Naquela morada viviam três
distintas senhoras carregadas de simpatia e afeto. A mais velha recebeu na
juventude uma herança paterna: a profissão de ourives, nada comum às
jovens do seu tempo até então disciplinadas, educadas para "prendas do
lar". Um mundo essencialmente feminino dedicado à exclusividade domestica,
que impunha regras de comportamento e extenso aprendizado de trabalhos manuais,
requisitos indispensáveis à formação de uma dona de casa "prendada".
A dedicação pelo oficio lhe impulsionou a esmerar-se na criação de jóias sob encomenda tornando-se primorosa artesã, que a fez tomar para si a responsabilidade de provedora da casa. Nas horas livres voltava-se à leitura. Tudo que lhe chegava em mãos lia com avidez curiosa de aprendiz mantendo certo fascínio pelos romances construídos nos enredos e segredos engenhosos das tramas amorosas, sedutoras. Nas tardes mornas espreguiçava-se na rede num puro deleite acarinhada pela aragem soprando mansa ao seu redor. Gostava daquele vento brando que chegava quieto carregando indolência, inebriando paz liberta, envolvente de inteiro devaneio. Apegava-se também à Seleções Reader`s Digest, revista de expressiva circulação à época e de enorme aceitação pela elite conservadora do País, que publicava histórias anticomunistas nas quais o império norte-americano demonizava o comunismo incutindo terror e pânico nos leitores com suas matérias. Porém, no decorrer dos anos as certezas da senhora diluíram-se enveredando por dúvidas e questionamentos sobre a verdade dos fatos, mas guardando consigo resquícios do temor que os relatos e boatos do regime soviético exerceram em sua infância. Lendas assustadoras repassadas pelos mais antigos sugestionavam as cabecinhas infantis distanciando-as da realidade. Recordava, ainda, uma oração rezada em contrito apelo que proporcionava alívio e bálsamo espiritual atenuando o medo ao finalizar: "Senhor livrai-nos do comunismo".
Perante a inevitável velhice definia-se uma senhora contida nas ambições
de novos desafios. Os sonhos esvaíram-se em meio a inquietantes descobertas na
ávida juventude. Longe datavam os arroubos de outrora. Alinhava-se, então, atrelada
numa serenidade que a nova fase ofertava. Olhar complacente, ponderada; reflexiva
para ouvir, julgar, acolher. Na mocidade, desejou encontrar um
marido, mas a sorte não a favoreceu - emendava, disparando a gargalhada
irônica, descontraída. Desistiu, fadada à condição e estigma de solteirona.
A irmã do meio com sua espontaneidade
mostrava de fato ser a mais alegre, extrovertida. Pulsava com ela uma alegria
sem esbanjamento, serena, iluminando-a de cativante simpatia. Como mãe solteira
carregava a difícil responsabilidade de criar o filho sozinha na
ausência da figura paterna, motivo para exercer o papel maternal com
desdobramento visceral emergindo das entranhas, do âmago. Amava sua cria
determinada a protegê-la, defendê-la. Por outro lado, o preconceito grassava como
praga nas patrulhas que vigiavam o cotidiano das mulheres tomando conta de suas
vidas: oprimia, excluía, marginalizava. Mirava obsessivamente as mães
solteiras, descasadas, as "moças mal faladas". Ela não
era exceção, ardiam todas na fogueira permanente da língua ferina da
cidadezinha.
Cabia a irmã do meio a obrigação diária que a casa
exigia, uma jornada exaustiva de trabalho frequente. Das tarefas encontrava
prazer em garimpar livros, e revistas para a irmã leitora, ocupação e lazer que
a desobrigava-a dos afazeres enfadonhos. Sublimou assim uma paixão secreta
jamais exteriorizada, não permitindo ao coração escancarar, viver o sentimento
que ameaçava arrebatá-la. Sufocou-o tomada pelo ímpeto que acreditava sensato,
prudente, todavia, permeada de melancolia. A casa das senhoras consistia
numa combinação elaborada de coisas simples, despojadas. Da
varanda estendia-se o peitoril escorregando em ligeira curva indo acabar
na cozinha artesanal ressaltando características similares ao modelo e uso nas
demais residências. O fogão, alimentado por toras de lenhas queimava durante o
dia nutrindo fagulhas; permanecia aceso para o momento de ser requisitado.
Enquanto isso, o tacho de cobre, entrosado às panelas de ferro e barro, gozava
privilégio ante sua, prestigiosa serventia na alquimia e preparo refinado
dos doces manejados ao capricho das irmãs, ao sabor do conhecimento que
dispunham. A casa emanava agradável bem estar. Caminhando pela sala percebia-se
um silêncio vigilante, estagnado, tomando conta daquele ambiente. Espécie de
guardião rijo, ríspido, que zelava pela intocável arrumação onde móveis,
objetos e tudo mais permaneciam sem desordem qualquer cativos nos lugares
definidos. Dos quartos em dias encalorados soava o ranger das escápulas:
cantiga dissonante repetida de extrema familiaridade aos ouvidos. Ali as
irmãs refrescavam-se aos embalos nas redes.
Atrelado aos fundos da morada o quintal apresentava visão
paisagística espaçosa, verdejante, multiplicada no período chuvoso contínuo em
que a natureza brotava, expandia diversificada abarrotando a terra fazendo
renascer exuberante formosura. Árvores frutíferas sombreavam deitando extensas
copas que facilitava o ir e vir da passarinhada disparando gorjeios frequentes.
Dispunha ainda o quintal de um aglomerado rasteiro de flores minúsculas
graciosas entapetando o chão, fazendo nascer salpicos de cores vivas,
permitindo ao ciclame transluzir seu exotismo. Outras mimosas delicadas
sustentavam-se nos caules finos onde o vento ardiloso ameaçava quebrá-los.
Adiante existia um espaço diferenciado servindo de abrigo e privilégio das
plantas medicinais favorecendo o desenvolvimento e distanciando-as do
importuno das galinhas.
A terceira irmã, a mais nova, podia-se dizer uma senhora voltada a
pensamentos lógicos, decisões práticas; afinal, conduzia a vida exercitando a
plenitude racional estruturada no aprendizado com o qual chegara à maturidade.
Era de fato polida, educada até no falar. Prezava a língua
portuguesa, expressava-se numa excelente linguagem recheada pelo
extenso e variado vocabulário. Demonstração de pureza vernacular, entretanto, sem
pretensão nenhuma ao exibicionismo ou presunção qualquer. Era algo que fluía natural
explanando pensamentos, guiada pela eloquente racionalidade. Buscava nas aulas
particulares a pequena fonte de renda. Ali extravasava plena dedicação; doava-se prazerosa à vocação didática ao incutir
nos jovens conhecimento além do que buscavam. Porém na relação a dois pouco
permitia ser conduzida ou induzida pelo arroubo apaixonado Não era dada
ao deslumbramento amoroso e muito menos ao amor intenso, cultuado,
idolatrado. Procurava distanciar-se das artimanhas ilusórias sentimentais.
Preferia não alçar voos inconsequentes, mas manter os pés no chão.
Recusou-se casar não pela falta de pretendentes - já vivia aos flertes
com o pensar liberto procurando desvencilhar-se das amarras e dogmas
instituídos pela cultura patriarcal relegando as mulheres à condição subalterna,
onde a união matrimonial se tornava espécie de convivência arbitrária de
posse e poder, ou seja, com marido comandando o núcleo familiar em demonstração
de autoritarismo. Gostava de enfatizar suas ideias motivada pela lucidez e
convicção. Curiosamente observava o cotidiano feminino: vigiado, impregnado pelas
limitações, tolhido. Via-o como clausura social impondo rígidos
conceitos à mulher, subordinando-a também à exclusividade no lar. Expor opiniões
contestadoras deixava-a visivelmente marcada aos olhos do preconceito, mas não
era de dar ouvidos a rótulos ou depreciamentos, sobrepunha-se. Ao transgredir
escancarava uma coragem que transitava entre rebeldia e liberdade.
Acima da personalidade marcante de cada
irmã predominava a cumplicidade, sedimentada sobre o vínculo do entrelaço
afetivo mantendo-as coesas. Souberam lidar diante das escolhas e opções,
mesmo que intuitivas, imbuídas com determinação perante um aparato de
"valores" que cercearam, aprisionaram as mulheres gerações
a fio em tempos extremamente longos, implacáveis.




