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domingo, 12 de dezembro de 2010

O Prosador


A visita que resolveu fazer aos amigos surgiu num estalo a idéia. Aquele dia inspirador, bonito, primaveril, talvez o tenha convencido a um passeio extravagante como esse.

Chegou arrumado, uma pinta de barão, todo chique, trazendo o guarda-chuva pendurado no braço como se assim fosse uma elegante bengala; sempre prosador, bom papo. Nessa tarde, então, andava de um lado a outro explanando idéias, opiniões, ora radicais, outras vezes amenas. Divergia, apoiava com entusiasmo empolgante, animador. Queria conversar, rever todos.

A certa hora, mediante animação envolvendo o ambiente, apresentaram ao amigo visitante uma cachaça que surpreendentemente não conhecia nem de nome: Tiquira. Logo cresceu o olho e não se fez de rogado em experimentar. Gostou. Passou a bebericar, a princípio moderadamente. Um gole aqui, outro acolá, e de gole em gole, entre observações gabava-se de nunca ter sido derrubado por nenhuma danada. Com o decorrer da prosa, os discretos goles passaram a escancaradas talagadas, dando sinais de possível nocaute pela então recém-apresentada Tiquira. Era evidente.

A tarde foi se tornando morna, o sol baixando, a noitinha chegando e o amigo já trocava as pernas. Procurava disfarçar o tremendo pileque, tremendamente visível, apoiando-se no guarda-chuva reduzido à bengala. Mas o pior, talvez, seria aquela ressaca moral do dia seguinte a perturbar-lhe as idéias, cobrando o acontecimento que não desejava e não queria lembrar tão cedo. E balançando o corpo, postado frente à garrafa, ele arrastava a voz em meio a uma frase que tirou não sei de onde, e repetia num insistente, cansativo bordão:

- Ah! Então foi essa que derrubou o guarda?! Foi essa?.. Então foi...

As palavras iam perdendo-se entre risadas, gracinhas, piadas, nascendo assim uma boa história a render por um bom tempo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Na rua de blusa amarela

Bandeiras, faixas, músicas, espalhavam-se por toda praça e manifestações corriam o país inteiro. Sopravam bons ventos, um sinal de tempo novo fazia-se vir. O tempo era então das Diretas Já.

Coragem, determinação pulsavam firme no coração e empenho da União de Mulheres de São Paulo. Destemida, atuante, sempre na linha de frente das lutas mobilizava-se mais uma vez nessa arrancada que sacudia o país. A praça Ramos de Azevedo tornava-se referencial, ponto de encontro das mulheres empenhadas nesse novo contexto político; ali fervia o entusiasmo e a paixão pela causa: passeatas, cartazes, panfletos, botons, camisetas. Palavras de ordem desfilavam ante os olhos de simpatizantes, observadores e curiosos. Otimismo dominava naquele ambiente cívico desejoso de transformação. O microfone funcionava em clima de tribuna livre, espaço democrático a todos ansiosos de expressar idéias e sentimentos.

Os tons rosa-choque, lilás, predominavam enfeitando nossos cabelos. Fazíamos flores de papel crepom, simbolizando nossa luta naquela jornada de patriotismo. Sem êxito, o Brasil chorou.

Forasteiro



Surgia do nada, inesperadamente. Errante, maltrapilho, sujo, um abandono só. Ele ria, o riso desandava em risada macabra escancarando os dentes afiados. Resmungava, blasfemava.

Léguas e léguas a pé. Lá um dia chegava, se aboletava em chão vazio ou alguma casa abandonada. Desconhecia a si próprio, realidade com que convivia. Respondia tão somente, sinsinhô. E passou a ser apenas “Sinsinhô”. Como num ato de obediência balançava a cabeça num gesto contínuo. E a risada atemorizava.

À noite, diante do fogo em labaredas tamanhas, abismado, imolava o destino, sina, vida, tudo que não mais entendia. Exorcizava a si próprio tomado inteiro pela loucura; maldito, doido totalmente, banido, fora do mundo real.

Sim, senhor!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Meus filhos


Todos os partos foram assim, não conseguia dormir depois de dar a luz. Ficava em êxtase. Olhar do meu lado aquela coisinha pequenina linda há pouco nascida de mim era o que havia de mais belo e gratificante.

Nesses momentos sublimes vivi o supremo da felicidade que é possível experimentar.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Discurso

Decididamente não me apaixono mais. Assim concluí depois de refletir e analisar prós e contras. No entanto, surpreendo-me rompendo essa prolongada estiagem sentimental, recebendo por inteira a paixão que me chega aberta, sem meio termo, concreta. Iniciação de um novo amor. Paixão incontida, explícita, declarada em um livro como presente:”Fragmentos de um discurso amoroso”. Preciosidade literária tocando em cheio a minha fragilidade emotiva. Embarco nessa reciclagem da vida, renovo o espírito, refaço sonhos, projetos, banho-me na imaginária fonte da juventude, respiro o novo, vivo a cumplicidade de tudo. O relacionamento se mostra bonito: gesto, olhar, carinho; dose certa inspirando versos, frases, intensidade no amar. Tudo fugaz, veloz e também atroz.

Em pouco tempo, discordância de valores, disparidade nos conceitos me faz enxergar uma pessoa camuflada, voltada para si, que só blefava. O racional mostra que somos tão antagônicos como o dia e a noite. Só o entusiasmo da paixão nos unia, mas não me bastava e não era isso que daria estabilidade emocional. Quero cabeça e corpo em sintonia.

Deixo-o, saio sorrateira, ilesa, impossível, mas estou inteira. Viajo na imaginação e concluo novamente: decididamente não me apaixono mais. Será?

S.Paulo, outubro de 1995

Reflexão na cozinha





Pratos, panelas, talheres, fogão, tudo disposto na minha frente repetindo esse cotidiano banal de dona de casa. Entro na cozinha, essa parafernália quase me leva ao desânimo total. Salva-me, no entanto, o mural da mulher logo ali na parede retratando preconceito, violência, luta e conquistas ao longo do tempo. Informação misturada ao estridente som da panela de pressão e o barulho da água na lavagem das louças.

Corro os olhos novamente no canto, releio um célebre conceito de Simone de Beauvoir:

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.”

Convincente, atual, racional, Retorno à condição de “doméstica” de igual para igual.

S.Paulo, 1995

Faz de conta...


Abro a porta do quarto e as vejo paradas, olhos fixos, nem brilho, nem vida. Imagino uma suposta ansiedade lhes afligindo: a eterna espera de amiguinhas que as levem para brincar. Nenhum sorriso e as vestes ultrapassadas demonstram que o tempo correu, a tecnologia avançou e elas ficaram para trás.

Bolota e Bolotinha permanecem no seu universo de faz de conta. Empoeiradas, descartadas na pequena mesa desejando que pelo menos uma mãozinha estabanada as joguem para outro lugar num inconseqüente gesto carinhoso.

(em homenagem a Bolota e Bolotinha, as primeiras bonecas que Larissa ganhou quando bebê.)

S.Paulo, 28 de agosto de 1995