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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os aguaceiros


A zona de convergência de que tanto falam meteorologistas nos noticiários, pelo visto deve ser a grande vilã das catástrofes que vem assolando nossa gente. E o quinhão de culpa dos governantes, onde fica? O prometido foi cumprido ou negligenciaram? Vê-se a repetição do desassossego e dor novamente.

Tem uma história que escutava quando criança na minha terra. Diz a fábula, que no período chuvoso urubu prometia tirar as aves daquela tormenta pela qual passavam, penduradas nos galhos das árvores buscando abrigo, encharcadas do aguaceiro. Empenhado, comovido, garantia dar-lhes casa e sossego, livrando-as do padecimento. Todos esperançosos apegavam-se à promessa dos melhores dias que iriam chegar. No entanto, assim que suspendia a chuvarada e o sol mostrava a cara com todo brilho e firmeza, urubu sumia no mundo; debandava, esquecia tudo. Só queria voar, flanar, bater asas, usufruir o melhor. O prometido deixava a Deus dará.

É isso. Repetem-se as mesmas tragédias, renovam as mesmas promessas. Aos nossos olhos um janeiro mais uma vez carregado de destruições: incessantes chuvas, tempestades, fúrias, horror, tristeza. Os verões continuam marcados pela desolação e medo. Vidas e sonhos rolam ribanceiras abaixo. Corpos, destroços, um amontoado de perdas.

Por quantas estações ainda viveremos a fábula do urubu?


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Carga Pesada




A fazenda era extensa, a perder de vista, com suntuoso sobradão erguido em meio a paisagem bucólica formada de matas, rios; conduzindo ao sossego e contemplação. A capela, ornada com imagens do barroco, dava mais uma mostra da ostentação que pairava naquele lugar.

Morava ali um dos últimos herdeiros, uma senhora descendente de portugueses, que acumularam vasto latifúndio para aquelas bandas: muita terra, grande fortuna, tamanha exploração. Remanescentes de escravos viviam ainda sob o jugo da obediência serviçal, sem voz e sem vez.

Periodicamente, a senhora visitava a cidade no intuito de respirar novidades. Léguas, quilômetros distanciavam a fazenda até lá. Um percurso difícil, torturante para os que a carregavam deitada na rede. Bem arrumada, estendia-se a gorda senhora com pompas e jóias, enquanto os quatro negros com força e sacrifício revezavam-se levando nos ombros a pesada carga e uma escravidão que para eles ainda continuava.

domingo, 12 de dezembro de 2010

O Prosador


A visita que resolveu fazer aos amigos surgiu num estalo a idéia. Aquele dia inspirador, bonito, primaveril, talvez o tenha convencido a um passeio extravagante como esse.

Chegou arrumado, uma pinta de barão, todo chique, trazendo o guarda-chuva pendurado no braço como se assim fosse uma elegante bengala; sempre prosador, bom papo. Nessa tarde, então, andava de um lado a outro explanando idéias, opiniões, ora radicais, outras vezes amenas. Divergia, apoiava com entusiasmo empolgante, animador. Queria conversar, rever todos.

A certa hora, mediante animação envolvendo o ambiente, apresentaram ao amigo visitante uma cachaça que surpreendentemente não conhecia nem de nome: Tiquira. Logo cresceu o olho e não se fez de rogado em experimentar. Gostou. Passou a bebericar, a princípio moderadamente. Um gole aqui, outro acolá, e de gole em gole, entre observações gabava-se de nunca ter sido derrubado por nenhuma danada. Com o decorrer da prosa, os discretos goles passaram a escancaradas talagadas, dando sinais de possível nocaute pela então recém-apresentada Tiquira. Era evidente.

A tarde foi se tornando morna, o sol baixando, a noitinha chegando e o amigo já trocava as pernas. Procurava disfarçar o tremendo pileque, tremendamente visível, apoiando-se no guarda-chuva reduzido à bengala. Mas o pior, talvez, seria aquela ressaca moral do dia seguinte a perturbar-lhe as idéias, cobrando o acontecimento que não desejava e não queria lembrar tão cedo. E balançando o corpo, postado frente à garrafa, ele arrastava a voz em meio a uma frase que tirou não sei de onde, e repetia num insistente, cansativo bordão:

- Ah! Então foi essa que derrubou o guarda?! Foi essa?.. Então foi...

As palavras iam perdendo-se entre risadas, gracinhas, piadas, nascendo assim uma boa história a render por um bom tempo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Na rua de blusa amarela

Bandeiras, faixas, músicas, espalhavam-se por toda praça e manifestações corriam o país inteiro. Sopravam bons ventos, um sinal de tempo novo fazia-se vir. O tempo era então das Diretas Já.

Coragem, determinação pulsavam firme no coração e empenho da União de Mulheres de São Paulo. Destemida, atuante, sempre na linha de frente das lutas mobilizava-se mais uma vez nessa arrancada que sacudia o país. A praça Ramos de Azevedo tornava-se referencial, ponto de encontro das mulheres empenhadas nesse novo contexto político; ali fervia o entusiasmo e a paixão pela causa: passeatas, cartazes, panfletos, botons, camisetas. Palavras de ordem desfilavam ante os olhos de simpatizantes, observadores e curiosos. Otimismo dominava naquele ambiente cívico desejoso de transformação. O microfone funcionava em clima de tribuna livre, espaço democrático a todos ansiosos de expressar idéias e sentimentos.

Os tons rosa-choque, lilás, predominavam enfeitando nossos cabelos. Fazíamos flores de papel crepom, simbolizando nossa luta naquela jornada de patriotismo. Sem êxito, o Brasil chorou.

Forasteiro



Surgia do nada, inesperadamente. Errante, maltrapilho, sujo, um abandono só. Ele ria, o riso desandava em risada macabra escancarando os dentes afiados. Resmungava, blasfemava.

Léguas e léguas a pé. Lá um dia chegava, se aboletava em chão vazio ou alguma casa abandonada. Desconhecia a si próprio, realidade com que convivia. Respondia tão somente, sinsinhô. E passou a ser apenas “Sinsinhô”. Como num ato de obediência balançava a cabeça num gesto contínuo. E a risada atemorizava.

À noite, diante do fogo em labaredas tamanhas, abismado, imolava o destino, sina, vida, tudo que não mais entendia. Exorcizava a si próprio tomado inteiro pela loucura; maldito, doido totalmente, banido, fora do mundo real.

Sim, senhor!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Meus filhos


Todos os partos foram assim, não conseguia dormir depois de dar a luz. Ficava em êxtase. Olhar do meu lado aquela coisinha pequenina linda há pouco nascida de mim era o que havia de mais belo e gratificante.

Nesses momentos sublimes vivi o supremo da felicidade que é possível experimentar.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Discurso

Decididamente não me apaixono mais. Assim concluí depois de refletir e analisar prós e contras. No entanto, surpreendo-me rompendo essa prolongada estiagem sentimental, recebendo por inteira a paixão que me chega aberta, sem meio termo, concreta. Iniciação de um novo amor. Paixão incontida, explícita, declarada em um livro como presente:”Fragmentos de um discurso amoroso”. Preciosidade literária tocando em cheio a minha fragilidade emotiva. Embarco nessa reciclagem da vida, renovo o espírito, refaço sonhos, projetos, banho-me na imaginária fonte da juventude, respiro o novo, vivo a cumplicidade de tudo. O relacionamento se mostra bonito: gesto, olhar, carinho; dose certa inspirando versos, frases, intensidade no amar. Tudo fugaz, veloz e também atroz.

Em pouco tempo, discordância de valores, disparidade nos conceitos me faz enxergar uma pessoa camuflada, voltada para si, que só blefava. O racional mostra que somos tão antagônicos como o dia e a noite. Só o entusiasmo da paixão nos unia, mas não me bastava e não era isso que daria estabilidade emocional. Quero cabeça e corpo em sintonia.

Deixo-o, saio sorrateira, ilesa, impossível, mas estou inteira. Viajo na imaginação e concluo novamente: decididamente não me apaixono mais. Será?

S.Paulo, outubro de 1995