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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O Horário


Pois é, o horário de verão íntimo de uma boa parte dos brasileiros não deixa de ser novidade quando mostra a cara por essa temporada.

Com ele reaparece a velha querela. Os que se deleitam com a mudança, afinal usufruem melhor o tempo, quer no trabalho, quer no retorno ansioso para casa, nas compras, no lazer e na curtição, principalmente se o dia é daqueles festejados pelo Sol, combinação perfeita. E aqueles do outro lado, o pessoal que não o aplaude, que dentro das suas convicções não vêem motivos para saudá-lo visto se sentirem lesados por um horário manipulador, que vira de ponta a cabeça o relógio biológico das pessoas, interferindo no sono, obrigando-as madrugarem mais cedo, no serviço, enfim, que altera significativamente a rotina de todos.

Sinceramente não sinto maior apreço pela mudança. Embaralha, sim, meus horários. Desregula, impõe adaptações, remexe o dia a dia com a sensação de horas curtas voando. Quando sinto que me acomodei aos mandos e desmandos do horário fictício o seu tempo de permanência corre por um fio, esgotando-se para satisfação dos descontentes e desprazer de outros tantos.

Toda uma revolução girando em torno de quatro meses!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Vila Mariana




O bairro da Vila Mariana vive uma evolução imobiliária espantosa. Comercialmente cresceu bastante. Lugares pacatos viraram uma efervescência só. Muitas moradias sucumbiram às ofertas das empresas construtoras, que num abrir e fechar de olhos erguem prédios e logo acenam com fachadas modernas criando verdadeiro chamariz atraindo compradores.

Ruas que outrora formavam fileiras de casas, jardins e tranqüilidade perderam referência com a transformação em um novo cenário feito de espigões.

Na França Pinto prédios despontam empinando-se, exibindo a imponência da especulação imobiliária, demonstrando poder a qualquer custo. A paróquia de Santo Ignácio em pouco tempo terá seus momentos de liturgia e paz perturbados, sacudidos por bate-estaca e outras inconveniências que as grandes construções acarretam ao local tirando-lhe a calma.

A Vila se estruturou bem; restaurantes, lojas, supermercados, faculdades várias e pequenos bares vão surgindo, transformando-se em points de universitários numa constante ebulição. Não deixa de ser agradável conviver nesse trecho da cidade, embora como em outros lugares desenvolveu características negativas próprias das metrópoles e centros urbanos.

Já adotei São Paulo como minha segunda terra. Paixão inquestionável, amor conquistado nos trinta anos de convivência na rotina e cotidiano, muitas vezes tumultuado, estressante, mas incorporado amavelmente a minha vida.

E nesse paradoxo escuto o bem-te-vi; com aproximação da primavera disparam a cantar forte, estridentes, como anunciando boa nova. O canto fez me lembrar um poema de Manuel Bandeira:

ANDORINHA lá fora está dizendo:

-“Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!

Passei a vida à toa, à toa...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Maranhão




O pesado frio que estancou sobre esta cidade semanas atrás levou-me a buscar refúgio nas lembranças prazerosas da minha terra, sem deter-me no lado obscuro do clã usurpador que age como se fosse donatário de capitania hereditária.

Em agosto dá-se o inicio do estio no Maranhão. As chuvas volumosas que causam danos, estragos à região cessam para ceder lugar ao sol e ventos muitas vezes desafiadores, nada propícios a navegar ; outros dias chegam feito aragem: brando, ventando suave, fagueiro entre coqueiros e folhagens. A paisagem desbotada pelas sucessivas chuvas revigora-se; uma celebração duradoura da natureza exibindo exuberância aos olhos do visitante. É o verão assim conhecido por lá. O Maranhão encontra-se muito próximo à linha do Equador, beneficiando-se de um bom clima sem agruras dos invernos gelados. Situa-se entre o Norte e o Nordeste, o que o fez assimilar costume, tradição, das duas regiões, mostrando características visíveis da região amazônica com florestas cortadas por rios, igapós, sobressaindo frutas nativas: bacuri, murici, cupuaçu, juçara, buriti entre outras exóticas para os estrangeiros. Saborosas em cremes, sucos e doces.

Sob influência indígena, africana, portuguesa, nasceu a cultura do Maranhão, e dessa miscigenação a culinária extraiu sua essências na diversificada mistura de gostos, hábitos, temperos, condimentos e ervas, aliados à contribuição sírio e libanesa. O litoral maranhense tem vasta opção. Escolhas variadas de peixes e frutos do mar proporcionando composição de bons pratos e sabores que agradam satisfazem o turista, como o arroz de cuxá servido com as tortas de camarão ou caranguejo, ou sururu, ou então saboreado com peixe frito, que gostoso! Embora seja suspeita em opinar, recomendo ainda o vatapá, caruru e demais comidas regionais que surpreendem quem imagina uma culinária restrita.

São Luís é uma ilha. O centro histórico da cidade tem uma arquitetura talhada no molde português: casarões, sobradões, azulejos, mármores, registram a permanência do colonizador. Um conjunto arquitetônico bonito, porém mal conservado pelo poder público.

Em junho irrompem as festividades do folclore da terra. Resplandece o bumba--boi, espetáculo tradicional bastante conhecido. O enredo centrado nas figuras de Catirina, o boi e pai Francisco movimenta-se entre toadas, diálogos e coreografias, introduzindo personagens, dando dimensão à história. O brincante, rajado de fitas, solta a voz balança o corpo no ritmo do sotaque; sacode o maracá, deixa alegria fluir entre um gole e outro de cachaça. O boi cintila: lantejoulas, canutilhos, paetês transformam o couro bordado a capricho em uma obra de arte.

O tambor de crioula apreciado o ano inteiro é também destaque turístico. As mulheres dançam livres sem técnica, descontraídas, enquanto os homens tocam. Saias coloridas rodam levadas pela magia dos tambores e das cantorias. No auge surge a pungada: num gesto rápido, ligeiro, encostam barriga com barriga chamando dessa forma outra parceira para entrar na roda. A origem do tambor remonta aos escravos, louvavam e agradeciam São Benedito pela graça alcançada. Tem ainda a festa do Divino Espírito Santo, o Congo, muitas brincadeiras, manifestações folclóricas do Estado, que contribuem para enriquecer a cultura popular do país.

Encerro com alusão ao guaraná Jesus, tipicamente maranhense, lendário na tradição; um farmacêutico criou a formula e deu o seu nome a esse refrigerante de cor rosa e forte sabor de infância. Marcante nos aniversários, batizados, casamentos, festas, compartilhou gerações. Borbulhava deliciando a criançada. Permanece atrativo, atraente ao jovens, meus netos que o digam.

Neste breve apanhado de descrições juntei uma compacta alegoria de imagens, cores, dança, emoção e prazer.

sábado, 9 de julho de 2011

O frio deste inverno








O frio deste inverno chegou insolente, abusado, desrespeitoso, invasivo, escandaloso, indecente

Invade o corpo, desnuda minh'alma, expõe fragilidades, fraquezas e temores.

Decreto que o frio deste inverno seja:

Interditado,

Extraditado,

Degredado.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Brisa e Faísca



        Brisa e Faísca, que dupla! Em determinadas horas vivem a literal relação cão e gato entre latidos, miados  e rosnados desferidos um contra o outro num clima de hostilidade e desafeto sem fim. Ela, nervosa fora do eixo; ele, lampeiro extravasando incessante energia. De repente, vem uma calmaria inesperada no estilo paz e ternura, deitados lado a lado, entregues ao descanso e a trégua momentânea.

        Brisa é uma cadelinha lhasa mais ou menos; segundo os entendidos está mais para mistura com maltez do que lhasa propriamente dito. Sendo assim um pedigree meia boca, detalhe, apenas. Nada lhe altera a docilidade, a alegria com seus pulos e o rabo abanando euforicamente cortejando aqueles que estima. Fácil conquistá-la. Bandoleira, cativa o mundo.Também tem momentos de total rabugice latindo cismada, imaginando um companheiro em seu território pleiteando o seu espaço. Late compulsiva, perdidamente até alguém acudir aos apelos. Nutre por sua dona, minha filha mais nova, veneração das maiores numa fidelidade ímpar.

        Já o Faísca, o tal Faisquinha, é um caso sério, seríssimo. Filhote de gato nos seus cinco meses aproximados. Dá para imaginar o que um gatinho nessa idade é capaz de aprontar? Cara de bonzinho e tão danadinho... Inicialmente enjeitado miando na rua, tiritando tremendo, prestes a sucumbir caiu de para-quedas aqui em casa. Não se tinha interesse em aceitá-lo, mas comoveu os moradores. Sentindo-se aboletado, bastou para exibir a peraltices que os felinos trazem naturalmente no instinto. Formas diversas de adaptação e de sobrevivência no ambiente em que vive e convive. Ágil em correr, subir, pular, caçar, despencar das alturas, esconder-se nos inimagináveis e absurdos lugares, ou acomodar-se confortavelmente às vistas de todos numa pose de bibelô sui generis. As crianças o carregam feito um mimo que ele retribui felicíssimo rorrosnando, sentindo o afago das pequenas mãos que o acariciam.

        Ah, para incrementar as estripulias do Faísca descobriram o sósia do malandrinho, a semelhança não é pouca, confunde. Já o devolveram em casa várias vezes tomando-o pelo Faísca fujão, perdido e sem rumo. Acaba se tornando engraçado. Ao sósia pelo visto não agrada ser só: escapa de sua morada, foge, dribla, some vagueia para depois retornar a condição de sozinho.

        De resto é esperar o tempo apaziguar a pinimba da dupla. Cada um no seu lugar sem interferir no domínio do outro. Até lá muitas águas vão rolar.

terça-feira, 8 de março de 2011

Maria Firmina dos Reis


Apesar de ser considerada por alguns autores como a primeira romancista brasileira - seu livro Úrsula é de 1859 - pouco se sabe da vida desta maritalmente bastarda e negra.

Nascida em São Luís (1825-1927) disputou em 1847 uma vaga para a cadeira de professora de primeiras letras em Guimarães.

Orgulhosa com a vitória da filha, a mãe alugou um palaquins - espécie de cadeira carregada por dois ou mais escravos - para que fosse receber o documento de nomeação.

Revoltada, Maria Firmina recusou, afirmando que o negro não era animal para se andar montado nele!

Contrária a escravidão em suas atitudes, também usou os seus escritos para denunciá-la.

Acreditava que a escravidão contradizia os princípios do cristianismo, que ensinava o homem a amar o próximo como a si mesmo.

Via o escravo como uma pessoa digna, capaz de sentimentos nobres mesmo tendo vivido tantos anos sob o regime degradante do cativeiro.

Seu livro Úrsula pode ser considerado o primeiro romance abolicionista escrito por uma brasileira; colaborou ainda na imprensa local com poesias e contos; escreveu um livro em comemoração ao 13 de maio, além de ser autora de vários folguedos.

Aos 55 anos, um ano antes de se aposentar do magistério público oficial, fundou em Guimarães uma escola mista e gratuita para crianças pobres.

Como professora era enérgica, mas falava baixo e não usava castigos corporais.

Quem se lembra dela, na casa dos 80 anos, fala da velhinha negra de cabelos grisalhos, amarrados atrás da nuca, vestida de roupas escuras e sandálias.

Apesar de pobre e solteira, teve alguns filhos adotivos e inúmeros afilhados.

Faleceu cega, aos 92 anos de idade, na casa de uma amiga ex-escrava, e até hoje em Guimarães "a uma mulher inteligente e instruída chamam: Maria Firmina!"

FONTE: Morais Fº. Nascimento, Maria Firmina dos Reis: Fragmentos de uma vida. São Luis, S.C.p., 1975





quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Aniversário da amiga

O regresso da jovem aconteceria em poucos dias, inquieta não cabia em si por essa espera. Tudo dava a entender que nada a segurava por mais tempo. Já não bastavam as praias a perder de vista com a sensação de liberdade sem fim; nem o mar oscilando na beleza entre o verde e azul levando a sonhar; nem o sol e o vento misturando cumplicidade poética; nem o exotismo das iguarias de dar água na boca seduzindo irresistivelmente. Ansiava chegar, ver, sentir, olhar, extasiar-se abismada (como se fosse a primeira vez) diante da metrópole que exala o bem e o mal.

Coincidência ou não o retorno aconteceu no exato dia do seu aniversário. A mesa arrumada oferecia variedades diversas. Cerveja de prontidão geladinha era promessa de uma noite festiva. A recepção pegou-lhe de surpresa. Ausente somente o indispensável bolo, por enquanto, porque a toda hora alguém alardeava: - Tá chegando, tá chegando...

Criava expectativa, despertava risadas. No zum, zum,zum das conversas todos falavam, o que não faltavam eram palpites e palpiteiros. Diante da informalidade, nada mais natural naquele momento que a descontração entre amigos. Determinada hora chega um rapaz com cara de emissário compenetrado, vai até a cozinha e solta o recado: "Estou aqui para avisar que o bolo não vai demorar, aliás, está nos últimos retoques da cobertura. Tem mais, traz uma surpresa de cair o queixo." Pronunciou-se feito mensageiro e partiu. "Êpa, o que será?" Murmurou alguém entre os dentes. Outra voz levantou-se: "Ah, essa surpresa me deixa de orelha em pé, desconfio que... " Calou-se. O comentário deixou um suspense rondando. A aniversariante simplesmente gargalhou, sentia-se feliz e ponto final.

A moça encarregada do preparo do bolo era veterana em salgados e doces, competente na culinária, verdade seja dita. Às vezes improvisava criando novidade, alternativa experimental, tentando redescobrir outros sabores, angariando clientes. Sendo amiga da aniversariante podia se esperar o mais bonito, o mais caprichado, o mais saboroso bolo. De antemão nada podia ser colocado em cheque.

A noite, embalada pela temperatura de um outono quente dos melhores, contribuía para esquecer o carrancudo inverno prestes a dar as caras e trazer no seu rastro frente fria, massa polar, céu cinzento, semblantes sisudos... O jasmineiro ao lado da porta exibia dupla vaidade: flores e aroma recepcionando quem chegava. Cheiro gostoso agradando a todos.

Enfim a moça adentra abraçada ao bolo. Animada, animadíssima, desculpou-se e num palavreado breve sem arroubo dirige-se à aniversariante: " Amiga maravilhosa, os cristais decorando o bolo são talismãs carregados de bons fluídos, energia positiva, sorte e... " não concluiu. Estalaram palmas, fiu-fiu para todo lado, parabéns em coro cantado, gritado e tudo que aniversariante tem direito em dia de comemoração. Os primeiros pedaços são servidos a dois amigos curiosos, ansiosos e  foram eles a escancarar em alto e bom tom:

- O bolo é puro sal. Não dá pra encarar!

Impacto. Gargalhadas aos montes. Interrogações. Cada um beliscava o bolo, tirava lasquinha, opinava. As suposições eram as mais esdrúxulas: alquimia, energia cósmica e até sortilégio atribuíram ao mal sucedido bolo. Os cristais rebaixados a mera condição de sal grosso provocaram estrago pra valer. O bolo não passava de uma salina, impossível de degustar. Permaneceu assim mesmo no centro da mesa, simbolicamente.

A moça, pasma, perdeu-se nas explicações. Titubeou, embaralhou-se, tentou outro discurso, falhou, não convenceu. Apelou e numa última tentativa tascou o popular chavão: "Nada a declarar". Cessou o rebuliço, as especulações, a festa retornou animada de um entusiasmo salgado e esfusiante.