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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Lembranças



          O silêncio noturno calava a cidadezinha possuída pela envolvente paz hipnótica em que a vida mergulhava num mundo fantasioso. Ali moviam-se lendas, mistérios, sortilégios confabulando no soturno, impregnado pelo sobrenatural habitando o imaginário das pessoas.

     Ao anoitecer, janelas e portas fechavam-se dando vez à luz das lamparinas e candeeiros exercerem a precária função de iluminar o ambiente das casas, casebres e humildes palhoças.  Uma rotina monótona na qual a luz elétrica ainda não integrava o cotidiano daquela gente predominantemente acolhedora, sempre disposta a receber o forasteiro com a alma carregada de bons sentimentos.

          Recolhiam-se com o escurecer. Alguns notívagos, curiosos, vagavam pelas ruas mudas e becos solitários buscando algo que pudesse render uma história surpreendente ou mesmo impactante, principalmente um casal em colóquio amoroso trocando carícias envolvidas pelo êxtase da paixão  naquele escuro silencioso, cúmplice que favorecia e os acobertavam do moralismo patriarcal opressor. Porém, quando flagrados, tornavam-se vítimas das línguas ferinas que não os poupavam. O boato espalhava-se entre cochichos e disse-me-disse causando enorme estrago, exclusivo para o lado feminino.

          Cães perambulavam soltos pelas ruas e logo assumiam o posto de vigias da noite; guardiões libertos dormindo ao relento, atentos ao rumor que só eles captavam atacando com latidos exagerados como se estivessem prestes a um gigantesco enfrentamento naquele mundo pequeno, mas acolhedor, onde chegava  a madrugada mansa cumprindo seu percurso vagaroso enquanto a brisa farfalhava.

          O vento nas folhagens das árvores, ora leve, ora intenso caracterizava de certa forma o dia como bom ou péssimo para a viagem marítima. Eram os barcos o transporte, o elo de ligação entre a cidadezinha e a capital.

          Cada viagem tornava-se uma saga, um desafio, um ato de bravura do mestre e seus tripulantes. Homens simples, valentes, habilidosos, responsáveis, pacíficos. Sábios conhecedores daquele mar intenso, revolto, encrespado, criando ondas gigantes num oceano minado de arrecifes  e bancos de areias encobertos feito armadilhas à espreita do incauto navegante. Uma travessia lendária com seus mistérios e superstições em que várias embarcações tiveram desfecho trágico, incontáveis vidas o impiedoso mar tragou. Esses barcos rusticamente construídos de madeira não possuíam motor ou conforto qualquer. Conduzidos pelo mestre através do leme, mas quando fustigados pelo vento em alto mar adquiriam grandeza com suas velas coloridas desafiando um intenso oceano contorcendo-se em fúria devoradora ameaçando levá-los a desfecho trágico.

          Os mestres  eram responsáveis em conduzir as embarcações e dispunham de  um senso de responsabilidade aguçado, atentos a imprevistos e perigos que eventualmente surgiam, afinal, lidavam quase diariamente com aquele mar traiçoeiro agigantado de bruscas mudanças e variações do tempo. Quando o vento debandava deixava no rastro a inesperada calmaria, um transtorno desalentador diante da expectativa ansiosa agarrada a uma esperança sofrida com o barco navegando penosamente, prolongando as horas até alcançar o destino certo. E ao ancorar no porto o semblante de todos refletia serenidade e um alivio reconfortante, alentador.






Reflexões

     A primavera com sua bagagem florida encontra-se instalada para os lados de cá compondo paisagens vibrantes em dias ensolarados, permitindo à vida um estado de plenitude inspiradora poética.
   
     As chuvas fazem parte da caravana primaveril, no entanto chegam às vezes minguadas, em outros momentos encharcando fartamente a terra desejosa de água onde possa fortalecer tão logo a vegetação deixando-a viçosa, colorida pelos alegres exuberantes tons que a natureza generosamente oferta.
   
     O canto apaixonante dos sabiás esvaíram-se, menos esfusiantes apenas serenos passeiam silenciosos entregues ao desvelo dos ninhos onde em breve estarão a dedicar-se ao enternecimento dos filhotes que futuramente serão também trov adores nas conquistas de suas amadas.
   
     Outubro apresentou-se para o comando, porém, sinto rapidez nos dias como se apressados estivéssemos acelerando o tempo, não permitindo reflexões ou resmungos para  nostálgicas recordações que inevitavelmente surpreendem a própria memória. Penso reflexiva com lucidez aguçada perante a velhice pela qual vejo-me tomada deixando no corpo presença marcante, inevitável, permanente. Quieto-me, talvez pelo temor ou respeito ou sabedoria que o decorrer dos anos o tempo mestre dos mestres ensina com sua didática austera, ríspida, inclemente.
2018

Uma guerreira

     As manhãs nasciam esperançosas para ela, apesar da labuta árdua onde o alvorecer a encontrava na cozinha preparando a parca marmita que o marido levava para o trabalho. Semanalmente era assim, diante do precário fogão a lenha sem infraestrutura qualquer deixava-se devanear em momentos sonhadores, soltando a voz afinada permitindo à canção fluir harmoniosa, alegre, bonita. Outras vezes surgia um canto nostálgico, arrastando-se numa melodia saudosista logo dispersada pela gargalhada espontânea, irreverente e  assim a vida se mostrava mas leve perante aquele cotidiano em que a penúria era uma constante.

     Quando jovem teve participação ativa no coro da igreja, onde as vozes privilegiadas tinham destaque em rezas, ladainhas e especialmente nas missas glorificadas ao som dos cânticos Gregorianos, misto de beleza etérea. Desdobrava-se agora com a família que construira. Alimentar a prole era algo que a consumia, o dinheiro era apertado para as constantes despesas.

     O marido suava semanalmente naquele serviço braçal e desgastante. Aos domingos folgava e logo a roda com amigos o esperava no boteco, ali o lazer principal resumia-se a bebericar a cachaça de alambique pura, oriunda das antigas fazendas dos senhores de engenho. Naquele ambiente o assunto corriqueiro permanecia sempre na pauta das fofocas que espalhavam-se na cidadezinha conservadora, ou  seja, o cotidiano das mulheres ousadas, valentes, dispostas a ganhar o mundo, conquistar a liberdade confinada no ambiente patriarcal opressor, limitando-as, punindo. "Santas ou pecadoras" suas vidas eram expostas a comentários intrigantes pelos espiões noturnos vagando feito zumbis em busca de assuntos picantes e comprometedores entre casais, numa curiosidade mórbida própria de mexeriqueiros. As moças visadas tornavam-se alvo preferido, e entre os muitos preconceitos pesava a exclusão do meio social do qual eram banidas.

    Por outro lado a rotina da jovem senhora não ia além da enfadonha mesmice diária, muita tarefas e obrigações para um descanso mínimo. Em certos períodos conseguia trabalho como doméstica em residência de autoridade local, sentia-se gratificada,  contribuía para o sustento da casa. No entanto, a jornada lucrativa transformou-se em  algo penoso, desgastante, sobrecarregando-a demasiado e expondo sinais visíveis do estresse como frases desconectadas fora do contexto real, embaralhando as ideias.  Passou a embalar-se na rede compulsivamente cantando uma única música sem cessar, dia e noite. Logo perceberam tratar-se de um surto psicótico, causando impacto estarrecedor à famila e amigos.

     A viagem para a capital aconteceu de forma solidária com o apoio das pessoas amigas. Seguiu acompanhada arrastando consigo a mesma triste melodia. O barco zarpou na madrugada levado pela brisa serena profetizando bons ventos. Lá fora, mar aberto, o grande oceano  mostrava-se receptivo apaziguando ondas agigantadas que dominavam a travessia inóspita, temerosa.

     Traumáticos foram os meses no hospital psiquiátrico.  Fustigada pelo choque elétrico como tratamento eficaz, porém desumano, mergulhava num submundo que a deixava estagnada, à mercê dos seus fantasmas numa vivência  surreal  tão quanto sua presença naquele lugar atípico, num  confronto cruel diante da loucura.

     No decorrer do tempo o tratamento mostrou explicitamente sua recuperação e o resgate da lucidez, ambos estampados na expressividade, que iluminava um rosto alegre em harmonia com o olhar sereno. A volta ao convívio social afirmava sua reconciliação com a vida. A paz interior havia retomado seu estado natural buscando reencontro com a família a serenidade maior que tanto almejava.




   

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Panfletagem (ou o Empijamado)


O estudante pulou apressado da cama e zonzo de sono se arrumou de qualquer jeito. Não botou a cara no espelho pelo menos para verificar a aparência, imaginou tudo em ordem. Foi juntar-se ao grupo, iam panfletar na porta de uma fábrica na grande São Paulo. Seguiram com a rapidez que o tempo exigia, o dia clareava e os operários agitavam com protestos e reivindicações.

Procedimento normal na rotina desses estudantes. Assíduos na militância política do início dos anos oitenta, onde a corrente estudantil a qual pertenciam exercia forte liderança nas escolas, diretórios e centro-acadêmicos. Engajados, empenhavam-se como outros tantos brasileiros pelo retorno da democracia ainda sob as amarras da ditadura. Eram muito jovens; movidos pelo idealismo, motivados na leitura, fortaleciam suas convicções. Espelhavam-se nos revolucionários, nos heróis, nos líderes, nos mártires e mitos. Miravam-se no grandioso legado bravamente conquistado por cada um. Participativos, atuantes em reuniões, seminários, assembléias, congressos, doavam-se nas tarefas noite adentro, madrugada afora, clandestinos, escondidos. Como todos que deram o suor, sangue e vida desejavam mudar, transformar. Um sonho inquietante de igualdade, justiça sem oprimidos nem opressores, palpitava no peito desses corajosos moças e moços.

Aquela manhã, além de produtiva para o grupo acabou inusitada também para o estudante, que após as atividades tratava de chegar em casa. À tarde trabalhava, à noite estudava. Nada fácil a jornada. Acomodou-se no ônibus, tinha pela frente um demorado caminho a percorrer. Pensou cochilar, não arriscou, o receio de perder a hora o despersuadiu. Quieto, observava o entra e sai dos passageiros, alguns demonstrando pressa nos compromissos, outros mais sossegados permitiam-se relaxar em assentos nada cômodos. De parada em parada subiam pessoas enfileirando-se em pé, formando uma composição de rostos, corpos e tipos. Calados ou falantes buscavam seus destinos.

Mal sabia o estudante que atração engraçada no ônibus pairava sobre ele. Com a característica distração (fazendo jus ao verso musical "eu vivo sempre no mundo da lua") acabou virando o motivo de cochichos e risinhos de um casal se divertindo do seu cômico traje: o surrado pijama que na correria da manhã esquecera de trocar. Entre as inconveniências destoavam grandes botões feito acessório desnecessário e jocoso. Uma companheira do grupo o cutucou, tarde demais, via-se o "jocoso" em pessoa. Fazer o que a essa altura do ridículo? Já vinha de longe paramentado assim, empijamado. Tentou disfarçar não tomando os olhares curiosos para si, procurando desvencilhar-se do constrangimento diante da situação incômoda, caricata. Não funcionou. Além de comedido era contido aos arroubos e improvisos.

Devagarinho foi se esgueirando, enfiando-se pelo meio daquele ônibus sacolejando cheio, abafado, até alcançar a porta, ponto estratégico da saída. Na rua pisou firme, encorajado, afinal estava somente há poucos metros de sentir-se aliviado. O episódio do pijama por um tempo esquecido, hoje vem à tona.

A esses arrojados militantes remanescentes de uma época significativa do País, nos quais incluo três filhos, presto minha admiração.






domingo, 28 de maio de 2017

Um monumento



        Na simplicidade dos seus traços geométricos mantem-se mais que secular centralizada na praça principal, referência expressiva à memória da cidade. Homenagem a um certo governador do Estado originou sua construção. Ela impávida, resiste ao acúmulo dos anos em que o tempo se encarrega de produzir desgaste lento e silencioso. Gerações e gerações usufruíram das brincadeiras em torno da lendária Pirâmide. Algazarras, correrias, cantigas de roda extravasavam alegria pueril sob o esplendor da lua reverenciando um céu deslumbrante, que inebriava de intenso brilho estelar. Políticos a usavam como tribuna para inflamados discursos eleitoreiros. No fim de tarde os garotos improvisavam pelada diante da Pirâmide, espectadora fiel e permanente. Divertiam-se movidos pela irreverencia e entusiasmo no ágil manejo com a bola, driblando afoitos na ânsia do gol a todo custo.

       Em noites soturnas, silenciosas, propícias aos furtivos amores, casais buscavam na Pirâmide refúgio e cumplicidade. Acobertou o mais fugaz dos flertes, o mais recatado ingênuo amor, a mais tórrida paixão proibida. Declarações, confidências, pactos segredados, idílicos encontros selavam juras entre namorados.

       Porém, a paz romântica muitas vezes via-se interrompida pelo foco da lanterna do bisbilhoteiro invasor à espreita de alguém em colóquio amoroso na pirâmide. Eram sempre homens movidos pela curiosidade perversa onde no alvo preferido destacava-se a mulher, com detalhe: a luz incidia diretamente sobre o rosto da moça deixando a exposta, vulnerável a maledicência da fofoca que no dia seguinte corria solta na cidadezinha. Consequentemente a jovem passava a ser mal vista no meio social pelas famílias como péssima amizade às suas pupilas.

        Uma rejeição explícita pela sociedade patriarcal fortalecendo e estimulando a discriminação, que acoplada ao preconceito marginalizava, ceifava a liberdade feminina.

       A Pirâmide, esse monumento de forte significação na minha terra não possui forma grandiosa, bela ou sequer rebuscada. Revela, porém, uma estética sóbria, harmônica, permeada pela aura enigmática de um certo fetiche que a sempre envolveu.  À distância, em meio às recordações me enterneço ao relembrá-la.

Outra viagem atípica



     O mar escancarava uma hostilidade mais que evidente em não facilitar a navegação aos barqueiros naquele dia. Tomado pela fúria, esbravejava; ondas intensas cresciam com dimensões assustadoras desafiando tempestades, ventanias num confronto sem previsão para trégua. As rajadas de vento passavam aceleradas assoviando; instigavam a luta e avançavam de encontro ao barco a vela de madeira que, na sua fragilidade rústica, via-se ameaçado em meio a peleja dramática singrando no montanhoso aguaceiro, driblando arrecifes e assim procurava desvencilhar-se da ira destrutiva dessas indomáveis forças da natureza.

     Grudado ao leme, a figura emblemática, heroica do mestre; manejava silencioso a embarcação atento, envolto pela cautela diante do oceano convulso em contorções e desequilíbrio.  Um acúmulo de pensamentos duvidosos lhe embaralhavam a mente, porém não admitia amedrontar-se ante a coragem que o fortalecia, sobrepondo-o ao temor que ameaçava tomá-lo como refém. Vez ou outra elevava o olhar esperançoso querendo vasculhar no alto do infinito algo apaziguador, que trouxesse amenidade à tormenta. E lá nas alturas vislumbrava um azul límpido deitado sobre o céu e o revestia por inteiro serenamente, enquanto a luminosidade solar inebriava como louvação a vida. Baixava a visão reflexivo olhando o oceano em estado de incessante embate.

     O mestre não só mostrava ser audacioso como era de fato, até porque a convivência, o conhecimento íntimo com o mar permitia ousar quando necessário fosse. Essa cumplicidade entre a navegação e barqueiro, desenvolvia de certa maneira vínculo, estreitamento diário quer seja dia, noite ou madrugada, onde o amanhecer muitas vezes surpreende os navegantes ao exibir um horizonte multicor agregando pedaços coloridos, traços, rabiscos que delineia algo abstrato, belo, indefinido diante da plenitude celestial contemplativa, gratificando como conforto a alma dos viajantes na solidão temerosa do oceano.

     A travessia hostil continuava, o mar amontoava-se em ondas impulsivas refazendo-se num processo dinâmico, louco, impulsionado pelo vento em permanente ameaça. Nenhuma paisagem amenizadora era vista aos olhos dos viajantes, somente a mesma cena repetitiva, bruta, mortal, hipnotizando. Os passageiros apegavam-se às rezas como escape amenizador perante tamanha apreensão e medo denunciado em cada olhar sofredor interrogativo. Tudo se movendo em total descompasso até se complicar mais ainda quando a vela principal da embarcação iniciou um rasgo que deflagrou risco grave iminente a todos. A tripulação ágil e no improviso conseguiu um certo equilíbrio, entretanto, não era nenhuma sustentação duradoura perante o enfrentamento que a situação oferecia. Cabia ao mestre a decisão definitiva, qual rumo seguir mediante o agravamento, que passava a comprometer a estrutura do arrojado, velho barco, sentenciado a dano maior, mas ainda assim resvalava com agilidade. 

O vento persistente varou a tarde, porém foi quebrando a impulsividade passando a demonstrar discreto abrandamento, e ao conter a fúria permitiu um cenário apaziguador onde finalmente cada um pode recompor-se diante da amenidade que começava despontar substituindo as horas conturbadas, tensas, aflitas quase desesperançosas. O sol brando com seu molejo displicente, escondia-se para os lados dos confins deixando para trás um avermelhado que declinava suave até descorar. Longe, muito além, um rastro fugidio caracterizava o poente.

     O barco expondo a vela arriada a meio mastro resistiu às intempéries podendo assim chegar ao destino resguardado, ainda que avariado. O burburinho juntou moradores em frente aos cais onde todos salientavam unanimemente: “ o  dia não estava destinado a navegar”.


     O mês era agosto; quando ele chega surpreende com a carga de ventos desestabilizadores agregados ao cotidiano. Estigmatizado pela superstição, porém respeitado e temido entre os barqueiros, torna-se de fato um mês diferenciado entre lendas e realidade.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Uma casa singular

          Naquela morada viviam três distintas senhoras carregadas de simpatia e afeto. A mais velha recebeu na juventude uma herança paterna: a profissão de ourives, nada comum às jovens do seu tempo até então disciplinadas, educadas para "prendas do lar". Um mundo essencialmente feminino dedicado à exclusividade domestica, que impunha regras de comportamento e extenso aprendizado de trabalhos manuais, requisitos indispensáveis à formação de uma dona de casa "prendada". 

      A dedicação pelo oficio lhe impulsionou a esmerar-se na criação de jóias sob encomenda tornando-se primorosa artesã, que a fez tomar para si a responsabilidade de provedora da casa. Nas horas livres voltava-se à leitura. Tudo que lhe chegava em mãos lia com avidez curiosa de aprendiz mantendo certo fascínio pelos romances construídos nos enredos e segredos engenhosos das tramas amorosas, sedutoras. Nas tardes mornas espreguiçava-se na rede num puro deleite acarinhada pela aragem soprando mansa ao seu redor. Gostava daquele vento brando que chegava quieto carregando indolência, inebriando paz liberta, envolvente de inteiro devaneio. Apegava-se também à Seleções Reader`s Digest,  revista de expressiva circulação à época e
de enorme aceitação pela elite conservadora do País, que publicava histórias anticomunistas nas quais o império norte-americano demonizava o comunismo incutindo terror e pânico nos leitores com suas matérias. Porém, no decorrer dos anos as certezas da senhora diluíram-se enveredando por dúvidas e questionamentos sobre a verdade dos fatos, mas guardando consigo resquícios do temor que os relatos e boatos do regime soviético exerceram em sua infância.  Lendas assustadoras repassadas pelos mais antigos  sugestionavam as cabecinhas infantis distanciando-as da realidade. Recordava, ainda, uma oração rezada em contrito apelo que proporcionava alívio e bálsamo espiritual atenuando o medo ao finalizar: "Senhor livrai-nos do comunismo".
     
      Perante a inevitável velhice definia-se uma senhora contida nas ambições de novos desafios. Os sonhos esvaíram-se em meio a inquietantes descobertas na ávida juventude. Longe datavam os arroubos de outrora. Alinhava-se, então, atrelada numa serenidade que a nova fase ofertava. Olhar complacente, ponderada;  reflexiva para ouvir, julgar, acolher.  Na  mocidade, desejou encontrar um marido, mas a sorte não a favoreceu - emendava, disparando a gargalhada irônica, descontraída. Desistiu, fadada à condição e estigma de solteirona.

      A irmã do meio com sua espontaneidade mostrava de fato ser a mais alegre, extrovertida. Pulsava com ela uma alegria sem esbanjamento, serena, iluminando-a de cativante simpatia. Como mãe solteira carregava a difícil responsabilidade de criar o filho sozinha na ausência da figura paterna, motivo para exercer o papel maternal com desdobramento visceral emergindo das entranhas, do âmago. Amava sua cria determinada a protegê-la, defendê-la. Por outro lado, o preconceito grassava como praga nas patrulhas que vigiavam o cotidiano das mulheres tomando conta de suas vidas: oprimia, excluía, marginalizava. Mirava obsessivamente as mães solteiras, descasadas, as "moças mal faladas". Ela não era exceção, ardiam todas na fogueira permanente da língua ferina da cidadezinha.

          Cabia a irmã do meio a obrigação diária que a casa exigia, uma jornada exaustiva de trabalho frequente. Das tarefas encontrava prazer em garimpar livros, e revistas para a irmã leitora, ocupação e lazer que a desobrigava-a dos afazeres enfadonhos. Sublimou assim uma paixão secreta jamais exteriorizada, não permitindo ao coração escancarar, viver o sentimento que ameaçava arrebatá-la. Sufocou-o tomada pelo ímpeto que acreditava sensato, prudente, todavia, permeada de melancolia.  A casa das senhoras consistia numa combinação elaborada de coisas simples, despojadas. Da varanda estendia-se o peitoril escorregando em ligeira curva indo acabar na cozinha artesanal ressaltando características similares ao modelo e uso nas demais residências. O fogão, alimentado por toras de lenhas queimava durante o dia nutrindo fagulhas; permanecia aceso para o momento de ser requisitado. Enquanto isso, o tacho de cobre, entrosado às panelas de ferro e barro, gozava privilégio ante sua, prestigiosa serventia na alquimia e preparo refinado dos doces manejados ao capricho das irmãs, ao sabor do conhecimento que dispunham. A casa emanava agradável bem estar. Caminhando pela sala percebia-se um silêncio vigilante, estagnado, tomando conta daquele ambiente. Espécie de guardião rijo, ríspido, que zelava pela intocável arrumação onde móveis, objetos e tudo mais permaneciam sem desordem qualquer cativos nos lugares definidos.  Dos quartos em dias encalorados soava o ranger das escápulas: cantiga dissonante repetida de extrema  familiaridade aos ouvidos. Ali as irmãs refrescavam-se aos embalos nas redes.

     Atrelado aos fundos da morada o quintal apresentava visão paisagística espaçosa, verdejante, multiplicada no período chuvoso contínuo em que a natureza brotava, expandia diversificada abarrotando a terra fazendo renascer exuberante formosura. Árvores frutíferas sombreavam deitando extensas copas que facilitava o ir e vir da passarinhada disparando gorjeios frequentes. Dispunha ainda o quintal de um aglomerado rasteiro de flores minúsculas graciosas entapetando o chão, fazendo nascer salpicos de cores vivas, permitindo ao ciclame transluzir seu exotismo.  Outras mimosas delicadas sustentavam-se nos caules finos onde o vento ardiloso ameaçava quebrá-los. Adiante existia um espaço diferenciado servindo de abrigo e privilégio das plantas medicinais favorecendo o desenvolvimento e  distanciando-as do importuno das galinhas.  

        A terceira irmã, a mais nova, podia-se dizer uma senhora voltada a pensamentos lógicos, decisões práticas; afinal, conduzia a vida exercitando a plenitude racional estruturada no aprendizado com o qual chegara à maturidade. Era de fato polida, educada até no falar. Prezava a língua  portuguesa, expressava-se numa excelente linguagem  recheada pelo extenso e variado vocabulário. Demonstração de pureza vernacular, entretanto, sem pretensão nenhuma ao exibicionismo ou presunção qualquer. Era algo que fluía natural explanando pensamentos, guiada pela eloquente racionalidade. Buscava nas aulas particulares a pequena fonte de renda. Ali extravasava plena dedicação;  doava-se prazerosa à vocação didática ao incutir nos jovens conhecimento além do que buscavam. Porém na relação a dois pouco permitia ser conduzida ou induzida pelo arroubo apaixonado  Não era dada ao deslumbramento  amoroso e muito menos ao amor intenso, cultuado, idolatrado. Procurava distanciar-se das artimanhas ilusórias sentimentais. Preferia não alçar voos inconsequentes, mas manter os pés no chão.  Recusou-se casar não pela falta de pretendentes - já vivia aos flertes com o pensar liberto procurando desvencilhar-se das amarras e dogmas instituídos pela cultura patriarcal relegando as mulheres à condição subalterna, onde a união matrimonial se tornava espécie de convivência arbitrária de posse e poder, ou seja, com marido comandando o núcleo familiar em demonstração de autoritarismo. Gostava de enfatizar suas ideias motivada pela lucidez e convicção. Curiosamente observava o cotidiano feminino: vigiado, impregnado pelas limitações, tolhido. Via-o como clausura social impondo rígidos conceitos à mulher, subordinando-a também à exclusividade no lar. Expor opiniões contestadoras deixava-a visivelmente marcada aos olhos do preconceito, mas não era de dar ouvidos a rótulos ou depreciamentos, sobrepunha-se. Ao transgredir escancarava uma coragem que transitava entre rebeldia e liberdade.

     Acima da personalidade marcante de cada irmã predominava a cumplicidade, sedimentada  sobre o vínculo do entrelaço afetivo mantendo-as  coesas. Souberam lidar diante das escolhas e opções, mesmo que intuitivas, imbuídas com determinação perante um aparato de "valores" que cercearam, aprisionaram as mulheres gerações a fio em tempos extremamente longos, implacáveis.