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domingo, 22 de agosto de 2010

Seu Chang






Corre pela Vila o boato que seu Chang vai passar o ponto, mudar de endereço e descansar em duas confortáveis aposentadorias. A notícia me pegou de surpresa, fiquei perplexa. Logo eu que compro na caderneta, já tenho a cerveja geladinha de reserva e o tira gosto bem ao estilo chinês ficar agora à mercê de outro dono bom caráter ou mal caráter, nem pensar! Nessa venda, seu Chang é insubstituível. A boa turma do bate-papo e do funil começa articular um apelo: cartazes afetivos que vão tocar em cheio a sensibilidade do bom chinês.Mas só cartazes é pouquissimo, devem esquematizar algo certeiro. Um abaixo assinado talvez fale mais alto com assinaturas de peso encabeçadas por Roberto; aí sim, vai balançar os alicerces da emoção do velho Chang. Tudo isso para segurá-lo ainda é pouco, ele vale mais. Muito mais.

De cada frequentador do empório sabe a bebida, dose certa e hora de servi-lo. Na disputa pela cerveja reserva no fríser a marca e preferência de cada um. A tolerância estende-se ao fiado, permitido ao freguês que conquista a sua confiança. Benditos fiado e caderneta, velhos cúmplices, parceiros dissimulados. O surrealismo ali é permanente."Empório Santa Terezinha", poucos sabem que esse é o verdadeiro nome. No entanto a placa está lá, desgastada e suja. Pombos arrulham nas prateleiras, cachorro e gatos fraternos entre si enroscam-se nas mercadorias; poeira, velharia, passado e presente lento. Nenhum conforto, porém acolhedor. Política, fofocas, histórias, risadas, piadas. Cotidiano mesclado, mastigado, degustado ou expelido no empório

Quando instigado, o bom chinês fala um pouco de si. Foi da guarda de Chiang Kai Chek: nacionalistas e comunistas lutando na guerra civil. Em 1948, derrotados, rumaram para Formosa e lá empregou-se como funcionário de um banco.O tempo correu e em 1973 ele chegou ao Brasil, São Paulo, Tatuapé. Como meio de vida buscou o comércio instalando-se no início de 1980 na Vila Mariana. Por coincidência eu também estava chegando. Nordestina, migrava carregando luta, labuta, filhos, num itinerário que era a mesma Vila Mariana. Dessa forma acabamos sendo vizinhos e o tempo encarregou-se de nos tornar amigos.

Chang Chin Ping é mais que uma crônica. Um poema concreto, correto, discreto. A maturidade não o dobrou, permanece esguio como as palmeiras da minha terra que o vento não verga, só balança. O pé de meia já fez e as filhas vivem no exterior, bem cuidadas. A fórmula para não envelhecer ninguém sabe talvez o chá que toma o dia inteiro.

Continuo intrigada, procuro saber a verdade do boato. O riso largo do seu Chang, o olho fechando dão a certeza da permanência de tudo e todos. Pombos, gatos, cachorro continuarão a exercer domínio no empório.

Outubro/1995



Um tipo folclórico


O temporal desabava e ele no meio da estrada ou embrenhado no mato não se molhava. Podia despencar raio, tempestade, todo malefício do mundo nada o atingia. Tinha o corpo fechado, todos diziam.

Esse boato era antigo a respeito de um feiticeiro temido, que além da fama ainda se transformava em bode, assustando, botando para correr alguém que estivesse ao seu alcance. Curioso em tudo isso é que o tipo dele não correspondia às proezas ditas a seu respeito: baixinho, magro, todo franzino, um homem calado de olhar desconfiado. No entanto era o surrealismo em pessoa. Morava pobremente em um povoado cercado dessas histórias que tomavam forma e proporções de acordo com o imaginário de quem as contavam.

Sempre descalço e as canelas finas igual graveto empoeiradas de estrada, onde caminhava léguas até a cidade para chegar ao itinerário, que era quase sempre o mesmo: a farmácia. Esse saci de duas pernas despertava medo nas crianças, que escondiam-se para espiá-lo com a curiosidade ingênua da infância. Mostrava-se arredio, voz de pouca fala, cauteloso. Carregava o dinheiro em um lenço branco que conduzia amarrado consigo, e assim pagava as miudezas compradas nas quitandas. Envolvido por esse folclore que lhe confiava aura de bruxo debandava deixando no rastro lenda e assombração.

Para minha terra, Guimarães



Espiei pela fresta da janela, amanhecia ainda. A barra do dia se mostrava inteira, formosa, avermelhada sobre a pureza do azul que dominava o firmamento por inteiro. Uma manhã que não despertara de vez: nenhuma alma viva transitava, sussurro sequer se ouvia, total silêncio, exceto os galhos das árvores guiados pela leveza da brisa balançavam em pequenos movimentos. A aurora renascia tomada pela paz harmoniosa que vigiava a cidadezinha sem pressa de acordar.

Contemplei o espetáculo, prazer e nostalgia partilhavam comigo esse retorno de longa ausência.

A terra-mãe tão amada me afagava, sentia-me lisonjeada

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O cachorro da minha infância





Chegou lá em casa ainda pequeno, um vira-lata malandrinho preto, mirrado, que ganhei do meu padrinho, um senhor que pouquíssimas vezes vi e nenhum contato tive, a não ser no dia que levou o cachorrinho e com ele nos braços e entusiasmado disse ser meu. Gostei, mas achei estranho o nome que trazia pomposo até, não soava certo para animal, imaginava; "Gaucho", precioso presente que logo se adaptou ao nosso convívio e com o decorrer dos anos tornou-se fiel amigo.

Já adulto às vezes sentava-se aos pés de mamãe no cartório e enquanto ela trabalhava não permitia nenhum estranho entrar; rosnava bravamente avançando contra aquele que imaginava ser invasor. A disputa por Gaucho girava entre mim e o primo Manoel, que esperava fazer do vira-lata um campeão de briga capaz de desbancar qualquer um; porém, existia sim em Guimarães, um cão feroz imbatível, era o cachorro de seu Cândido, um comerciante que trazia seu vigia preso no quintal tornando-o dessa forma mais brabo ainda e bom de luta. Mas sempre que havia oportunidade meu primo levava Gaucho ao encontro do inimigo e não dava outra: voltava o pobre animal todo mordido, sangrando, lapeado pelo cachorro de seu Cândido. Passava tempo, Gaucho se recuperava e a disputa retomava, outra baixa para ele, ferido, vencido e dessa forma foram muitas e tantas vezes até que um dia, grande dia, voltou o primo de alma lavada, o sorriso e a empolgação iam de um lado a outro da boca. Gaucho bateu no inimigo, venceu na briga, não era mais perdedor. Agora o vira-lata vagabundo tinha feito algo do qual podíamos nos orgulhar, ganhara do imbatível, aquele que entre a cerca do quintal ameaçava devorar os cães quando passavam perto. Ainda não satisfeito de colocar Gaucho no patamar dos cachorros de briga, meu primo certo dia testou o cachorro a prova de fogo, empurrando-o da janela do sobrado onde morávamos. O animal tinha o hábito de cochilar ali, seu lugar preferido para sossego e numa dessas o fez despencar lá embaixo. Por sorte e graça de Deus o cachorro levantou-se intacto.

Gaucho era muito presente no cotidiano da casa, nos acompanhava a qualquer parte. Quando saíamos para as festas da igreja ou baile ele ficava preso a uma corda grossa para não escapar: inútil, roia a corda e logo estava juntinho de nós. Certa noite, eu representava fazendo um pequeno teatro onde meu papel resumia-se a uma borboleta dentro de um círculo de jovens, todas caracterizadas de flores cantando uma bonita valsa onde o refrão dizia:

“voa minha linda borboleta / voa procurando a emoção / voa pois a vida é tão boa / quando se tem o amor no coração”

Eu, toda prosa estilizada com a roupa de cetim azul, dançando, abrindo asas entre as flores, exibindo minha vaidade infantil para a platéia e de repente, não sei como nem de onde surgiu Gaucho sacudindo o rabo cheio de alegria pulando em cima de mim no palco. Um grande susto e muitas risadas, fiquei murcha, sem vivacidade, ele roubou a cena.

Gaucho envelheceu. Andava lento, o ímpeto da bravura deu lugar a calma. Vivia quase só deitado, um velho cão carregando na idade seus dias de glória e desafios. Vagaroso farejava tranqüilo pela rua sem atormentar os porcos nem correr atrás das galinhas que mariscavam com pintinhos. O máximo a se atrever ainda era abocanhar moscas quando o importunavam no seu descanso. Por esse tempo em Guimarães já circulavam caminhão, trator, jipe pela cidade, foi então que o velho Gaucho acabou sendo vítima de um desses carros. Atropelado não pode mais andar. Definitivamente, a parte trazeira do animal não sustentava mais o corpo e o remédio caseiro não produzia qualquer efeito, estava praticamente terminal, mas nem assim mamãe admitia que o sacrificassem, jamais, era totalmente contra. Porém, dona Salu, cozinheira antiga da nossa casa agiu por conta própria:misturando veneno na comida dando fim ao sofrimento do animal. A verdade só veio à tona muito tempo depois.Não presenciei essa passagem do meu cachorro, me encontrava em São Luis do Maranhão estudando. A infância já tinha ficado longe.

De Gaucho guardo uma foto em preto e branco. Estamos juntos. Ele exibindo garbosamente sua valentia que eu nitidamente consigo vislumbrar como se fosse hoje. Nem Freud explica, só a emoção.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Vassoura e Periquito

Cresci ouvindo e vendo tipos populares inofensivos perambulando pela minha cidade, despertando curiosidades de todos. Viviam nas praças, ruas, ladeiras, becos, por todos os cantos, criando situações inusitadas extremamente engraçadas. Eram vários em São Luís no Maranhão: loucos, semi-loucos, pseudo doidos formando um mundo irreal, real de traços pitorescos. Dessas figuras guardei na memória dois, Vassoura e Periquito.

O primeiro era atrevido, bocudo, o palavrão corria solto na boca, usava-o como defesa para atingir quem o provocasse, bastava alguém chamá-lo pelo apelido. Geralmente quem o fazia corria, não esperava para ouvir o que vinha depois. Lembro-me de uma dessas passagens. Eu era pequena ainda, estava debruçada no muro da casa de uma amiga de mamãe quando alguém num impulso de provocação e gracejo gritou: - Vassoura! Ele, num furor de maluco foi rápido, imediato na resposta, que chegou aos meus ouvidos de criança: “é a bochecha da tua mãe!” Saí correndo assustada, repeti para as pessoas o que havia escutado. Todos riram, não entendi porque achavam tanta graça se eu estava com tanto medo! Passaram-se anos e ouvi mamãe contar a mesma história, rindo novamente, aí entendi o verdadeiro palavrão que Vassoura ofendia o tal provocador.

O outro tipo, Periquito, tinha qualquer coisa que assemelhava-se realmente a um periquito, talvez o rosto por inteiro. Baixinho, magro, meio calvo, meio velho não insultava nem gritava, era o inverso de Vassoura. Tinha a aparência tranquila e andar devagar. Trajava-se lembrando um escoteiro com o indispensável lenço no pescoço. Carregava sempre um papelão preso num pequeno pedaço de madeira e nele escrevia o que lhe vinha na cabeça mostrando por toda parte. Por essa época eu já era uma jovem estudante do Instituto Rosa Castro e morava em pensionato. Essa rotina não tinha grande alteração: às sete da manhã iniciava a primeira aula, cedo levantava-me movida pelo prazer de encontrar amigas, namorado, sentir a liberdade por inteira. Todos os dias percorria a extensa Rua Grande com uma amiga também do mesmo colégio, esse era o caminho preferido para chegarmos até a escola. Na volta, fazia outro percurso, porém com amigas de classe; o retorno então era mais lento, aproveitávamos para flertar com os garotos. Na Rua Grande concentrava-se o comércio principal da cidade; de manhãzinha permanecia silenciosa, só alguns botequins iniciavam o trabalho do dia, entrávamos então no primeiro que estivesse com portas abertas e comprávamos um picolé. Numa dessas rotinas, Periquito nos acompanhou até o boteco, recostou-se no balcão, escreveu qualquer coisa que ninguém deu importância e se apressou em nos mostrar, recusávamos lhe dar atenção, voltou a insistir exibindo o cartaz aos nossos olhos e surpreendeu-nos com a frase fixada a nossa frente: “ O Maranhão está cheio de lindas louras e mimosas morenas.” Aquela frase de impacto recheada de elogio, galanteio, nos despertou da preguiça e do sono que ainda carregávamos no corpo e vinda de Periquito, era demais! Aliás, ele quase não falava, nunca o vi balbuciar qualquer palavra, os cartazes tornavam-se porta-voz da sua vontade e sentimento. Naquele instante estampava-se explicitamente no seu rosto um indisfarçável sorriso, que era todo prazer em agradar duas adolescentes que riam descontroladas diante do inesperado. Sem dúvida éramos nós as contempladas também. Minha amiga, loura, olhos verdes, corpo violão, que refletia o padrão de beleza da época. Eu, morena, traços delicados, bonitinha, diziam, expressão que detestava, porque na verdade queria as curvas generosas que os anos cinquenta tanto propalava às mulheres; e ser “bonitinha” pra mim enfatizava ainda mais meu corpo magro que em nada me agradava. Sintetizando, eu era o anti-padrão de uma geração onde predominavam as formas exuberantes. Periquito, naquele momento sem saber me redimia da condição de bonitinha, que eu rejeitava. Aceitava ser “mimosa morena” com todo prazer, preferia a qualquer outro diminutivo.

E parafraseando o grande Manoel Bandeira, exalto: “Quero antes o lirismo dos loucos”...

Cida 1998

Tipo popular de Guimarães (2)

Dona Estrina virava bicho em forma de porca. Esse folclore era contado por pessoas narrando em detalhes, dando ênfase cheios de seriedade e medo.

Uma inofensiva velhinha pequenina, de expressão sisuda, macambúzia, que ao mesmo tempo lembrava bruxa dos contos mágicos de carochinha. Andava apoiada com um bastão que lhe assegurava caminhar mais firme na companhia de seus cachorros que tanto estimava. As roupas que usava, mal cortadas, mal feitas de chita ordinária, se estendiam até os pés em total humildade. Um dos lados do rosto chamava atenção para um detalhe nada comum, um calombo grande se destacava formando saliente bola, algo estranho que ninguém sabia explicar.

Tinha um olhar mesclado de piedade, sofrimento, e sua vida resguardava em silencio cercada de penúria extrema, dependendo da esmola dos mais aquinhoados para a sobrevivência. Na palhoça onde vivia, apenas a rede e um velho mocho acomodado na minúscula cozinha, onde geralmente sentava-se para as baforadas no cachimbo, olhando calada as tacurubas espremidas entre a minguada lenha e a fumaça que se estendia procurando fenecer longe daquela tristeza.

Era benzedeira e minha infância esteve sob a proteção de suas rezas; benzimentos com galhos de arruda e palavras balbuciadas quase incompreensíveis, afastando para longe o quebranto, o mau olhado. Certo dia, deu-me um tajá que deveria cuidá-lo e não permitir que retirassem alguma muda. Espécie de amuleto que não entendia o significado, não compreendia a simbologia de tudo aquilo.

Uma vez em poucas palavras resumiu o sumiço do filho, o qual procurava não falar: - foi devorado por onça nas matas do Pará. Dor e amargura que o coração guardava e não gostava de remexer. Trágica, sinistra história que não recontou.

sábado, 17 de julho de 2010

As férias em Guimarães

Sempre que chegava em Guimarães procurava esquecer aquela vidinha contida em pensionato, colégio e usufruía o que verdadeiramente desejava: liberdade e tudo que pudesse dar prazer a uma adolescente - festas, passeios, namoradinhos e amigas.