grave iminente a todos. A tripulação ágil e no improviso conseguiu um certo
equilíbrio, entretanto, não era nenhuma sustentação duradoura perante o
enfrentamento que a situação oferecia. Cabia ao mestre a decisão definitiva,
qual rumo seguir mediante o agravamento, que passava a comprometer a estrutura
do arrojado, velho barco, sentenciado a dano maior, mas ainda assim resvalava
com agilidade.
O vento persistente varou a tarde, porém foi quebrando a impulsividade passando a demonstrar discreto abrandamento, e ao conter a fúria permitiu um cenário apaziguador onde finalmente cada um pode recompor-se diante da amenidade que começava despontar substituindo as horas conturbadas, tensas, aflitas quase desesperançosas. O sol brando com seu molejo displicente, escondia-se para os lados dos confins deixando para trás um avermelhado que declinava suave até descorar. Longe, muito além, um rastro fugidio caracterizava o poente.
O vento persistente varou a tarde, porém foi quebrando a impulsividade passando a demonstrar discreto abrandamento, e ao conter a fúria permitiu um cenário apaziguador onde finalmente cada um pode recompor-se diante da amenidade que começava despontar substituindo as horas conturbadas, tensas, aflitas quase desesperançosas. O sol brando com seu molejo displicente, escondia-se para os lados dos confins deixando para trás um avermelhado que declinava suave até descorar. Longe, muito além, um rastro fugidio caracterizava o poente.
O barco expondo a
vela arriada a meio mastro resistiu às intempéries podendo assim chegar ao
destino resguardado, ainda que avariado. O burburinho juntou moradores em
frente aos cais onde todos salientavam unanimemente: “ o dia não estava
destinado a navegar”.
O mês era agosto; quando ele chega
surpreende com a carga de ventos desestabilizadores agregados ao cotidiano.
Estigmatizado pela superstição, porém respeitado e temido entre os barqueiros,
torna-se de fato um mês diferenciado entre lendas e realidade.
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