Cresci ouvindo e vendo tipos populares inofensivos perambulando pela minha cidade, despertando curiosidades de todos. Viviam nas praças, ruas, ladeiras, becos, por todos os cantos, criando situações inusitadas extremamente engraçadas. Eram vários em São Luís no Maranhão: loucos, semi-loucos, pseudo doidos formando um mundo irreal, real de traços pitorescos. Dessas figuras guardei na memória dois, Vassoura e Periquito.
O primeiro era atrevido, bocudo, o palavrão corria solto na boca, usava-o como defesa para atingir quem o provocasse, bastava alguém chamá-lo pelo apelido. Geralmente quem o fazia corria, não esperava para ouvir o que vinha depois. Lembro-me de uma dessas passagens. Eu era pequena ainda, estava debruçada no muro da casa de uma amiga de mamãe quando alguém num impulso de provocação e gracejo gritou: - Vassoura! Ele, num furor de maluco foi rápido, imediato na resposta, que chegou aos meus ouvidos de criança: “é a bochecha da tua mãe!” Saí correndo assustada, repeti para as pessoas o que havia escutado. Todos riram, não entendi porque achavam tanta graça se eu estava com tanto medo! Passaram-se anos e ouvi mamãe contar a mesma história, rindo novamente, aí entendi o verdadeiro palavrão que Vassoura ofendia o tal provocador.
O outro tipo, Periquito, tinha qualquer coisa que assemelhava-se realmente a um periquito, talvez o rosto por inteiro. Baixinho, magro, meio calvo, meio velho não insultava nem gritava, era o inverso de Vassoura. Tinha a aparência tranquila e andar devagar. Trajava-se lembrando um escoteiro com o indispensável lenço no pescoço. Carregava sempre um papelão preso num pequeno pedaço de madeira e nele escrevia o que lhe vinha na cabeça mostrando por toda parte. Por essa época eu já era uma jovem estudante do Instituto Rosa Castro e morava em pensionato. Essa rotina não tinha grande alteração: às sete da manhã iniciava a primeira aula, cedo levantava-me movida pelo prazer de encontrar amigas, namorado, sentir a liberdade por inteira. Todos os dias percorria a extensa Rua Grande com uma amiga também do mesmo colégio, esse era o caminho preferido para chegarmos até a escola. Na volta, fazia outro percurso, porém com amigas de classe; o retorno então era mais lento, aproveitávamos para flertar com os garotos. Na Rua Grande concentrava-se o comércio principal da cidade; de manhãzinha permanecia silenciosa, só alguns botequins iniciavam o trabalho do dia, entrávamos então no primeiro que estivesse com portas abertas e comprávamos um picolé. Numa dessas rotinas, Periquito nos acompanhou até o boteco, recostou-se no balcão, escreveu qualquer coisa que ninguém deu importância e se apressou em nos mostrar, recusávamos lhe dar atenção, voltou a insistir exibindo o cartaz aos nossos olhos e surpreendeu-nos com a frase fixada a nossa frente: “ O Maranhão está cheio de lindas louras e mimosas morenas.” Aquela frase de impacto recheada de elogio, galanteio, nos despertou da preguiça e do sono que ainda carregávamos no corpo e vinda de Periquito, era demais! Aliás, ele quase não falava, nunca o vi balbuciar qualquer palavra, os cartazes tornavam-se porta-voz da sua vontade e sentimento. Naquele instante estampava-se explicitamente no seu rosto um indisfarçável sorriso, que era todo prazer em agradar duas adolescentes que riam descontroladas diante do inesperado. Sem dúvida éramos nós as contempladas também. Minha amiga, loura, olhos verdes, corpo violão, que refletia o padrão de beleza da época. Eu, morena, traços delicados, bonitinha, diziam, expressão que detestava, porque na verdade queria as curvas generosas que os anos cinquenta tanto propalava às mulheres; e ser “bonitinha” pra mim enfatizava ainda mais meu corpo magro que em nada me agradava. Sintetizando, eu era o anti-padrão de uma geração onde predominavam as formas exuberantes. Periquito, naquele momento sem saber me redimia da condição de bonitinha, que eu rejeitava. Aceitava ser “mimosa morena” com todo prazer, preferia a qualquer outro diminutivo.
E parafraseando o grande Manoel Bandeira, exalto: “Quero antes o lirismo dos loucos”...
Cida 1998