O mar escancarava uma hostilidade mais que evidente em não
facilitar a navegação aos barqueiros naquele dia. Tomado pela fúria, esbravejava;
ondas intensas cresciam com dimensões assustadoras desafiando tempestades,
ventanias num confronto sem previsão para trégua. As rajadas de vento passavam
aceleradas assoviando; instigavam a luta e avançavam de encontro ao barco a
vela de madeira que, na sua fragilidade rústica, via-se ameaçado em meio a
peleja dramática singrando no montanhoso aguaceiro, driblando arrecifes e assim
procurava desvencilhar-se da ira destrutiva dessas indomáveis forças da
natureza.
Grudado ao leme, a
figura emblemática, heroica do mestre; manejava silencioso a embarcação atento,
envolto pela cautela diante do oceano convulso em contorções e
desequilíbrio. Um acúmulo de pensamentos
duvidosos lhe embaralhavam a mente, porém não admitia amedrontar-se ante a
coragem que o fortalecia, sobrepondo-o ao temor que ameaçava tomá-lo como refém.
Vez ou outra elevava o olhar esperançoso querendo vasculhar no alto do infinito
algo apaziguador, que trouxesse amenidade à tormenta. E lá nas alturas vislumbrava um azul límpido deitado sobre o céu e o revestia por inteiro
serenamente, enquanto a luminosidade solar inebriava como louvação a vida.
Baixava a visão reflexivo olhando o oceano em estado de incessante embate.
O mestre não só
mostrava ser audacioso como era de fato, até porque a convivência, o
conhecimento íntimo com o mar permitia ousar quando necessário fosse. Essa
cumplicidade entre a navegação e barqueiro, desenvolvia de certa maneira
vínculo, estreitamento diário quer seja dia, noite ou madrugada, onde o
amanhecer muitas vezes surpreende os navegantes ao exibir um horizonte multicor agregando pedaços coloridos, traços,
rabiscos que delineia algo abstrato, belo, indefinido diante da plenitude
celestial contemplativa, gratificando como conforto a alma dos viajantes na
solidão temerosa do oceano.
A travessia hostil
continuava, o mar amontoava-se em ondas impulsivas refazendo-se num processo
dinâmico, louco, impulsionado pelo vento em permanente ameaça. Nenhuma paisagem
amenizadora era vista aos olhos dos viajantes, somente a mesma cena repetitiva,
bruta, mortal, hipnotizando. Os passageiros apegavam-se às rezas como escape
amenizador perante tamanha apreensão e medo denunciado em cada olhar sofredor
interrogativo. Tudo se movendo em total descompasso até se complicar mais ainda
quando a vela principal da embarcação iniciou um rasgo que deflagrou risco
grave iminente a todos. A tripulação ágil e no improviso conseguiu um certo
equilíbrio, entretanto, não era nenhuma sustentação duradoura perante o
enfrentamento que a situação oferecia. Cabia ao mestre a decisão definitiva,
qual rumo seguir mediante o agravamento, que passava a comprometer a estrutura
do arrojado, velho barco, sentenciado a dano maior, mas ainda assim resvalava
com agilidade.
O vento persistente varou a tarde, porém foi quebrando a impulsividade passando a demonstrar discreto abrandamento, e ao conter a fúria permitiu um cenário apaziguador onde finalmente cada um pode recompor-se diante da amenidade que começava despontar substituindo as horas conturbadas, tensas, aflitas quase desesperançosas. O sol brando com seu molejo displicente, escondia-se para os lados dos confins deixando para trás um avermelhado que declinava suave até descorar. Longe, muito além, um rastro fugidio caracterizava o poente.
O vento persistente varou a tarde, porém foi quebrando a impulsividade passando a demonstrar discreto abrandamento, e ao conter a fúria permitiu um cenário apaziguador onde finalmente cada um pode recompor-se diante da amenidade que começava despontar substituindo as horas conturbadas, tensas, aflitas quase desesperançosas. O sol brando com seu molejo displicente, escondia-se para os lados dos confins deixando para trás um avermelhado que declinava suave até descorar. Longe, muito além, um rastro fugidio caracterizava o poente.
O barco expondo a
vela arriada a meio mastro resistiu às intempéries podendo assim chegar ao
destino resguardado, ainda que avariado. O burburinho juntou moradores em
frente aos cais onde todos salientavam unanimemente: “ o dia não estava
destinado a navegar”.
O mês era agosto; quando ele chega
surpreende com a carga de ventos desestabilizadores agregados ao cotidiano.
Estigmatizado pela superstição, porém respeitado e temido entre os barqueiros,
torna-se de fato um mês diferenciado entre lendas e realidade.



