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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Samba-canção, bolero e dor de cotovelo

   
      Lançado no mercado de publicações uma estilosa e completa biografia de Dolores Duran, preciosidade para o deleite de admiradores, nos quais me incluo, debruçarem-se sobre relatos, fotos e  histórias da cantora. Registro de uma época próspera em que predominava o samba-canção e bolero, ambos de beleza e estilo musical refinado.

     O amor era personagem essencial nos anos cinquenta, passeava pelos versos carregados de melancolia e paixão. Amor platônico, solitário, dilacerado. Intérpretes cantavam com  emoção aflorada tocando corações tristonhos em abandono; boêmios exauridos pelo excesso e desilusão; namorados enebriados de romantismo. Amores desfeitos, amores proibidos,  sussurrados, segredados à meia luz das boates e bares noturnos. A música chamada dor de cotovelo circulava ambientada nesse convívio sentimental no universo da utopia. O amor idealizava-se na perfeição, lírico e infinito. Pessoas amavam com louca e apaixonante entrega, amarguravam-se desesperadamente. Na partilha de sofrimento o quinhão maior ficava  com a mulher.

     Dolores Duran, um ícone da época, iniciou precocemente a carreira aos dezessete anos, precisando adulterar a idade para trabalhar na noite como crooner da mais luxuosa e imponente casa de shows do Rio de Janeiro dos anos quarenta e cinquenta, a boate Vogue, localizada na lendária Copacabana. Chamava-se Adiléia da Silva Rocha, carioca nascida em sete de junho de 1930. Talentosa, genial, com influencia jazzística, também cantava fluente em vários idiomas; logo cedo conquistou o reconhecimento dos músicos mais exigentes. Compondo sozinha ou em parceria deixou clássicos que enternecem como a poética " A noite de meu bem": 

"Hoje eu quero a rosa mais linda que houver 
quero a primeira estrela que vier  
para enfeitar a noite de meu bem... "  

Em "Fim de caso" cantou o amor em desencanto: 

"Eu desconfio 
 que o nosso caso está na hora de acabar
 há um adeus em cada gesto em cada olhar 
 mas nós não temos é coragem de falar..." 

Celebrou a beleza da vida em "Estrada do sol":

 "É de manhã 
 vem o sol mas os pingos da chuva que ontem caiu 
 ainda estão a brilhar 
 ainda estão a dançar 
 ao vento alegre que me traz esta canção..." 



      A intensa vida que levava comprometeu a saúde fragilizada desde a infância por um sopro no coração, que exigia cuidado e rotina moderada. Em 24 de outubro de 1959 chegou da boate para o descanso já em dia claro. Queria dormir bastante, e frisou em tom de brincadeira para a empregada que iria dormir até morrer. Um colapso cardíaco a levou na juventude dos 29 anos. Outros grandes intérpretes do samba-canção marcaram esse período: Nora Ney, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Maysa e Antonio Maria, dentre outros. Dolores Duran teve uma vida curta e fugaz. Marcou gerações influenciou com seu estilo de compositora e intérprete imortalizando-se no imaginário de todos.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Tempo de flores


    No início desta primavera as  temperaturas geladas mudaram o visual do clima com aspecto de um inverno de rigor excessivo . No Sul, em  vez de flores uma neve fina salpicada pelos campos esbranquiçou a vegetação, criou moldes e desenhos com forma típica de paisagem fria, cinzenta, descolorida.

      Para os lados paulistanos a situação climática não foi diferente. Termômetros desceram  pra valer, e quanto! A garoa  intercalava desconforto com um vento desnorteado, estabanado, que acelerando em todas as direções  fustigava as pessoas aumentando a sensação de frio desolador.

       A chuva se apresentou discreta: molhou a terra, banhou as plantas, limpou superficialmente impurezas da atmosfera. Lavou o asfalto, deixando-se escoar entre ralos e galerias pluviais para desembocar em outros recantos. Renovou a vida.  

   Na rua predominou o figurino eclético, cada qual  agasalhou-se como pôde. Casacos pesados e acessórios diversos, de cor, tamanho,beleza e esquisitice deram suporte e aquecimento ao corpo. Primavera é uma estação de transição, afirmam  meteorologistas, logo sujeita às instabilidades, variações, mudanças e oscilações do clima. Eu diria este frio tratar-se de um disparate fora de época a desestabilizar a temperatura.  Presto minha reverência à Primavera, à beleza atraente das flores exóticas, singelas, enigmáticas e sedutoras.
            

domingo, 9 de setembro de 2012

Incêndios

   Somente neste ano trinta e duas favelas sucumbiram na cidade de São Paulo em meio às labaredas de fogo, expondo um cenário  nu e desolador de perda, sofrimento, indignação. Só em agosto oito incêndios reduziram barracos à cinzas, pó e destroços numa sequência alarmante. O trágico virou rotina, tornando rotineiro varrer favelas do mapa.

   Famílias e tantas desabrigadas, amontoadas em improvisados alojamentos, virando-se como podem.

  Algumas recorrem a parentes, outras  permanecem na rua ao relento, cuidando, guardando o que restou-lhes. De longe vigiam o pedaço de chão esturricado onde assentarão os mesmos espremidos cômodos, forrados, cobertos por igual risco e perigo.Não é sina nem saga.

  À quantas andam as políticas de prevenção e urbanização de favelas nesta cidade? Pelo visto caminham à larga distancia da realidade. Investimentos em habitação para familias de baixa renda, pior ainda, não existe. Os compromissos eleitoreiros assumidos por prefeito e governador não passam de engodo, promessa politiqueira, poesia do discurso demagógico, ilusório e ficticio.
                                                                   .
       .                                                                                                                                                        

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Viagem marcante



 O vento não debandava ou aliviava. Nem o mar atenuava a fúria. O rústico barco à vela singrava impetuoso, saltando, driblando as ondas encrespadas pela lufada. A viagem exigia desdobrado esforço dos tripulantes em conter a intensidade das ondas cercando a embarcação, varrendo bagagens, que rolavam como bolas entregues ao destino de um fatídico jogo. Era agosto, mês dos ventos traiçoeiros temidos pelos barqueiros da região.
     Os passageiros viam-se num embate com desfecho imprevisto, acuados pelo mar em surto.Um pânico silencioso revelava-se visível em cada expressão sob o impacto do medo e suspense. Somente um senhor com ar desesperançoso arriscou num breve desabafo o lamento contido ao ver um cofo abarrotado de frutas sendo tragado pelo turbilhão das águas. Num gesto tragicômico se deixou expressar:
- “Vai abacate, procura teu destino!..”  
Alguns esboçaram por um instante um sorriso tenso e preocupante, apenas, voltando a predominar o silêncio.
     O oceano destruía e construía montanhas de ondas que causavam efeito de terror incessante. O Mestre segurava o leme concencioso da responsabilidade que lhe pesava. Calado, conduzia o barco entregue ao desvario de dois gigantes: vento e mar. Num rasgo do momento decisivo, soltou o grito de alerta: “Arribar!” Seguir na peleja significava levar a embarcação a pique.
     Além, uma nesga de terra apontava a salvação. Uma extensa praia de beleza solitária e algumas casas em abandono por conta do mar invasor e bruto, que reduzia-as a escombros passava a ser no momento abrigo para os quase náufragos. Um lugar paradoxalmente dividido: encanto e temor. Aquietaram-se exauridos ali mesmo, expostos aos pernilongos logo afugentados pela fogueira de galhos secos de mangue. Um morador sensibilizado ofereceu sua casa para as mulheres pernoitarem. Os homens contentaram-se com um casebre que servia de moradia às cabras.    
     O pesadelo dissipou-se diante da placidez do entardecer. O Sol se distanciava a caminho do poente, descia lento até esconder-se alinhado ao horizonte marcado de nostalgia e cores. Distante, a minúscula luz identificava o farol, guia dos barqueiros, referência nas tempestades noturnas.
     No dia seguinte cedo se juntaram, confabulando, observando o tempo,  que emanava dos coqueirais uma aragem benfazeja; Indício e bom sinal favorecendo a navegar. Na praia a vaga deitava-se pacífica, indolente, desmanchava-se indo e vindo a banhar de espumas as conchas dispersas na areia. O mestre retomou o seu posto, traçou com o olhar alguma linha imaginária a seguir adiante. A ordem era zarpar.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dor moral

     Toda forma de tortura é cruel, aviltante, fere e viola o principio da dignidade do ser humano. Refiro-me aqui às presas grávidas, que até poucos meses atrás em São Paulo eram algemadas mãos e pés durante o trabalho de parto e o pós-parto em instituição hospitalar.


   Parir dessa maneira é desumanamente doloroso, traumático. É parir também com a dor moral da violência das algemas cerceando o direito à liberdade numa hora delicada, apreensiva, em que a gestante necessita de amparo, atenção e serenidade.
     As contrações e dores do parto natural são como um prenúncio de uma vida se desvencilhando do seu mundo uterino escorregando para o encontro da plenitude no colo materno. Vínculo primordial, salutar para mãe e filho que, infelizmente, nem sempre acontece.

    As denúncias chegaram de várias entidades empenhadas na divulgação para que providências fossem agilizadas pelo governo paulista, que as refutou,  negando a existência. Um vídeo, no entanto, filmado por funcionário do hospital em Francisco Morato, divulgado por um canal de televisão, comprovou mais uma vez  os maus tratos. A cena era a mesma: uma presidiária gestante com mãos e pés imobilizados por algemas, presa à cama hospitalar. Ali configurava explícita a tortura física, psicológica e moral.

    Sem nada a declarar o Governador  assinou o decreto Estadual n° 57.783, em 10 de fevereiro de 2012, proibindo tal prática.

domingo, 24 de junho de 2012

Próximo!



Em certas agências bancárias a fila da terceira idade não passa de ridícula piada de mau gosto. A prioridade da qual dispomos não se trata de nenhum favor, mas de um direito adquirido, que não parece ser levado a sério. Prolongadas demoras  submetem-nos  a uma provação de tolerância, paciência e resignação. Sentados ou em pé, os idosos experimentam o exaustivo desconforto da espera do atendimento.

No início do mês, período que coincide com o pagamento de aposentadorias, pensões e outros benefícios, juntando-se  aqueles que carregam a missão das contas dos familiares ou empresas para quitarem débitos, o acúmulo fica maior. Todos a mercê e dependência de um único e exclusivo caixa destinado ao idoso.  O problema seria simplificado com a disponibilização de mais um guichê, facilitando a vida de senhoras e senhores nessa entediante espera. Uma hora é muito! Vira desrespeito, segregação. É comum, corriqueiro, ver quatro, cinco caixas todos agilizados  voltados a serviço dos demais clientes.

Imaginem os lucros arrecadados pelos bancos com  o contribuinte da terceira idade, incluindo empréstimos consignados à base de exorbitantes juros, que somente agora dão trégua, baixando por determinação do governo federal. Ainda é necessário descer mais, aliviar o bolso dos menos favorecidos.

Os idosos não querem, nem desejam esquentar cadeiras em agências bancárias como se  invisíveis fossem diante das sucessivas repetições de indiferença. Vão ali para tratar e resolver negócios, até porque o banco é um estabelecimento de comércio para transações comerciais.

A terceira idade nos dias de hoje vive antenada, adaptada à realidade do mundo atual com suas mutações e transformações. É produtiva, tem projetos, sonhos, se liga nos noticiários,  na internet,  cultiva  vitalidade, se  exercita, redescobre a paixão. Conhece a sabedoria e serenidade que a maturidade oferta.

Essas senhoras e senhores, desbravadores da vida, pioneiros e protagonistas do seu próprio enredo e história são antes de tudo cidadãos.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Retalhos

A temporada outonal parece desfrutar o ápice dos dias bonitos. O sol anda cheio de afagos dourando a cidade. Temperaturas amenas espalhadas por todos os lados. Trégua para enchentes e temporais. Períodos de paz;  pena que seja somente períodos.

Céu de um azul sedutor. Céu que furta do arco-íris a cor;  mistura contraste, desmancha, resvala, cai em degradê suave. Nuvens esgarçadas emendam pedaços, retalhos, e em debandada pelos caminhos dos astros e galáxias vão criando bordados.

O outono surpreende: nem cinza, nem triste:  belo. Folhas amarelas se despreendem de leve, beijam o chão, adormecem.

Uma diva e sua canção: "Estrada do Sol", Dolores Duran. Roubo um verso, transcrevo o momento mais que oportuno: "Me dê a mão vamos sair pra ver o sol"...