As manhãs nasciam esperançosas para ela, apesar da labuta árdua onde o alvorecer a encontrava na cozinha preparando a parca marmita que o marido levava para o trabalho. Semanalmente era assim, diante do precário fogão a lenha sem infraestrutura qualquer deixava-se devanear em momentos sonhadores, soltando a voz afinada permitindo à canção fluir harmoniosa, alegre, bonita. Outras vezes surgia um canto nostálgico, arrastando-se numa melodia saudosista logo dispersada pela gargalhada espontânea, irreverente e assim a vida se mostrava mas leve perante aquele cotidiano em que a penúria era uma constante.
Quando jovem teve participação ativa no coro da igreja, onde as vozes privilegiadas tinham destaque em rezas, ladainhas e especialmente nas missas glorificadas ao som dos cânticos Gregorianos, misto de beleza etérea. Desdobrava-se agora com a família que construira. Alimentar a prole era algo que a consumia, o dinheiro era apertado para as constantes despesas.
O marido suava semanalmente naquele serviço braçal e desgastante. Aos domingos folgava e logo a roda com amigos o esperava no boteco, ali o lazer principal resumia-se a bebericar a cachaça de alambique pura, oriunda das antigas fazendas dos senhores de engenho. Naquele ambiente o assunto corriqueiro permanecia sempre na pauta das fofocas que espalhavam-se na cidadezinha conservadora, ou seja, o cotidiano das mulheres ousadas, valentes, dispostas a ganhar o mundo, conquistar a liberdade confinada no ambiente patriarcal opressor, limitando-as, punindo. "Santas ou pecadoras" suas vidas eram expostas a comentários intrigantes pelos espiões noturnos vagando feito zumbis em busca de assuntos picantes e comprometedores entre casais, numa curiosidade mórbida própria de mexeriqueiros. As moças visadas tornavam-se alvo preferido, e entre os muitos preconceitos pesava a exclusão do meio social do qual eram banidas.
Por outro lado a rotina da jovem senhora não ia além da enfadonha mesmice diária, muita tarefas e obrigações para um descanso mínimo. Em certos períodos conseguia trabalho como doméstica em residência de autoridade local, sentia-se gratificada, contribuía para o sustento da casa. No entanto, a jornada lucrativa transformou-se em algo penoso, desgastante, sobrecarregando-a demasiado e expondo sinais visíveis do estresse como frases desconectadas fora do contexto real, embaralhando as ideias. Passou a embalar-se na rede compulsivamente cantando uma única música sem cessar, dia e noite. Logo perceberam tratar-se de um surto psicótico, causando impacto estarrecedor à famila e amigos.
A viagem para a capital aconteceu de forma solidária com o apoio das pessoas amigas. Seguiu acompanhada arrastando consigo a mesma triste melodia. O barco zarpou na madrugada levado pela brisa serena profetizando bons ventos. Lá fora, mar aberto, o grande oceano mostrava-se receptivo apaziguando ondas agigantadas que dominavam a travessia inóspita, temerosa.
Traumáticos foram os meses no hospital psiquiátrico. Fustigada pelo choque elétrico como tratamento eficaz, porém desumano, mergulhava num submundo que a deixava estagnada, à mercê dos seus fantasmas numa vivência surreal tão quanto sua presença naquele lugar atípico, num confronto cruel diante da loucura.
No decorrer do tempo o tratamento mostrou explicitamente sua recuperação e o resgate da lucidez, ambos estampados na expressividade, que iluminava um rosto alegre em harmonia com o olhar sereno. A volta ao convívio social afirmava sua reconciliação com a vida. A paz interior havia retomado seu estado natural buscando reencontro com a família a serenidade maior que tanto almejava.
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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
Panfletagem (ou o Empijamado)

O estudante pulou apressado da cama e zonzo de sono se arrumou de qualquer jeito. Não botou a cara no espelho pelo menos para verificar a aparência, imaginou tudo em ordem. Foi juntar-se ao grupo, iam panfletar na porta de uma fábrica na grande São Paulo. Seguiram com a rapidez que o tempo exigia, o dia clareava e os operários agitavam com protestos e reivindicações.
Procedimento normal na rotina desses estudantes. Assíduos na militância política do início dos anos oitenta, onde a corrente estudantil a qual pertenciam exercia forte liderança nas escolas, diretórios e centro-acadêmicos. Engajados, empenhavam-se como outros tantos brasileiros pelo retorno da democracia ainda sob as amarras da ditadura. Eram muito jovens; movidos pelo idealismo, motivados na leitura, fortaleciam suas convicções. Espelhavam-se nos revolucionários, nos heróis, nos líderes, nos mártires e mitos. Miravam-se no grandioso legado bravamente conquistado por cada um. Participativos, atuantes em reuniões, seminários, assembléias, congressos, doavam-se nas tarefas noite adentro, madrugada afora, clandestinos, escondidos. Como todos que deram o suor, sangue e vida desejavam mudar, transformar. Um sonho inquietante de igualdade, justiça sem oprimidos nem opressores, palpitava no peito desses corajosos moças e moços.
Aquela manhã, além de produtiva para o grupo acabou inusitada também para o estudante, que após as atividades tratava de chegar em casa. À tarde trabalhava, à noite estudava. Nada fácil a jornada. Acomodou-se no ônibus, tinha pela frente um demorado caminho a percorrer. Pensou cochilar, não arriscou, o receio de perder a hora o despersuadiu. Quieto, observava o entra e sai dos passageiros, alguns demonstrando pressa nos compromissos, outros mais sossegados permitiam-se relaxar em assentos nada cômodos. De parada em parada subiam pessoas enfileirando-se em pé, formando uma composição de rostos, corpos e tipos. Calados ou falantes buscavam seus destinos.
Mal sabia o estudante que atração engraçada no ônibus pairava sobre ele. Com a característica distração (fazendo jus ao verso musical "eu vivo sempre no mundo da lua") acabou virando o motivo de cochichos e risinhos de um casal se divertindo do seu cômico traje: o surrado pijama que na correria da manhã esquecera de trocar. Entre as inconveniências destoavam grandes botões feito acessório desnecessário e jocoso. Uma companheira do grupo o cutucou, tarde demais, via-se o "jocoso" em pessoa. Fazer o que a essa altura do ridículo? Já vinha de longe paramentado assim, empijamado. Tentou disfarçar não tomando os olhares curiosos para si, procurando desvencilhar-se do constrangimento diante da situação incômoda, caricata. Não funcionou. Além de comedido era contido aos arroubos e improvisos.
Devagarinho foi se esgueirando, enfiando-se pelo meio daquele ônibus sacolejando cheio, abafado, até alcançar a porta, ponto estratégico da saída. Na rua pisou firme, encorajado, afinal estava somente há poucos metros de sentir-se aliviado. O episódio do pijama por um tempo esquecido, hoje vem à tona.
A esses arrojados militantes remanescentes de uma época significativa do País, nos quais incluo três filhos, presto minha admiração.
domingo, 28 de maio de 2017
Um monumento
Na
simplicidade dos seus traços geométricos mantem-se mais que secular
centralizada na praça principal, referência expressiva à memória da cidade. Homenagem
a um certo governador do Estado originou sua construção. Ela impávida, resiste
ao acúmulo dos anos em que o tempo se encarrega de produzir desgaste lento e silencioso.
Gerações e gerações usufruíram das brincadeiras em torno da lendária Pirâmide. Algazarras,
correrias, cantigas de roda extravasavam alegria pueril sob o esplendor da lua reverenciando um céu deslumbrante, que inebriava de intenso brilho estelar.
Políticos a usavam como tribuna para inflamados discursos eleitoreiros. No fim
de tarde os garotos improvisavam pelada diante da Pirâmide, espectadora fiel e
permanente. Divertiam-se movidos pela irreverencia e entusiasmo no ágil manejo
com a bola, driblando afoitos na ânsia do gol a todo custo.
Em noites
soturnas, silenciosas, propícias aos furtivos amores, casais buscavam na
Pirâmide refúgio e cumplicidade. Acobertou o mais fugaz dos flertes, o mais
recatado ingênuo amor, a mais tórrida paixão proibida. Declarações,
confidências, pactos segredados, idílicos encontros selavam juras entre
namorados.
Porém, a paz
romântica muitas vezes via-se interrompida pelo foco da lanterna do
bisbilhoteiro invasor à espreita de alguém em colóquio amoroso na pirâmide.
Eram sempre homens movidos pela curiosidade perversa onde no alvo preferido
destacava-se a mulher, com detalhe: a luz incidia diretamente sobre o rosto da
moça deixando a exposta, vulnerável a maledicência da fofoca que no dia
seguinte corria solta na cidadezinha. Consequentemente a jovem passava a ser mal
vista no meio social pelas famílias como péssima amizade às suas pupilas.
Uma rejeição
explícita pela sociedade patriarcal fortalecendo e estimulando a discriminação, que acoplada ao preconceito marginalizava, ceifava a liberdade feminina.
A Pirâmide,
esse monumento de forte significação na minha terra não possui forma
grandiosa, bela ou sequer rebuscada. Revela, porém, uma estética sóbria,
harmônica, permeada pela aura enigmática de um certo fetiche que a sempre
envolveu. À distância, em meio às
recordações me enterneço ao relembrá-la.
Outra viagem atípica
O mar escancarava uma hostilidade mais que evidente em não
facilitar a navegação aos barqueiros naquele dia. Tomado pela fúria, esbravejava;
ondas intensas cresciam com dimensões assustadoras desafiando tempestades,
ventanias num confronto sem previsão para trégua. As rajadas de vento passavam
aceleradas assoviando; instigavam a luta e avançavam de encontro ao barco a
vela de madeira que, na sua fragilidade rústica, via-se ameaçado em meio a
peleja dramática singrando no montanhoso aguaceiro, driblando arrecifes e assim
procurava desvencilhar-se da ira destrutiva dessas indomáveis forças da
natureza.
Grudado ao leme, a
figura emblemática, heroica do mestre; manejava silencioso a embarcação atento,
envolto pela cautela diante do oceano convulso em contorções e
desequilíbrio. Um acúmulo de pensamentos
duvidosos lhe embaralhavam a mente, porém não admitia amedrontar-se ante a
coragem que o fortalecia, sobrepondo-o ao temor que ameaçava tomá-lo como refém.
Vez ou outra elevava o olhar esperançoso querendo vasculhar no alto do infinito
algo apaziguador, que trouxesse amenidade à tormenta. E lá nas alturas vislumbrava um azul límpido deitado sobre o céu e o revestia por inteiro
serenamente, enquanto a luminosidade solar inebriava como louvação a vida.
Baixava a visão reflexivo olhando o oceano em estado de incessante embate.
O mestre não só
mostrava ser audacioso como era de fato, até porque a convivência, o
conhecimento íntimo com o mar permitia ousar quando necessário fosse. Essa
cumplicidade entre a navegação e barqueiro, desenvolvia de certa maneira
vínculo, estreitamento diário quer seja dia, noite ou madrugada, onde o
amanhecer muitas vezes surpreende os navegantes ao exibir um horizonte multicor agregando pedaços coloridos, traços,
rabiscos que delineia algo abstrato, belo, indefinido diante da plenitude
celestial contemplativa, gratificando como conforto a alma dos viajantes na
solidão temerosa do oceano.
A travessia hostil
continuava, o mar amontoava-se em ondas impulsivas refazendo-se num processo
dinâmico, louco, impulsionado pelo vento em permanente ameaça. Nenhuma paisagem
amenizadora era vista aos olhos dos viajantes, somente a mesma cena repetitiva,
bruta, mortal, hipnotizando. Os passageiros apegavam-se às rezas como escape
amenizador perante tamanha apreensão e medo denunciado em cada olhar sofredor
interrogativo. Tudo se movendo em total descompasso até se complicar mais ainda
quando a vela principal da embarcação iniciou um rasgo que deflagrou risco
grave iminente a todos. A tripulação ágil e no improviso conseguiu um certo
equilíbrio, entretanto, não era nenhuma sustentação duradoura perante o
enfrentamento que a situação oferecia. Cabia ao mestre a decisão definitiva,
qual rumo seguir mediante o agravamento, que passava a comprometer a estrutura
do arrojado, velho barco, sentenciado a dano maior, mas ainda assim resvalava
com agilidade.
O vento persistente varou a tarde, porém foi quebrando a impulsividade passando a demonstrar discreto abrandamento, e ao conter a fúria permitiu um cenário apaziguador onde finalmente cada um pode recompor-se diante da amenidade que começava despontar substituindo as horas conturbadas, tensas, aflitas quase desesperançosas. O sol brando com seu molejo displicente, escondia-se para os lados dos confins deixando para trás um avermelhado que declinava suave até descorar. Longe, muito além, um rastro fugidio caracterizava o poente.
O vento persistente varou a tarde, porém foi quebrando a impulsividade passando a demonstrar discreto abrandamento, e ao conter a fúria permitiu um cenário apaziguador onde finalmente cada um pode recompor-se diante da amenidade que começava despontar substituindo as horas conturbadas, tensas, aflitas quase desesperançosas. O sol brando com seu molejo displicente, escondia-se para os lados dos confins deixando para trás um avermelhado que declinava suave até descorar. Longe, muito além, um rastro fugidio caracterizava o poente.
O barco expondo a
vela arriada a meio mastro resistiu às intempéries podendo assim chegar ao
destino resguardado, ainda que avariado. O burburinho juntou moradores em
frente aos cais onde todos salientavam unanimemente: “ o dia não estava
destinado a navegar”.
O mês era agosto; quando ele chega
surpreende com a carga de ventos desestabilizadores agregados ao cotidiano.
Estigmatizado pela superstição, porém respeitado e temido entre os barqueiros,
torna-se de fato um mês diferenciado entre lendas e realidade.
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
Uma casa singular
Naquela morada viviam três
distintas senhoras carregadas de simpatia e afeto. A mais velha recebeu na
juventude uma herança paterna: a profissão de ourives, nada comum às
jovens do seu tempo até então disciplinadas, educadas para "prendas do
lar". Um mundo essencialmente feminino dedicado à exclusividade domestica,
que impunha regras de comportamento e extenso aprendizado de trabalhos manuais,
requisitos indispensáveis à formação de uma dona de casa "prendada".
A dedicação pelo oficio lhe impulsionou a esmerar-se na criação de jóias sob encomenda tornando-se primorosa artesã, que a fez tomar para si a responsabilidade de provedora da casa. Nas horas livres voltava-se à leitura. Tudo que lhe chegava em mãos lia com avidez curiosa de aprendiz mantendo certo fascínio pelos romances construídos nos enredos e segredos engenhosos das tramas amorosas, sedutoras. Nas tardes mornas espreguiçava-se na rede num puro deleite acarinhada pela aragem soprando mansa ao seu redor. Gostava daquele vento brando que chegava quieto carregando indolência, inebriando paz liberta, envolvente de inteiro devaneio. Apegava-se também à Seleções Reader`s Digest, revista de expressiva circulação à época e de enorme aceitação pela elite conservadora do País, que publicava histórias anticomunistas nas quais o império norte-americano demonizava o comunismo incutindo terror e pânico nos leitores com suas matérias. Porém, no decorrer dos anos as certezas da senhora diluíram-se enveredando por dúvidas e questionamentos sobre a verdade dos fatos, mas guardando consigo resquícios do temor que os relatos e boatos do regime soviético exerceram em sua infância. Lendas assustadoras repassadas pelos mais antigos sugestionavam as cabecinhas infantis distanciando-as da realidade. Recordava, ainda, uma oração rezada em contrito apelo que proporcionava alívio e bálsamo espiritual atenuando o medo ao finalizar: "Senhor livrai-nos do comunismo".
Perante a inevitável velhice definia-se uma senhora contida nas ambições
de novos desafios. Os sonhos esvaíram-se em meio a inquietantes descobertas na
ávida juventude. Longe datavam os arroubos de outrora. Alinhava-se, então, atrelada
numa serenidade que a nova fase ofertava. Olhar complacente, ponderada; reflexiva
para ouvir, julgar, acolher. Na mocidade, desejou encontrar um
marido, mas a sorte não a favoreceu - emendava, disparando a gargalhada
irônica, descontraída. Desistiu, fadada à condição e estigma de solteirona.
A irmã do meio com sua espontaneidade
mostrava de fato ser a mais alegre, extrovertida. Pulsava com ela uma alegria
sem esbanjamento, serena, iluminando-a de cativante simpatia. Como mãe solteira
carregava a difícil responsabilidade de criar o filho sozinha na
ausência da figura paterna, motivo para exercer o papel maternal com
desdobramento visceral emergindo das entranhas, do âmago. Amava sua cria
determinada a protegê-la, defendê-la. Por outro lado, o preconceito grassava como
praga nas patrulhas que vigiavam o cotidiano das mulheres tomando conta de suas
vidas: oprimia, excluía, marginalizava. Mirava obsessivamente as mães
solteiras, descasadas, as "moças mal faladas". Ela não
era exceção, ardiam todas na fogueira permanente da língua ferina da
cidadezinha.
Cabia a irmã do meio a obrigação diária que a casa
exigia, uma jornada exaustiva de trabalho frequente. Das tarefas encontrava
prazer em garimpar livros, e revistas para a irmã leitora, ocupação e lazer que
a desobrigava-a dos afazeres enfadonhos. Sublimou assim uma paixão secreta
jamais exteriorizada, não permitindo ao coração escancarar, viver o sentimento
que ameaçava arrebatá-la. Sufocou-o tomada pelo ímpeto que acreditava sensato,
prudente, todavia, permeada de melancolia. A casa das senhoras consistia
numa combinação elaborada de coisas simples, despojadas. Da
varanda estendia-se o peitoril escorregando em ligeira curva indo acabar
na cozinha artesanal ressaltando características similares ao modelo e uso nas
demais residências. O fogão, alimentado por toras de lenhas queimava durante o
dia nutrindo fagulhas; permanecia aceso para o momento de ser requisitado.
Enquanto isso, o tacho de cobre, entrosado às panelas de ferro e barro, gozava
privilégio ante sua, prestigiosa serventia na alquimia e preparo refinado
dos doces manejados ao capricho das irmãs, ao sabor do conhecimento que
dispunham. A casa emanava agradável bem estar. Caminhando pela sala percebia-se
um silêncio vigilante, estagnado, tomando conta daquele ambiente. Espécie de
guardião rijo, ríspido, que zelava pela intocável arrumação onde móveis,
objetos e tudo mais permaneciam sem desordem qualquer cativos nos lugares
definidos. Dos quartos em dias encalorados soava o ranger das escápulas:
cantiga dissonante repetida de extrema familiaridade aos ouvidos. Ali as
irmãs refrescavam-se aos embalos nas redes.
Atrelado aos fundos da morada o quintal apresentava visão
paisagística espaçosa, verdejante, multiplicada no período chuvoso contínuo em
que a natureza brotava, expandia diversificada abarrotando a terra fazendo
renascer exuberante formosura. Árvores frutíferas sombreavam deitando extensas
copas que facilitava o ir e vir da passarinhada disparando gorjeios frequentes.
Dispunha ainda o quintal de um aglomerado rasteiro de flores minúsculas
graciosas entapetando o chão, fazendo nascer salpicos de cores vivas,
permitindo ao ciclame transluzir seu exotismo. Outras mimosas delicadas
sustentavam-se nos caules finos onde o vento ardiloso ameaçava quebrá-los.
Adiante existia um espaço diferenciado servindo de abrigo e privilégio das
plantas medicinais favorecendo o desenvolvimento e distanciando-as do
importuno das galinhas.
A terceira irmã, a mais nova, podia-se dizer uma senhora voltada a
pensamentos lógicos, decisões práticas; afinal, conduzia a vida exercitando a
plenitude racional estruturada no aprendizado com o qual chegara à maturidade.
Era de fato polida, educada até no falar. Prezava a língua
portuguesa, expressava-se numa excelente linguagem recheada pelo
extenso e variado vocabulário. Demonstração de pureza vernacular, entretanto, sem
pretensão nenhuma ao exibicionismo ou presunção qualquer. Era algo que fluía natural
explanando pensamentos, guiada pela eloquente racionalidade. Buscava nas aulas
particulares a pequena fonte de renda. Ali extravasava plena dedicação; doava-se prazerosa à vocação didática ao incutir
nos jovens conhecimento além do que buscavam. Porém na relação a dois pouco
permitia ser conduzida ou induzida pelo arroubo apaixonado Não era dada
ao deslumbramento amoroso e muito menos ao amor intenso, cultuado,
idolatrado. Procurava distanciar-se das artimanhas ilusórias sentimentais.
Preferia não alçar voos inconsequentes, mas manter os pés no chão.
Recusou-se casar não pela falta de pretendentes - já vivia aos flertes
com o pensar liberto procurando desvencilhar-se das amarras e dogmas
instituídos pela cultura patriarcal relegando as mulheres à condição subalterna,
onde a união matrimonial se tornava espécie de convivência arbitrária de
posse e poder, ou seja, com marido comandando o núcleo familiar em demonstração
de autoritarismo. Gostava de enfatizar suas ideias motivada pela lucidez e
convicção. Curiosamente observava o cotidiano feminino: vigiado, impregnado pelas
limitações, tolhido. Via-o como clausura social impondo rígidos
conceitos à mulher, subordinando-a também à exclusividade no lar. Expor opiniões
contestadoras deixava-a visivelmente marcada aos olhos do preconceito, mas não
era de dar ouvidos a rótulos ou depreciamentos, sobrepunha-se. Ao transgredir
escancarava uma coragem que transitava entre rebeldia e liberdade.
Acima da personalidade marcante de cada
irmã predominava a cumplicidade, sedimentada sobre o vínculo do entrelaço
afetivo mantendo-as coesas. Souberam lidar diante das escolhas e opções,
mesmo que intuitivas, imbuídas com determinação perante um aparato de
"valores" que cercearam, aprisionaram as mulheres gerações
a fio em tempos extremamente longos, implacáveis.
sábado, 24 de janeiro de 2015
Redes e rendas de bilros
O tear recostado à parede da sala era
a referência de trabalho; o arrimo e sustento da sobrevivência nem sempre
permanecia guarnecido pela indumentária dos fios e cores que teciam rede sob
encomenda. Via-se rente à janela um banco tosco comprido; maltratado pelo uso servia de assento ao ambiente vazio e silencioso de onde observavam quem subia
e descia a rua do Porto. Atentas à chegada dos passageiros, escutavam a buzina
que anunciava a fartura de peixe. Com a aproximação do verão, esgueirava-se pela
janela um vento maroto esbanjando travessuras que lambia o rosto da gente bafejando um ar morno e buliçoso, remexendo as palhas que cobriam o teto provocando a zoada peculiar entre as pindobas castigadas pelas chuvas, que ao sol e
o calor da nova estação renovar-se-iam.
A casa denunciava uma pobreza que
consumia e resignava; paredes mal caiadas expunham o velho reboco corroído que desmanchava-se em farelos com o passar dos anos. O chão de terra batido, desnivelado e gasto cobrava reparos tanto quanto o resto da morada. Frente às
necessidades elas assistiam impotentes ao estrago que as rondavam. Poucas
relíquias restavam, como um oratório guardando imagens sacras para os
momentos de meditação e reza diante de Santa Bárbara, que abrandava raios e
trovões em noite tempestuosa. Outros pertences acomodavam com zelo e pesar nos
antigos baús, recordação grata e saudosa do passado familiar. Era assim onde
moravam as irmãs Anica e Bárbara. Sozinhas viviam, não tiveram filhos. Do amor
e da paixão nunca as ouvi falar, tabus da época não permitidos a ouvidos infantis. Estabeleceram
convivência pacífica com a vida e o destino que acreditavam respeitando seus ditérios.
Dona Anica chamava-se Ana Silvestre.
Mais velha, introspectiva, reservada e caseira pouco saía. O rosto tomado pelas rugas intensas marcado de fortes vincos roubava-lhe a expressividade dos olhos azuis. O tom grave de voz soava autoritário, mas desfazia-se ante sua fragilidade e
brandura. Não restava-lhe traço de mocidade, envelhecera de vez.
Dona Bárbara recebeu no batismo o
nome de Bárbara Rosa. Alquebrada também pela idade apresentava expressão alegre,
receptiva. De estatura miúda sobressaía, no entanto, o sorriso espontâneo. Doava-se com generosidade em todos os momentos. Num dos braços escondida em meio à flacidez da pele, descobria-se uma tatuagem bem desenhada marcando suas
iniciais, rasgo de entusiasmo eternizado na juventude. Era ela quem cuidava
das obrigações da casa e ainda angariava alimento quando não dispunha de como
suprir as necessidades. Vez ou outra saía para vender ovos pelas casas: dois, três, meia dúzia, ou mesmo um único ovo que firmava na mão
calejada para repor com a venda o querosene da lamparina. No quintal escasseavam as
poucas galinhas. Bananeiras juntadas numa torceira rala pouco davam
para o gasto; a mangueira frondosa servia de boa alimentação no período sazonal abarrotando o chão de frutas como efeito das chuvas e ventanias. No solitário pé
de café minguado, quase nada rendia.
Prendadas, a elaboração das redes acontecia artesanalmente desde a essência da criação, ou seja, desde a tintura dos fios que iria colorir e torná-las vistosas, acrescentando variações de cores fortes. Trabalho e tanto! No caldeirão, a tinta agregava-se à fervura da água que por sua vez recebia boa quantidade dos fios para o processo meticuloso do tingimento. Duas ou quanto necessário fosse repetir. E o grotesco fogão formado por tacarubas ardia entre gravetos e pedaços escassos de lenha executando sua tarefa. A secagem dos fios processava-se no quintal ao relento, exceto no período chuvoso no qual eram alojados na sala espaçosa: suspensos, espichados dando inúmeras voltas, improviso assemelhado às formas geométricas mais confusas. Diante do tear a criatividade das irmãs jorravam espontânea, natural. Ao tecer as redes desenvolviam combinações e misturas dos alegres tons nascendo sob o traquejo inventivo das mãos habilidosas. Caprichavam também nas rendas de bilro e labirinto, delicadas cheias de minúcia e beleza. Com o correr dos anos, forçadas pelo declínio das encomendas relegavam bilros e almofadas a um canto empoeirados. Costuravam ainda calças para alguns pescadores, costura manual trabalhosa. Sentadas no chão cercavam-se dos apetrechos: tesoura, dedais, alfinetes
, botões e agulhas enfiadas em longos fios de linha que arrastavam-se entre os panos costurando reto ou sinuosamente, unindo tecidos, prendendo com a eficiência do "ponto-atrás", puxado, repuxado. Exaustivo serviço de paciência e disciplina que dispunham-se a executar. O irrisório pagamento fazia-se muitas vezes em troca de peixe e farinha d`água.
Nas manhãs claras eu corria àquela casa. Do céu que amanhecia varrido debandavam os nimbos, cúmulos e cirros; na placidez do azul límpido esparramava-se o sol revigorando a vida com seu fulgor. Folhas de árvores voavam em diferentes rumos e o cheiro do verão espalhava-se na poeira que levantava. Encontrava-as em frente ao tear, ou absorvidas nas baforadas dos cachimbos num estado sereno de confortante paz. O fumo de corda seduzia aromatizando os cômodos da casa. A monotonia integrava a rotina em que o tempo não apressava em chegar a lugar algum. Sentava-me acomodada envolvida pelo enternecimento e doçura que fluía do semblante das duas velhinhas. Aos poucos, emergiam lendas que narravam um mundo sombrio de assombrações recheadas de pormenores que somavam veracidade às historias nas quais não passavam os encantos lúdicos dos contos de fadas, transbordantes de magia e final feliz. Eram parte do folclore da pequena cidade com predominância do sobrenatural: almas penadas vagando às sextas-feiras em penitências altas horas da noite, arrastando suas dores, expiando culpas e pecados. Escutava paralisada até encerrarem a última narrativa. O tempo passava e lá um dia retornavam a contar os mesmos casos. Medo e prazer conviviam latentes no meu inconsciente de criança.
, botões e agulhas enfiadas em longos fios de linha que arrastavam-se entre os panos costurando reto ou sinuosamente, unindo tecidos, prendendo com a eficiência do "ponto-atrás", puxado, repuxado. Exaustivo serviço de paciência e disciplina que dispunham-se a executar. O irrisório pagamento fazia-se muitas vezes em troca de peixe e farinha d`água.
Nas manhãs claras eu corria àquela casa. Do céu que amanhecia varrido debandavam os nimbos, cúmulos e cirros; na placidez do azul límpido esparramava-se o sol revigorando a vida com seu fulgor. Folhas de árvores voavam em diferentes rumos e o cheiro do verão espalhava-se na poeira que levantava. Encontrava-as em frente ao tear, ou absorvidas nas baforadas dos cachimbos num estado sereno de confortante paz. O fumo de corda seduzia aromatizando os cômodos da casa. A monotonia integrava a rotina em que o tempo não apressava em chegar a lugar algum. Sentava-me acomodada envolvida pelo enternecimento e doçura que fluía do semblante das duas velhinhas. Aos poucos, emergiam lendas que narravam um mundo sombrio de assombrações recheadas de pormenores que somavam veracidade às historias nas quais não passavam os encantos lúdicos dos contos de fadas, transbordantes de magia e final feliz. Eram parte do folclore da pequena cidade com predominância do sobrenatural: almas penadas vagando às sextas-feiras em penitências altas horas da noite, arrastando suas dores, expiando culpas e pecados. Escutava paralisada até encerrarem a última narrativa. O tempo passava e lá um dia retornavam a contar os mesmos casos. Medo e prazer conviviam latentes no meu inconsciente de criança.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
QUE CALOR !
A alta temperatura deste verão extrapolou os limites até então registrados há décadas por aqui. A cidade parece saturada também pela ausência de chuva que não chega para aliviar a atmosfera, e o assunto não sai da pauta. A procura pelos ventiladores surpreende as vendas deixando lucro recorde para o comércio.
Ao amanhecer o sol já escancara o fulgor de seus raios; do trono majestoso expande sua beleza incandescente e tórrida chegando ao ápice do calor abrasador.
Nada mais natural eu ser adepta do verão, oriunda que sou da terra do sol cercada de mares e vento assoviando nos coqueirais, mas reconheço que a estação anda abusando no excesso das temperaturas de dígitos elevados provocando desconforto. Surpreendo-me também a reclamar, engrossando o coro dos encalorados, pedindo trégua para que o verão deixe por menos.
Não chove, não venta, nada refresca senão o vento artificial que gira, roda, soprando do incansável ventilador. Porém, optar entre o inverno tedioso e sombrio, carregado de massa polar e este inconsequente clima, sem vacilar entrego-me calorosamente a ele, o calor do verão.
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