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sábado, 30 de outubro de 2010

Na rua de blusa amarela

Bandeiras, faixas, músicas, espalhavam-se por toda praça e manifestações corriam o país inteiro. Sopravam bons ventos, um sinal de tempo novo fazia-se vir. O tempo era então das Diretas Já.

Coragem, determinação pulsavam firme no coração e empenho da União de Mulheres de São Paulo. Destemida, atuante, sempre na linha de frente das lutas mobilizava-se mais uma vez nessa arrancada que sacudia o país. A praça Ramos de Azevedo tornava-se referencial, ponto de encontro das mulheres empenhadas nesse novo contexto político; ali fervia o entusiasmo e a paixão pela causa: passeatas, cartazes, panfletos, botons, camisetas. Palavras de ordem desfilavam ante os olhos de simpatizantes, observadores e curiosos. Otimismo dominava naquele ambiente cívico desejoso de transformação. O microfone funcionava em clima de tribuna livre, espaço democrático a todos ansiosos de expressar idéias e sentimentos.

Os tons rosa-choque, lilás, predominavam enfeitando nossos cabelos. Fazíamos flores de papel crepom, simbolizando nossa luta naquela jornada de patriotismo. Sem êxito, o Brasil chorou.

Forasteiro



Surgia do nada, inesperadamente. Errante, maltrapilho, sujo, um abandono só. Ele ria, o riso desandava em risada macabra escancarando os dentes afiados. Resmungava, blasfemava.

Léguas e léguas a pé. Lá um dia chegava, se aboletava em chão vazio ou alguma casa abandonada. Desconhecia a si próprio, realidade com que convivia. Respondia tão somente, sinsinhô. E passou a ser apenas “Sinsinhô”. Como num ato de obediência balançava a cabeça num gesto contínuo. E a risada atemorizava.

À noite, diante do fogo em labaredas tamanhas, abismado, imolava o destino, sina, vida, tudo que não mais entendia. Exorcizava a si próprio tomado inteiro pela loucura; maldito, doido totalmente, banido, fora do mundo real.

Sim, senhor!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Meus filhos


Todos os partos foram assim, não conseguia dormir depois de dar a luz. Ficava em êxtase. Olhar do meu lado aquela coisinha pequenina linda há pouco nascida de mim era o que havia de mais belo e gratificante.

Nesses momentos sublimes vivi o supremo da felicidade que é possível experimentar.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Discurso

Decididamente não me apaixono mais. Assim concluí depois de refletir e analisar prós e contras. No entanto, surpreendo-me rompendo essa prolongada estiagem sentimental, recebendo por inteira a paixão que me chega aberta, sem meio termo, concreta. Iniciação de um novo amor. Paixão incontida, explícita, declarada em um livro como presente:”Fragmentos de um discurso amoroso”. Preciosidade literária tocando em cheio a minha fragilidade emotiva. Embarco nessa reciclagem da vida, renovo o espírito, refaço sonhos, projetos, banho-me na imaginária fonte da juventude, respiro o novo, vivo a cumplicidade de tudo. O relacionamento se mostra bonito: gesto, olhar, carinho; dose certa inspirando versos, frases, intensidade no amar. Tudo fugaz, veloz e também atroz.

Em pouco tempo, discordância de valores, disparidade nos conceitos me faz enxergar uma pessoa camuflada, voltada para si, que só blefava. O racional mostra que somos tão antagônicos como o dia e a noite. Só o entusiasmo da paixão nos unia, mas não me bastava e não era isso que daria estabilidade emocional. Quero cabeça e corpo em sintonia.

Deixo-o, saio sorrateira, ilesa, impossível, mas estou inteira. Viajo na imaginação e concluo novamente: decididamente não me apaixono mais. Será?

S.Paulo, outubro de 1995

Reflexão na cozinha





Pratos, panelas, talheres, fogão, tudo disposto na minha frente repetindo esse cotidiano banal de dona de casa. Entro na cozinha, essa parafernália quase me leva ao desânimo total. Salva-me, no entanto, o mural da mulher logo ali na parede retratando preconceito, violência, luta e conquistas ao longo do tempo. Informação misturada ao estridente som da panela de pressão e o barulho da água na lavagem das louças.

Corro os olhos novamente no canto, releio um célebre conceito de Simone de Beauvoir:

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.”

Convincente, atual, racional, Retorno à condição de “doméstica” de igual para igual.

S.Paulo, 1995

Faz de conta...


Abro a porta do quarto e as vejo paradas, olhos fixos, nem brilho, nem vida. Imagino uma suposta ansiedade lhes afligindo: a eterna espera de amiguinhas que as levem para brincar. Nenhum sorriso e as vestes ultrapassadas demonstram que o tempo correu, a tecnologia avançou e elas ficaram para trás.

Bolota e Bolotinha permanecem no seu universo de faz de conta. Empoeiradas, descartadas na pequena mesa desejando que pelo menos uma mãozinha estabanada as joguem para outro lugar num inconseqüente gesto carinhoso.

(em homenagem a Bolota e Bolotinha, as primeiras bonecas que Larissa ganhou quando bebê.)

S.Paulo, 28 de agosto de 1995

O jardim



Agora sim, olho satisfeita para o jardim: arrumado, replantado com ares de espaço organizado. A limpeza que lhe dei valeu, embora não seja adepta dos jardins certinhos. Aliás, urbanismo em excesso que descaracteriza a natureza não me atrai. Gosto de olhar plantas, mato no seu estado natural sem que seja modificado segundo a vontade e capricho do homem. Cresci com as matas circundando minha terra e o oxigênio puro entrando em meus pulmões numa perfeita sintonia de vida saudável. Mas em um espaço pequeno é diferente, as opções são mínimas, tento encontrar acomodação para cada planta em especial as menores, visto que as maiores tornam-se donas do pedaço. A jibóia então, que por si já é espaçosa, desenvolve-se em disparada querendo o chão só pra ela. O mastruz, consegui tirá-lo do encolhimento rasteiro a que se encontrava; já respira aliviado e começa abrir algumas folhinhas exalando cheiro bom de remédio caseiro, cutucando uma saudade distante, porém sem castigar, lembranças apenas, aguçando a origem nordestina. Na minha cidade ele viceja numa espontaneidade absoluta com folhas maiores abertas, abençoado pelo bom clima. É lendário, polivalente: cicatriza fraturas, cura gripe, serve para estômago, pulmão, enfim, fortalece o corpo contra doenças; já o experimentei, acredito em todo o seu potencial. Trato-o com esmero para que o frio não o castigue tanto. Logo adiante está a maria-sem-vergonha, fagueira, espremida entre samambaias, folhagens e espada de São Jorge; teima com sua fragilidade disputar com outras plantas um lugar onde possa sobressair suas singelas florzinhas coloridas de rosa púrpura, rosa desbotado, vermelho e assim com inúmeras mutações vai agradando e conquistando todos.

Bem no canto, grudado no pequeno muro que dá para a rua debruça-se o boldo, seus galhos curvados como que numa reverência dissesse: “ Estou aqui, alivio o mal do estômago de boêmios e sóbrios, experimentem-me”. Encostado ainda nesse baixo muro, fazendo divisa com a casa do bom amigo Maurício cresce uma grande folhagem, e como cresce! Sua altura já toca as telhas do terraço. Uma pequena muda fez-se desenvolver em várias. Na primavera surge dessas folhas compridas a beleza: cachos de botões pequenos colados uns aos outros de um rosa discreto, belo, porém, quando as flores desabrocham surpreende com o tom de amarelo forrando o interior de cada uma. Ainda no jardim crescidas em estado adulto, dois pés de Iris, suas folhas longas e duras lembram talos a nascer do chão, do meio brotam pequeninos botões que vão surgir. Cada botão guarda em si uma linda flor lilás semelhante à orquídea, extremamente sensível e delicada, essa demonstração de beleza renasce com a primavera, estende-se até o verão, depois recatam-se botões e flores.

E assim, nesse arranjo num pedacinho de chão na entrada da casa cada planta exibe particularidade e excentricidade diversa florindo no tempo pré-estabelecido pela natureza; somente a maria-sem-vergonha me surpreende: incansavelmente colorida, incansavelmente faz-se resistente o ano inteiro, não importa o tempo.

Uma lição que me reabastece de vitalidade.

São Paulo, 1999