
O estudante pulou apressado da cama e zonzo de sono se arrumou de qualquer jeito. Não botou a cara no espelho pelo menos para verificar a aparência, imaginou tudo em ordem. Foi juntar-se ao grupo, iam panfletar na porta de uma fábrica na grande São Paulo. Seguiram com a rapidez que o tempo exigia, o dia clareava e os operários agitavam com protestos e reivindicações.
Procedimento normal na rotina desses estudantes. Assíduos na militância política do início dos anos oitenta, onde a corrente estudantil a qual pertenciam exercia forte liderança nas escolas, diretórios e centro-acadêmicos. Engajados, empenhavam-se como outros tantos brasileiros pelo retorno da democracia ainda sob as amarras da ditadura. Eram muito jovens; movidos pelo idealismo, motivados na leitura, fortaleciam suas convicções. Espelhavam-se nos revolucionários, nos heróis, nos líderes, nos mártires e mitos. Miravam-se no grandioso legado bravamente conquistado por cada um. Participativos, atuantes em reuniões, seminários, assembléias, congressos, doavam-se nas tarefas noite adentro, madrugada afora, clandestinos, escondidos. Como todos que deram o suor, sangue e vida desejavam mudar, transformar. Um sonho inquietante de igualdade, justiça sem oprimidos nem opressores, palpitava no peito desses corajosos moças e moços.
Aquela manhã, além de produtiva para o grupo acabou inusitada também para o estudante, que após as atividades tratava de chegar em casa. À tarde trabalhava, à noite estudava. Nada fácil a jornada. Acomodou-se no ônibus, tinha pela frente um demorado caminho a percorrer. Pensou cochilar, não arriscou, o receio de perder a hora o despersuadiu. Quieto, observava o entra e sai dos passageiros, alguns demonstrando pressa nos compromissos, outros mais sossegados permitiam-se relaxar em assentos nada cômodos. De parada em parada subiam pessoas enfileirando-se em pé, formando uma composição de rostos, corpos e tipos. Calados ou falantes buscavam seus destinos.
Mal sabia o estudante que atração engraçada no ônibus pairava sobre ele. Com a característica distração (fazendo jus ao verso musical "eu vivo sempre no mundo da lua") acabou virando o motivo de cochichos e risinhos de um casal se divertindo do seu cômico traje: o surrado pijama que na correria da manhã esquecera de trocar. Entre as inconveniências destoavam grandes botões feito acessório desnecessário e jocoso. Uma companheira do grupo o cutucou, tarde demais, via-se o "jocoso" em pessoa. Fazer o que a essa altura do ridículo? Já vinha de longe paramentado assim, empijamado. Tentou disfarçar não tomando os olhares curiosos para si, procurando desvencilhar-se do constrangimento diante da situação incômoda, caricata. Não funcionou. Além de comedido era contido aos arroubos e improvisos.
Devagarinho foi se esgueirando, enfiando-se pelo meio daquele ônibus sacolejando cheio, abafado, até alcançar a porta, ponto estratégico da saída. Na rua pisou firme, encorajado, afinal estava somente há poucos metros de sentir-se aliviado. O episódio do pijama por um tempo esquecido, hoje vem à tona.
A esses arrojados militantes remanescentes de uma época significativa do País, nos quais incluo três filhos, presto minha admiração.


