
Agora sim, olho satisfeita para o jardim: arrumado, replantado com ares de espaço organizado. A limpeza que lhe dei valeu, embora não seja adepta dos jardins certinhos. Aliás, urbanismo em excesso que descaracteriza a natureza não me atrai. Gosto de olhar plantas, mato no seu estado natural sem que seja modificado segundo a vontade e capricho do homem. Cresci com as matas circundando minha terra e o oxigênio puro entrando em meus pulmões numa perfeita sintonia de vida saudável. Mas em um espaço pequeno é diferente, as opções são mínimas, tento encontrar acomodação para cada planta em especial as menores, visto que as maiores tornam-se donas do pedaço. A jibóia então, que por si já é espaçosa, desenvolve-se em disparada querendo o chão só pra ela. O mastruz, consegui tirá-lo do encolhimento rasteiro a que se encontrava; já respira aliviado e começa abrir algumas folhinhas exalando cheiro bom de remédio caseiro, cutucando uma saudade distante, porém sem castigar, lembranças apenas, aguçando a origem nordestina. Na minha cidade ele viceja numa espontaneidade absoluta com folhas maiores abertas, abençoado pelo bom clima. É lendário, polivalente: cicatriza fraturas, cura gripe, serve para estômago, pulmão, enfim, fortalece o corpo contra doenças; já o experimentei, acredito em todo o seu potencial. Trato-o com esmero para que o frio não o castigue tanto. Logo adiante está a maria-sem-vergonha, fagueira, espremida entre samambaias, folhagens e espada de São Jorge; teima com sua fragilidade disputar com outras plantas um lugar onde possa sobressair suas singelas florzinhas coloridas de rosa púrpura, rosa desbotado, vermelho e assim com inúmeras mutações vai agradando e conquistando todos.
Bem no canto, grudado no pequeno muro que dá para a rua debruça-se o boldo, seus galhos curvados como que numa reverência dissesse: “ Estou aqui, alivio o mal do estômago de boêmios e sóbrios, experimentem-me”. Encostado ainda nesse baixo muro, fazendo divisa com a casa do bom amigo Maurício cresce uma grande folhagem, e como cresce! Sua altura já toca as telhas do terraço. Uma pequena muda fez-se desenvolver em várias. Na primavera surge dessas folhas compridas a beleza: cachos de botões pequenos colados uns aos outros de um rosa discreto, belo, porém, quando as flores desabrocham surpreende com o tom de amarelo forrando o interior de cada uma. Ainda no jardim crescidas em estado adulto, dois pés de Iris, suas folhas longas e duras lembram talos a nascer do chão, do meio brotam pequeninos botões que vão surgir. Cada botão guarda em si uma linda flor lilás semelhante à orquídea, extremamente sensível e delicada, essa demonstração de beleza renasce com a primavera, estende-se até o verão, depois recatam-se botões e flores.
E assim, nesse arranjo num pedacinho de chão na entrada da casa cada planta exibe particularidade e excentricidade diversa florindo no tempo pré-estabelecido pela natureza; somente a maria-sem-vergonha me surpreende: incansavelmente colorida, incansavelmente faz-se resistente o ano inteiro, não importa o tempo.
Uma lição que me reabastece de vitalidade.
São Paulo, 1999