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sábado, 24 de janeiro de 2015

Redes e rendas de bilros


      O tear recostado à parede da sala era a referência de trabalho; o arrimo e sustento da sobrevivência nem sempre permanecia guarnecido pela indumentária dos fios e cores que teciam rede sob encomenda. Via-se rente à janela um banco tosco comprido; maltratado pelo uso servia de assento ao ambiente vazio e silencioso de onde observavam quem subia e descia a rua do Porto. Atentas à chegada dos passageiros, escutavam a buzina que anunciava a fartura de peixe. Com a aproximação do verão, esgueirava-se pela janela um vento maroto esbanjando travessuras que lambia o rosto da gente bafejando um ar morno e buliçoso, remexendo as palhas que cobriam o teto provocando a zoada peculiar entre as pindobas castigadas pelas chuvas, que ao sol e o calor da nova estação renovar-se-iam.

          A casa denunciava uma pobreza que consumia e resignava; paredes mal caiadas expunham o velho reboco corroído que desmanchava-se em farelos com o passar dos anos. O chão de terra batido, desnivelado e gasto cobrava reparos tanto quanto o resto da morada. Frente às necessidades elas assistiam impotentes ao estrago que as rondavam. Poucas relíquias restavam, como um oratório guardando imagens sacras para os momentos de meditação e reza diante de Santa Bárbara, que abrandava raios e trovões em noite tempestuosa. Outros pertences acomodavam com zelo e pesar nos antigos baús, recordação grata e saudosa do passado familiar. Era assim onde moravam as irmãs Anica e Bárbara. Sozinhas viviam, não tiveram filhos. Do amor e da paixão nunca as ouvi falar, tabus da época não permitidos a ouvidos infantis. Estabeleceram convivência pacífica com a vida e o destino que acreditavam respeitando seus ditérios.

          Dona Anica chamava-se Ana Silvestre. Mais velha, introspectiva, reservada e caseira pouco saía. O rosto tomado pelas rugas intensas marcado de fortes vincos roubava-lhe a expressividade dos olhos azuis. O tom grave de voz soava autoritário, mas desfazia-se ante sua fragilidade e brandura. Não  restava-lhe  traço de mocidade, envelhecera de vez.

          Dona Bárbara recebeu no batismo o nome de Bárbara Rosa. Alquebrada também pela idade apresentava expressão alegre, receptiva. De estatura miúda sobressaía, no entanto, o sorriso espontâneo. Doava-se com generosidade em todos os momentos. Num dos braços escondida em meio à flacidez da pele,  descobria-se uma tatuagem bem desenhada marcando suas iniciais, rasgo de entusiasmo eternizado na juventude. Era ela quem cuidava das obrigações da casa e ainda angariava alimento quando não dispunha de como suprir as necessidades. Vez ou outra saía para vender ovos pelas casas: dois, três, meia dúzia, ou mesmo um único ovo que firmava na mão calejada para repor com a venda o querosene da lamparina. No quintal escasseavam as poucas galinhas. Bananeiras juntadas numa torceira rala pouco davam para o gasto; a mangueira frondosa servia de boa alimentação no período sazonal abarrotando o chão de frutas  como efeito das chuvas e ventanias. No solitário pé de café minguado, quase nada  rendia.

          Prendadas, a elaboração das redes acontecia artesanalmente desde a essência da criação, ou seja, desde a tintura dos fios que iria colorir e torná-las vistosas, acrescentando variações de cores fortes. Trabalho e tanto! No caldeirão, a tinta agregava-se à fervura da água que por sua vez recebia boa quantidade dos fios para o processo meticuloso do tingimento. Duas ou quanto necessário fosse repetir. E o grotesco fogão formado por tacarubas ardia entre gravetos e pedaços escassos de lenha executando sua tarefa. A secagem dos fios processava-se no quintal ao relento, exceto no período chuvoso no qual eram alojados  na sala espaçosa: suspensos, espichados dando inúmeras voltas, improviso assemelhado às formas geométricas mais confusas. Diante do tear a criatividade das irmãs jorravam espontânea, natural. Ao tecer as redes desenvolviam combinações e misturas dos alegres tons nascendo sob o traquejo inventivo das mãos habilidosas. Caprichavam também nas rendas de bilro e labirinto, delicadas cheias de minúcia e beleza. Com o correr dos anos, forçadas pelo declínio das encomendas relegavam bilros e almofadas a um canto empoeirados. Costuravam ainda calças para alguns pescadores, costura manual trabalhosa. Sentadas no chão cercavam-se dos apetrechos: tesoura, dedais, alfinetes
, botões e agulhas enfiadas em longos fios de linha que arrastavam-se entre os panos costurando reto ou sinuosamente, unindo tecidos, prendendo com a eficiência do "ponto-atrás", puxado, repuxado. Exaustivo serviço de paciência e disciplina que dispunham-se a executar. O irrisório pagamento fazia-se muitas vezes em troca de peixe e farinha d`água.

      Nas manhãs claras eu corria àquela casa. Do céu que amanhecia varrido debandavam os nimbos, cúmulos e cirros; na placidez do azul límpido esparramava-se o sol revigorando a vida com seu fulgor. Folhas de árvores voavam em diferentes rumos e o cheiro do verão espalhava-se na poeira que levantava. Encontrava-as em frente ao tear, ou absorvidas nas baforadas dos cachimbos num estado sereno de confortante paz. O fumo de corda seduzia aromatizando os cômodos da casa. A monotonia integrava a rotina em que o tempo não apressava em chegar a lugar algum. Sentava-me acomodada envolvida pelo enternecimento e doçura que fluía do semblante das duas velhinhas. Aos poucos, emergiam lendas que narravam um mundo sombrio de assombrações recheadas de pormenores que somavam veracidade às historias nas quais não passavam os encantos lúdicos dos contos de fadas, transbordantes de magia e final feliz. Eram parte do folclore da pequena cidade com predominância do sobrenatural: almas penadas vagando às sextas-feiras em penitências altas horas da noite, arrastando suas dores, expiando culpas e pecados. Escutava paralisada até encerrarem a última narrativa. O tempo passava e lá um dia retornavam a contar os mesmos casos. Medo e prazer conviviam latentes no meu inconsciente de criança.





terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

QUE CALOR !



A alta temperatura deste verão extrapolou os limites até então registrados há décadas por aqui. A cidade parece saturada também pela ausência de chuva que não chega para aliviar a atmosfera, e o assunto não sai da pauta. A procura pelos ventiladores surpreende as vendas deixando lucro recorde para o comércio.

Ao amanhecer o sol já escancara o fulgor de seus raios; do trono majestoso expande sua beleza incandescente e tórrida chegando ao ápice do calor abrasador.

Nada mais natural eu ser adepta do verão, oriunda que sou da terra do sol cercada de mares e vento assoviando nos coqueirais, mas reconheço que a estação anda abusando no excesso das temperaturas de dígitos elevados provocando desconforto. Surpreendo-me também a reclamar, engrossando o coro dos encalorados, pedindo trégua para  que o verão deixe por menos.

Não chove, não venta, nada refresca senão o vento artificial que gira, roda, soprando do incansável ventilador. Porém, optar entre o inverno tedioso e sombrio, carregado de massa polar e este inconsequente clima, sem vacilar entrego-me calorosamente a ele, o calor do verão.



quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Ano Novo

       

             O Ano Novo rompe esfuziante entre comemorações, músicas e cascatas de fogos flutuando, deslizando no céu com  leveza mística inspirando votos de paz e amor fraterno sobre a humanidade. 

             O nascer do Ano Novo projeta  sonhos, renova expectativas, fortalece o otimismo e a  esperança desponta animadora tomando a dianteira como estrela guia das nossas vidas. A alma e o corpo, ambos em ebulição e efervescência revigoram-se envolvidos pela aura e clima do simbolismo que domina essa festa de tamanho significado na face da Terra .

               Seja verdadeiramente  de paz  e esperançoso o Ano Novo que já iniciou; que seja partilhado de solidariedade e justiça social.

               Um Ano Novo feliz a todos ! Saúde, vida próspera !

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O madrugador

 
O Sabiá-laranjeira é o arauto da primavera. Reaparece polivalente e feliz como prenúncio da estação florida, espalhando sua cantoria pela cidade. Dispara ainda na madrugada: pontual no horário, afiado na melodia vai quebrando o silencioso alvorecer e cativa meus ouvidos.

  Canta estufado de regozijo, apaixonado, desejoso para cortejar a bem amada; ou num desafio valente rivaliza com o adversário pelo domínio de território. Para o amor ou para a luta convence na condição de exímio cantador. Nos dias de pleno gozo, desvela-se à exaustão. Canto que não deixa  de ser também acalanto.

         Acham alguns o Sabiá-laranjeira madrugador inoportuno, que com seus intensos e inconvenientes gorgeios estorva o sossego daqueles que desejam ainda prolongar-se no sono. Francamente,  quanto agrada-me ouvi-lo! Sonoridade melódica vibrando bons fluidos, saudação... algo bom iniciando-se no amanhecer.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Outonando

     Mais um céu azul, cativante envolvendo bons sentimentos. Início de outono assumindo seu posto no comando da estação. Sol brilhante, um vento alvoraçado sopra a brejeirice, sacode folhas, despenteia cabelos, corre longe e, de repente, retorna ao mesmo destino. Em disparada se afasta para surpreender outra vez.

   Nas caminhadas, viro andarilha, exercício para o corpo que disciplina e afaga anseios. Andante, vago, erro por lugares diversos. Ruas paradas, becos calados, passagens de pedra. Disperso-me, desperto com o rebuliço das maritacas em vôos assanhados.

    Outono, outonando nuances e  cores; folhas esvaem-se, outras mais nascem.  Temperatura amena  entremeia a estação. Sol, frio constrói dias lindos.







quarta-feira, 1 de maio de 2013


Meu Maio

A todos
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
Este é o meu maio!
Sou camponês - Este é o meu mês.
Sou ferro –
Eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!

                    
Vladimir Maiakovski