Hotwords

terça-feira, 8 de março de 2011

Maria Firmina dos Reis


Apesar de ser considerada por alguns autores como a primeira romancista brasileira - seu livro Úrsula é de 1859 - pouco se sabe da vida desta maritalmente bastarda e negra.

Nascida em São Luís (1825-1927) disputou em 1847 uma vaga para a cadeira de professora de primeiras letras em Guimarães.

Orgulhosa com a vitória da filha, a mãe alugou um palaquins - espécie de cadeira carregada por dois ou mais escravos - para que fosse receber o documento de nomeação.

Revoltada, Maria Firmina recusou, afirmando que o negro não era animal para se andar montado nele!

Contrária a escravidão em suas atitudes, também usou os seus escritos para denunciá-la.

Acreditava que a escravidão contradizia os princípios do cristianismo, que ensinava o homem a amar o próximo como a si mesmo.

Via o escravo como uma pessoa digna, capaz de sentimentos nobres mesmo tendo vivido tantos anos sob o regime degradante do cativeiro.

Seu livro Úrsula pode ser considerado o primeiro romance abolicionista escrito por uma brasileira; colaborou ainda na imprensa local com poesias e contos; escreveu um livro em comemoração ao 13 de maio, além de ser autora de vários folguedos.

Aos 55 anos, um ano antes de se aposentar do magistério público oficial, fundou em Guimarães uma escola mista e gratuita para crianças pobres.

Como professora era enérgica, mas falava baixo e não usava castigos corporais.

Quem se lembra dela, na casa dos 80 anos, fala da velhinha negra de cabelos grisalhos, amarrados atrás da nuca, vestida de roupas escuras e sandálias.

Apesar de pobre e solteira, teve alguns filhos adotivos e inúmeros afilhados.

Faleceu cega, aos 92 anos de idade, na casa de uma amiga ex-escrava, e até hoje em Guimarães "a uma mulher inteligente e instruída chamam: Maria Firmina!"

FONTE: Morais Fº. Nascimento, Maria Firmina dos Reis: Fragmentos de uma vida. São Luis, S.C.p., 1975





quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Aniversário da amiga

O regresso da jovem aconteceria em poucos dias, inquieta não cabia em si por essa espera. Tudo dava a entender que nada a segurava por mais tempo. Já não bastavam as praias a perder de vista com a sensação de liberdade sem fim; nem o mar oscilando na beleza entre o verde e azul levando a sonhar; nem o sol e o vento misturando cumplicidade poética; nem o exotismo das iguarias de dar água na boca seduzindo irresistivelmente. Ansiava chegar, ver, sentir, olhar, extasiar-se abismada (como se fosse a primeira vez) diante da metrópole que exala o bem e o mal.

Coincidência ou não o retorno aconteceu no exato dia do seu aniversário. A mesa arrumada oferecia variedades diversas. Cerveja de prontidão geladinha era promessa de uma noite festiva. A recepção pegou-lhe de surpresa. Ausente somente o indispensável bolo, por enquanto, porque a toda hora alguém alardeava: - Tá chegando, tá chegando...

Criava expectativa, despertava risadas. No zum, zum,zum das conversas todos falavam, o que não faltavam eram palpites e palpiteiros. Diante da informalidade, nada mais natural naquele momento que a descontração entre amigos. Determinada hora chega um rapaz com cara de emissário compenetrado, vai até a cozinha e solta o recado: "Estou aqui para avisar que o bolo não vai demorar, aliás, está nos últimos retoques da cobertura. Tem mais, traz uma surpresa de cair o queixo." Pronunciou-se feito mensageiro e partiu. "Êpa, o que será?" Murmurou alguém entre os dentes. Outra voz levantou-se: "Ah, essa surpresa me deixa de orelha em pé, desconfio que... " Calou-se. O comentário deixou um suspense rondando. A aniversariante simplesmente gargalhou, sentia-se feliz e ponto final.

A moça encarregada do preparo do bolo era veterana em salgados e doces, competente na culinária, verdade seja dita. Às vezes improvisava criando novidade, alternativa experimental, tentando redescobrir outros sabores, angariando clientes. Sendo amiga da aniversariante podia se esperar o mais bonito, o mais caprichado, o mais saboroso bolo. De antemão nada podia ser colocado em cheque.

A noite, embalada pela temperatura de um outono quente dos melhores, contribuía para esquecer o carrancudo inverno prestes a dar as caras e trazer no seu rastro frente fria, massa polar, céu cinzento, semblantes sisudos... O jasmineiro ao lado da porta exibia dupla vaidade: flores e aroma recepcionando quem chegava. Cheiro gostoso agradando a todos.

Enfim a moça adentra abraçada ao bolo. Animada, animadíssima, desculpou-se e num palavreado breve sem arroubo dirige-se à aniversariante: " Amiga maravilhosa, os cristais decorando o bolo são talismãs carregados de bons fluídos, energia positiva, sorte e... " não concluiu. Estalaram palmas, fiu-fiu para todo lado, parabéns em coro cantado, gritado e tudo que aniversariante tem direito em dia de comemoração. Os primeiros pedaços são servidos a dois amigos curiosos, ansiosos e  foram eles a escancarar em alto e bom tom:

- O bolo é puro sal. Não dá pra encarar!

Impacto. Gargalhadas aos montes. Interrogações. Cada um beliscava o bolo, tirava lasquinha, opinava. As suposições eram as mais esdrúxulas: alquimia, energia cósmica e até sortilégio atribuíram ao mal sucedido bolo. Os cristais rebaixados a mera condição de sal grosso provocaram estrago pra valer. O bolo não passava de uma salina, impossível de degustar. Permaneceu assim mesmo no centro da mesa, simbolicamente.

A moça, pasma, perdeu-se nas explicações. Titubeou, embaralhou-se, tentou outro discurso, falhou, não convenceu. Apelou e numa última tentativa tascou o popular chavão: "Nada a declarar". Cessou o rebuliço, as especulações, a festa retornou animada de um entusiasmo salgado e esfusiante.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Rebeldia


Diariamente o barulho forte do rock paulera tomava conta da casa, tumultuando os ouvidos e a concentração dos que desejavam descanso. O vinil rolava à vontade no aparelho de som, tocando músicas que davam maior ênfase à rebeldia. Entre várias sobressaía aquela em que papai Noel perdia toda a aura de bom velhinho, sendo desclassificado aos berros: "Papai Noel, velho batuta, porco capitalista...'' Era a mistura punk e anarquista da contestação, ousadia, protesto, despertando curiosidade e admiração no adolescente.

Caracterizava-se a rigor para as festas: moicano, coturno, roupas extravagantes e alfinetes estilizando o figurino. Mas nem só de aparência vivia o jovem, ao contrário, procurou ler a origem do movimento punk, assim como foi buscar também na leitura a vida de Bakunin, sua teoria e concepção sobre o movimento anarquista. Logo, argumentava embasado em um conhecimento que fazia parte da história dos movimentos sociais surgidos em vários lugares do mundo.

Um dia o adolescente surpreendeu. Em vez da frequente barulheira que irrompia, surgiu um tranquilo som passeando pelo ambiente, resgatando a serenidade musical com uma melodia agradável que dava gosto escutar: "Tarde em Itapuã" de Vinicius de Morais.

Mostrava-se evidente, o início de uma nova fase aguçando novas descobertas, instigando outros questionamentos, revendo comportamentos e atitudes inerentes à adolescência.

Do punk ao anarquismo algo de positivo ficou.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os aguaceiros


A zona de convergência de que tanto falam meteorologistas nos noticiários, pelo visto deve ser a grande vilã das catástrofes que vem assolando nossa gente. E o quinhão de culpa dos governantes, onde fica? O prometido foi cumprido ou negligenciaram? Vê-se a repetição do desassossego e dor novamente.

Tem uma história que escutava quando criança na minha terra. Diz a fábula, que no período chuvoso urubu prometia tirar as aves daquela tormenta pela qual passavam, penduradas nos galhos das árvores buscando abrigo, encharcadas do aguaceiro. Empenhado, comovido, garantia dar-lhes casa e sossego, livrando-as do padecimento. Todos esperançosos apegavam-se à promessa dos melhores dias que iriam chegar. No entanto, assim que suspendia a chuvarada e o sol mostrava a cara com todo brilho e firmeza, urubu sumia no mundo; debandava, esquecia tudo. Só queria voar, flanar, bater asas, usufruir o melhor. O prometido deixava a Deus dará.

É isso. Repetem-se as mesmas tragédias, renovam as mesmas promessas. Aos nossos olhos um janeiro mais uma vez carregado de destruições: incessantes chuvas, tempestades, fúrias, horror, tristeza. Os verões continuam marcados pela desolação e medo. Vidas e sonhos rolam ribanceiras abaixo. Corpos, destroços, um amontoado de perdas.

Por quantas estações ainda viveremos a fábula do urubu?


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Carga Pesada




A fazenda era extensa, a perder de vista, com suntuoso sobradão erguido em meio a paisagem bucólica formada de matas, rios; conduzindo ao sossego e contemplação. A capela, ornada com imagens do barroco, dava mais uma mostra da ostentação que pairava naquele lugar.

Morava ali um dos últimos herdeiros, uma senhora descendente de portugueses, que acumularam vasto latifúndio para aquelas bandas: muita terra, grande fortuna, tamanha exploração. Remanescentes de escravos viviam ainda sob o jugo da obediência serviçal, sem voz e sem vez.

Periodicamente, a senhora visitava a cidade no intuito de respirar novidades. Léguas, quilômetros distanciavam a fazenda até lá. Um percurso difícil, torturante para os que a carregavam deitada na rede. Bem arrumada, estendia-se a gorda senhora com pompas e jóias, enquanto os quatro negros com força e sacrifício revezavam-se levando nos ombros a pesada carga e uma escravidão que para eles ainda continuava.

domingo, 12 de dezembro de 2010

O Prosador


A visita que resolveu fazer aos amigos surgiu num estalo a idéia. Aquele dia inspirador, bonito, primaveril, talvez o tenha convencido a um passeio extravagante como esse.

Chegou arrumado, uma pinta de barão, todo chique, trazendo o guarda-chuva pendurado no braço como se assim fosse uma elegante bengala; sempre prosador, bom papo. Nessa tarde, então, andava de um lado a outro explanando idéias, opiniões, ora radicais, outras vezes amenas. Divergia, apoiava com entusiasmo empolgante, animador. Queria conversar, rever todos.

A certa hora, mediante animação envolvendo o ambiente, apresentaram ao amigo visitante uma cachaça que surpreendentemente não conhecia nem de nome: Tiquira. Logo cresceu o olho e não se fez de rogado em experimentar. Gostou. Passou a bebericar, a princípio moderadamente. Um gole aqui, outro acolá, e de gole em gole, entre observações gabava-se de nunca ter sido derrubado por nenhuma danada. Com o decorrer da prosa, os discretos goles passaram a escancaradas talagadas, dando sinais de possível nocaute pela então recém-apresentada Tiquira. Era evidente.

A tarde foi se tornando morna, o sol baixando, a noitinha chegando e o amigo já trocava as pernas. Procurava disfarçar o tremendo pileque, tremendamente visível, apoiando-se no guarda-chuva reduzido à bengala. Mas o pior, talvez, seria aquela ressaca moral do dia seguinte a perturbar-lhe as idéias, cobrando o acontecimento que não desejava e não queria lembrar tão cedo. E balançando o corpo, postado frente à garrafa, ele arrastava a voz em meio a uma frase que tirou não sei de onde, e repetia num insistente, cansativo bordão:

- Ah! Então foi essa que derrubou o guarda?! Foi essa?.. Então foi...

As palavras iam perdendo-se entre risadas, gracinhas, piadas, nascendo assim uma boa história a render por um bom tempo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Na rua de blusa amarela

Bandeiras, faixas, músicas, espalhavam-se por toda praça e manifestações corriam o país inteiro. Sopravam bons ventos, um sinal de tempo novo fazia-se vir. O tempo era então das Diretas Já.

Coragem, determinação pulsavam firme no coração e empenho da União de Mulheres de São Paulo. Destemida, atuante, sempre na linha de frente das lutas mobilizava-se mais uma vez nessa arrancada que sacudia o país. A praça Ramos de Azevedo tornava-se referencial, ponto de encontro das mulheres empenhadas nesse novo contexto político; ali fervia o entusiasmo e a paixão pela causa: passeatas, cartazes, panfletos, botons, camisetas. Palavras de ordem desfilavam ante os olhos de simpatizantes, observadores e curiosos. Otimismo dominava naquele ambiente cívico desejoso de transformação. O microfone funcionava em clima de tribuna livre, espaço democrático a todos ansiosos de expressar idéias e sentimentos.

Os tons rosa-choque, lilás, predominavam enfeitando nossos cabelos. Fazíamos flores de papel crepom, simbolizando nossa luta naquela jornada de patriotismo. Sem êxito, o Brasil chorou.