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domingo, 28 de maio de 2017

Outra viagem atípica



     O mar escancarava uma hostilidade mais que evidente em não facilitar a navegação aos barqueiros naquele dia. Tomado pela fúria, esbravejava; ondas intensas cresciam com dimensões assustadoras desafiando tempestades, ventanias num confronto sem previsão para trégua. As rajadas de vento passavam aceleradas assoviando; instigavam a luta e avançavam de encontro ao barco a vela de madeira que, na sua fragilidade rústica, via-se ameaçado em meio a peleja dramática singrando no montanhoso aguaceiro, driblando arrecifes e assim procurava desvencilhar-se da ira destrutiva dessas indomáveis forças da natureza.

     Grudado ao leme, a figura emblemática, heroica do mestre; manejava silencioso a embarcação atento, envolto pela cautela diante do oceano convulso em contorções e desequilíbrio.  Um acúmulo de pensamentos duvidosos lhe embaralhavam a mente, porém não admitia amedrontar-se ante a coragem que o fortalecia, sobrepondo-o ao temor que ameaçava tomá-lo como refém. Vez ou outra elevava o olhar esperançoso querendo vasculhar no alto do infinito algo apaziguador, que trouxesse amenidade à tormenta. E lá nas alturas vislumbrava um azul límpido deitado sobre o céu e o revestia por inteiro serenamente, enquanto a luminosidade solar inebriava como louvação a vida. Baixava a visão reflexivo olhando o oceano em estado de incessante embate.

     O mestre não só mostrava ser audacioso como era de fato, até porque a convivência, o conhecimento íntimo com o mar permitia ousar quando necessário fosse. Essa cumplicidade entre a navegação e barqueiro, desenvolvia de certa maneira vínculo, estreitamento diário quer seja dia, noite ou madrugada, onde o amanhecer muitas vezes surpreende os navegantes ao exibir um horizonte multicor agregando pedaços coloridos, traços, rabiscos que delineia algo abstrato, belo, indefinido diante da plenitude celestial contemplativa, gratificando como conforto a alma dos viajantes na solidão temerosa do oceano.

     A travessia hostil continuava, o mar amontoava-se em ondas impulsivas refazendo-se num processo dinâmico, louco, impulsionado pelo vento em permanente ameaça. Nenhuma paisagem amenizadora era vista aos olhos dos viajantes, somente a mesma cena repetitiva, bruta, mortal, hipnotizando. Os passageiros apegavam-se às rezas como escape amenizador perante tamanha apreensão e medo denunciado em cada olhar sofredor interrogativo. Tudo se movendo em total descompasso até se complicar mais ainda quando a vela principal da embarcação iniciou um rasgo que deflagrou risco grave iminente a todos. A tripulação ágil e no improviso conseguiu um certo equilíbrio, entretanto, não era nenhuma sustentação duradoura perante o enfrentamento que a situação oferecia. Cabia ao mestre a decisão definitiva, qual rumo seguir mediante o agravamento, que passava a comprometer a estrutura do arrojado, velho barco, sentenciado a dano maior, mas ainda assim resvalava com agilidade. 

O vento persistente varou a tarde, porém foi quebrando a impulsividade passando a demonstrar discreto abrandamento, e ao conter a fúria permitiu um cenário apaziguador onde finalmente cada um pode recompor-se diante da amenidade que começava despontar substituindo as horas conturbadas, tensas, aflitas quase desesperançosas. O sol brando com seu molejo displicente, escondia-se para os lados dos confins deixando para trás um avermelhado que declinava suave até descorar. Longe, muito além, um rastro fugidio caracterizava o poente.

     O barco expondo a vela arriada a meio mastro resistiu às intempéries podendo assim chegar ao destino resguardado, ainda que avariado. O burburinho juntou moradores em frente aos cais onde todos salientavam unanimemente: “ o  dia não estava destinado a navegar”.


     O mês era agosto; quando ele chega surpreende com a carga de ventos desestabilizadores agregados ao cotidiano. Estigmatizado pela superstição, porém respeitado e temido entre os barqueiros, torna-se de fato um mês diferenciado entre lendas e realidade.

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